O primeiro-ministro, António Costa, rejeitou este domingo que os jogos da fase final da Liga dos Campeões, que se vão realizar em Lisboa no mês de agosto, tenham público nas bancadas — uma decisão que a UEFA tinha remetido para julho e sobre a qual a Direção-Geral da Saúde também ainda não tinha emitido um pronunciamento final.

Numa entrevista ao humorista Ricardo Araújo Pereira no programa da SIC “Isto é Gozar com Quem Trabalha”, António Costa foi questionado sobre se a final não devia ser em futsal, em vez de futebol, de modo a garantir que dentro do campo não eram ultrapassados os limites legais para os ajuntamentos na área metropolitana de Lisboa, recentemente reduzidos para 10 pessoas.

Em resposta, o primeiro-ministro garantiu: “Em cada um desses jogos presencialmente vai ter menos público do que nesta sala do Teatro Villaret [local onde é gravado o programa]”. Tendo em conta que o programa é gravado perante uma plateia composta por poucas dezenas de pessoas, rapidamente se conclui que o primeiro-ministro defende que nos estádios não estejam mais do que as pessoas essenciais para a realização do jogo (na Liga portuguesa, por exemplo, foi definido o limite máximo de 185 pessoas necessárias à realização do jogo, incluindo para a cobertura e transmissão da partida).

“Vão ter menos público presencial e um bocadinho mais de público televisivo. Claro que com a minha presença hoje cá vai ser diferente”, brincou o primeiro-ministro.

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A posição de António Costa sobre a realização dos jogos da Liga dos Campeões sem a presença de público é a primeira certeza dada publicamente sobre o assunto. Quando a UEFA anunciou que Lisboa iria acolher as partidas, o líder do organismo que tutela o futebol europeu, Aleksander Ceferin, adiou para julho a decisão sobre a presença de público nas bancadas.

“Se tivesse de dar uma resposta hoje, diria que não teremos possibilidade de ter adeptos. Mas há um mês nem sabia dizer se teríamos possibilidade de terminar as competições. Ainda não decidimos relativamente aos espetadores, pois vamos analisar no início de julho. Seria uma incompetência, da nossa parte, decidir antecipadamente. Vamos decidir até meio de julho, seguramente. Não sabemos se serão apenas adepto locais, se nenhuns adeptos ou se adeptos de outros países que podem estar nos jogos. Como já disse, se fosse agora que tivéssemos que decidir, não haveria adeptos. Mas temos de esperar. Os jogos da Liga dos Campeões só serão daqui a dois meses e já vimos como as coisas mudam em dois meses”, disse na altura o responsável.

Mesmo em Portugal, as autoridades de saúde ainda não tinham dado certezas definitivas sobre a possibilidade de acolher público nos estádios onde se vai jogar a fase final da Liga dos Campeões.

Na entrevista, António Costa respondeu também às críticas de que foi alvo depois de considerar que a realização da Liga dos Campeões serviria de prémio aos profissionais de saúde pelo seu empenho no combate à Covid-19.

“Sou um glutão das palavras, não devem ter ouvido a parte em que eu disse que era um agradecimento aos portugueses em geral, aos profissionais de saúde em particular, por terem criado as condições de confiança para que Portugal fosse escolhido como um destino seguro para realizar a Champions“, disse o primeiro-ministro.

“João Leão passou a capitão de equipa”

Numa entrevista repleta de metáforas futebolísticas, António Costa comentou ainda a troca de ministro das Finanças, com a saída de Mário Centeno e a subida de João Leão, até então secretário de Estado de Centeno. Questionado sobre se ir buscar alguém à equipa B poderia ter um efeito semelhante ao que aconteceu com Bruno Lage no Benfica, Costa assegurou que “o João Leão já fazia parte da equipa A, há cinco anos que já estava a jogar na equipa A, passou foi a capitão de equipa“.

Costa comentou também a nomeação do empresário António Costa e Silva para liderar, junto do Governo mas de forma externa (situação que lhe valeu a designação de “paraministro”), o trabalho de preparação do programa de recuperação e relançamento da economia nacional no futuro pós-pandemia.

De facto, o professor António Costa e Silva pode trazer bastante mais do que aquilo que eu poderia dar para este desenho do projeto de futuro, pelo seu conhecimento, pela sua reflexão estratégica, pela liberdade que tem de pensar, de se articular com todos os agentes políticos, sociais, que são fundamentais para mobilizar o país e para a fase da recuperação seguinte”, disse o primeiro-ministro.

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Sobre a decisão, conhecida esta semana, tomada pelo juiz de instrução Carlos Alexandre de levar a julgamento todos os arguidos do caso de Tancos, incluindo o ex-ministro da Defesa Azeredo Lopes, António Costa disse que o julgamento vai “finalmente” passar a acontecer “no local próprio, que é o tribunal”.

“É uma felicidade podermos todos agora subir ao grande palco. Finalmente, um julgamento que tem sido público vai continuar a ser público, mas, agora, no local próprio, que é o tribunal. E com uma curiosidade que eu acho que todos temos — eu, pelo menos, tenho. Tem de reconhecer que é um argumento muito original, que é o argumento em que o crime verdadeiramente grave não foi o roubo das armas, mas o crime verdadeiramente grave foi recuperar as armas. É tal a originalidade da narrativa. Olhe, eu, por mim, estou curiosíssimo em ver esse julgamento que, felizmente, vai chegar à praça pública”, disse Costa.

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O primeiro-ministro teve ainda tempo de desvalorizar a oposição interna no PS, quando questionado sobre o facto de apoiar uma recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa contra uma eventual candidatura da socialista Ana Gomes à Presidência da República, e confrontado também com a oposição interna de Francisco Assis.

“É muito injusto quanto ao conjunto dos partidos políticos, à direita e à esquerda, que têm uma vida própria e dinâmica, mas também é muito injusto com o PS. A liberdade no PS nunca foi um problema. Foi sempre uma enorme vantagem e uma enorme qualidade. O PS foi fundado como partido da liberdade, e assim temos vivido, e portanto a liberdade de pensamento, a liberdade de expressão, nunca é um problema. Nem no PS nem fora do PS”, afirmou Costa.