Dezenas de trabalhadores da Lactogal concentraram-se esta sexta-feira à entrada da fábrica de Oliveira de Azeméis reclamando aumentos salariais ajustados à crescente faturação da empresa e subsídios de alimentação pagos em dinheiro a quem prefira não usar as cantinas.

Nessa unidade do distrito de Aveiro, cerca de 40 operários envergando máscara respiratória e tentando manter o distanciamento físico imposto pela pandemia de Covid-19 exigiam também remunerações que tenham em conta a antiguidade dos funcionários, à semelhança do que aconteceu nos outros dois pontos da greve em curso até às 23h59: a fábrica da Tocha, no distrito de Coimbra, e a unidade de Vila do Conde, cujos trabalhadores se deslocaram até ao Porto para protestar junto à sede da Lactogal, no Campo Alegre.

Paulo Oliveira trabalha na fábrica de Oliveira de Azeméis, é delegado do Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias de Alimentação do Norte (STIANOR) e declarou à Lusa que o desagrado dos funcionários se deve ao facto de a empresa não ter implementado os aumentos salariais que em fevereiro foram acordados com a Associação Nacional dos Industriais de Lacticínios, que representa o patronato do setor.

“O acordo previa aumentos salariais de 3,16 a 5,94%, o que dava 30 a 35 euros por mês, e o que a Lactogal implementou foi só 1,5%, que é muito abaixo do que ela pode pagar, porque todos os anos tem lucros milionários e ainda aumentou as vendas durante o período de confinamento [para contenção do vírus SARS-CoV-2]”, afirma.

Fernanda Santos que também participou no protesto em Oliveira de Azeméis, concorda que “a Lactogal não cumpriu o compromisso que tinha assumido com o sindicato” e acrescenta duas outras críticas à postura da marca que, contando com 1.500 funcionários, detém mais de 60% da quota de mercado dos laticínios portugueses.

“Primeiro, queremos ter o direito a optar por comer na cantina ou por receber o dinheiro do subsídio de alimentação. Nem toda a gente usa o refeitório, há pessoas que têm obrigatoriamente que ir a casa e não é justo que fiquem sem apoio por causa disso”, argumenta, junto a colegas que empunham cartazes apelando ao “Direito à Opção entre o Subsídio ou a Refeição”.

A segunda reivindicação de Fernanda é “que a antiguidade seja valorizada”. Como funcionária da Lactogal há 11 anos, defende que a experiência profissional deve refletir-se no salário dos trabalhadores porque “não é correto que uma pessoa com vários anos de casa esteja a ganhar quase o mesmo que um estagiário que começa funções agora”.

Contactada pela Lusa, a administração da Lactogal – que integra a AGROS, a LACTICOOP e a PROLEITE/Mimosa – mantém que não implementou os aumentos negociados para o novo contrato coletivo de trabalho porque a revisão acordada para a nova tabela salarial “até à data não foi publicada” nos órgãos devidos.

José Armando, dirigente do STIANOR, reconhece que o pré-acordo ainda não foi revisto pelas autoridades estatais nem publicado no Boletim do Trabalho e Emprego, mas atribui essa demora às contingências resultantes da pandemia, que “atrasaram todo o processo burocrático” iniciado em fevereiro, “ainda antes de se perceber a gravidade da Covid-19”.

Fonte oficial da Lactogal adianta, contudo, que, “mesmo quando esse acordo fizer efeito, será, como sempre, para o mínimo das categorias, com uma aplicação residual na empresa, e não para incremento global de remunerações, uma vez que a marca paga salários bastante acima das tabelas do setor”.

Quanto ao subsídio de almoço, alega que o Código Coletivo de Trabalho só atribui esse direito a colaboradores “deslocados em serviço” e nota ter a funcionar diariamente “cantinas onde os funcionários fazem refeições por um pagamento simbólico de 50 cêntimos”, o que encara como “uma regalia social”.

José Armando conclui que essas “são desculpas de uma empresa que sempre teve uma atitude sobranceira”. Na perspetiva do sindicalista, “a Lactogal só não implementou os aumentos salariais acordados porque não quis: até aqui tinha dificuldade em arranjar mão-de-obra, mas agora, com o desemprego criado pela pandemia, conta ter gente à porta a pedir-lhe trabalho e vai aproveitar-se disso para manter os salários baixos”.