Tem 45 anos, nasceu na Rússia, tem nacionalidade canadiana e um nome que começa cada vez mais (re)conhecido na Premier League. Marina Granovskaia não marca golos, não faz assistências e nem tem propriamente muitas aparições públicas mas muito do que será o futuro do Chelsea, e da possibilidade de haver uma maior oposição ao monopólio inglês na luta pelo título hoje circunscrito a Liverpool e Manchester City. E é também por ela que não houve qualquer venda de posição ao desinvestimento nos blues por parte de Roman Abramovich.

Abramovich com visto caducado. Retaliação do Reino Unido contra os russos?

Depois de estudar numa escola de Moscovo especializada em música e dança, e de se ter formado em Línguas na Universidade da capital russa seis meses depois da queda da União Soviética, Marina Granovskaia começou a trabalhar nas empresas petrolíferas do oligarca russo mas começou a ter um outro protagonismo quando passou a ter mais contacto com as decisões no Chelsea. Foi ela que, por exemplo, negociou o maior patrocínio de sempre do clube num acordo superior a 65 milhões de euros por época com a Nike até 2032. E foi ela que, a partir de 2014, já promovida a diretora executiva dos blues, aguentou a gestão perante a ausência de Abramovich, que viu a renovação do visto negada em maio de 2018 pelos problemas entre Reino Unido e Rússia. Durante algum tempo, esteve em cima da mesa a possibilidade de venda do Chelsea; agora, já se fala e muito é no investimento.

Apostando no antigo capitão Frank Lampard para comandar a equipa após o bom trabalho no Derby County, e assumindo a temporada de 2019/20 como um ano zero de uma novo ciclo condicionado pela impossibilidade de contratar jogadores face aos problemas com o fair play financeiro, a equipa já assegurou dois avançados de peso para a próxima época (Timo Werner, do RB Leipzig, e Ziyech, do Ajax) e vai continuar em força no mercado com o cunho daquela que o The Times descreveu como “a mulher mais poderosa da atualidade no mundo do futebol”, reforçada com a saída em 2017 de Michael Emenalo após dez anos no clube e seis como diretor técnico.

Onde esteve a grande diferença? O Chelsea deixou de ser apenas um clube a comprar caro e começou também a fazer grandes encaixes com vendas, como aconteceu com Óscar (Shanghai SIPG), David Luiz (PSG) ou Diego Costa (Atl. Madrid). E foi isso que colocou a dirigente como figura de destaque, saindo da sombra de Abramovich, de quem é uma espécie de braço direito numa ligação profícua para o oligarca que vendeu a companhia petrolífera que comprara em 1997, e onde Marina Granovskaia começou, por uma valor 250 vezes superior sete anos depois, como destacava a Sky Sports num perfil onde recorda também a importância que teve no regresso de José Mourinho a Stamford Bridge e, antes, na mudança para o centro de treinos em Cobham. “Ela é o verdadeiro poder no Chelsea. O Roman tem total confiança nela. Não está interessada em ser uma celebridade mas com o tempo tornou-se claro que é ela que manda e toma as decisões mais importantes”, referiu uma fonte interna, citada pelo Evening Standard, que recordou também as relações mais frias que teve com Antonio Conte ou Maurizio Sarri.

Em paralelo, a russa teve também um papel preponderante na colocação do Chelsea como ponto relevante na ligação com a comunidade, como se viu nos últimos meses com a abertura do hotel Millennium Hotel para os profissionais do Serviço Nacional de Saúde na linha da frente durante a pior fase da pandemia ou a doação de quase 80 mil refeições entre outras iniciativas pagas por Abramovich mas promovidas por Granovskaia, alguém que raramente aparece ou dá entrevistas e que tem altas definições de segurança nas suas redes sociais. E entre tantos elogios numa fase onde esta equipa low cost continua em zona de Champions, está nas meias da Taça após eliminar o Leicester (1-0) e vai disputar a segunda mão dos oitavos da Liga dos Campeões com o Bayern (embora com uma desvantagem de 3-0), fala-se muito da situação de Willian, mais uma vez um dos melhores.

Com várias alterações em relação à equipa que defrontou e venceu o Manchester City na Premier League, naquele que foi o jogo que permitiu ao Liverpool festejar o título a sete jornadas do final, Frank Lampard viu um Chelsea com menos presença em campo (apesar de ter a oportunidade mais flagrante por Pulisic, para defesa de Kasper Schmeichel) e um Leicester com mais aproximações aproveitando alguns erros na fase de construção sobretudo do jovem Gilmour mas com apenas dois remates com algum perigo, por Tielemans (travado por Caballero para canto) e Jamie Vardy (ao lado). No entanto, e com as entradas de Azpilicueta, Ross Barkley e Kovacic na equipa, os blues tiveram uma entrada diferente em campo após o intervalo e o golo parecia uma inevitabilidade.

Com um cruzamento de Chilwell que bateu ainda na parte de cima da trave pelo meio, o Chelsea condicionou por completo o jogo do Leicester pressionado com linhas mais altas, teve uma jogada muito perigosa com remate de Pulisic que seria depois anulada e marcou por Tammy Abraham num lance que seria anulado por fora de jogo. O golo apareceria mesmo já na meia hora final, com Willian a assistir Ross Barkley para o desvio sem hipóteses para Schmeichel ao primeiro poste (63′), e os blues garantiram a passagem à fase seguinte da prova no terreno de uma equipa que ocupa o terceiro lugar da Premier League com mais uma grande exibição do avançado brasileiro de 31 anos que vai terminar contrato no final da época. Conseguirá Granovskaia dar ainda a volta?