Desde que o podcast “Serial” aproximou os criminosos/crimes de uma audiência sedenta por um novo tipo de aproximação jornalística/documental ao crime, que este tipo de investigação se tornou um género não só nos podcasts mas, sobretudo, para uma audiência maior, a dos serviços de stream. A Netflix criou um template para o género com “Making a Muderer”, formato esse que chegou a ser gozado por outra série da Netflix (“American Vandal”)  e que, desde então, já deu para diversas histórias, algumas que nem estão necessariamente ligadas ao crime, como é o caso recente da popular “Tiger King”.

Esta segunda-feira a HBO Portugal estreou uma série que desbloqueia, de vez, esse template. Os seis episódios de “I’ll Be Gone In The Dark”, série supervisionada e com alguns episódios realizados por Liz Garbus (“What Happened, Miss Simone?”, “Who Killed Garrett Phillips?”, “Lost Girls” e “The Innocence Files”), não são sobre um assassino. Tal como não é o livro de Michelle McNamara, em que se baseia esta série documental, ou, noutro limite, a investigação de Michelle McNamara. Mas também é sobre um assassino, o “Golden State Killer”, assim designado por Michelle, anteriormente conhecido por “East Area Rapist” ou “Original Night Stalker”, que ao longo de doze anos matou pelo menos treze pessoas e violou cinquenta mulheres.

Em teleconferência, Liz explica a sua visão: “Desde o início que queria que a Michelle fosse o narrador, que a voz dela guiasse a história. Para mim, como leitora, quando li o livro pela primeira vez, isso foi a minha experiência. Não conhecia o caso, não conhecia os sobreviventes, não conhecia os agentes policias. Foi a voz da Michelle que me introduziu a este mundo com tanta compaixão. Queríamos recriar essa viagem. Para mim, como mulher, mãe, alguém que trabalha, é uma história que também me diz algo. Tal como a história dos sobreviventes, as suas vidas, os seus casamentos, como escolheram viver. Tal como a Michelle. Queria que ela estivesse sempre no centro.”

“Como mulher, mãe, alguém que trabalha.” O que Liz Garbus diz nas entrelinhas desta frase – e do resto do seu raciocínio – é de que queria homenagear Michelle McNamara. “Quis criar um balanço, entre as diferentes pistas da Michelle, a sua história e a sua investigação. Os sobreviventes, as suas histórias, as forças policiais e a captura de DeAngelo. A tensão entre tudo. Foi um grande desafio.” McNamara morreu em 2016, sem acabar o seu livro (que seria publicado postumamente em 2018). Desde o início do século que a autora se interessou pela investigação criminal e a com a possibilidade de fazer investigação online – e não só – e de escrever sobre isso na internet – em blogs, fóruns -, resolveu fazer disso carreira. Era a autora do site True Crime Diary (http://truecrimediary.com/) e, em 2013, o primeiro de vários artigos sobre o Golden State Killer, na Los Angeles Magazine, chamou a atenção do mercado livreiro, que rapidamente lhe ofereceu um contrato para um livro. “I’ll Be Gone in the Dark: One Woman’s Obsessive Search for the Golden State Killer” é menos um livro sobre um assassino e mais um livro sobre a obsessão de uma mulher sobre um assassino que parece ter ficado fora do radar nos anos 1970 e 1980, bem como a sua – e a de outros cidadãos-detectives – investigação sobre o caso.

“I’ll Be Gone in the Dark”, a série documental, é true crime¸ mas também é uma viagem à vida de Michelle — e ao seu casamento com o comediante e ator Patton Oswalt, com quem o Observador também falou –, a este tipo de investigação criminal conduzida por cidadãos, à história dos sobreviventes, ao livro e à forma como é que um assassino como este, com tantos crimes cometidos, nunca se tornou popular como outros, com um cadastro bem menor. É, também, uma série que explica o fenómeno popular dos assassinos em série: como se fosse “uma banda rock com sucesso” vs. “aquela que não teve sucesso, mas que tem músicas bem melhores”.

Também em teleconferência, Patton Oswalt confessa que foi amargo ver a série: “Só consegui ver quatro dos seis episódios. Começou a ficar muito emocional para mim. A realização da Liz levou-me ao tempo que vivia com a Michelle e para a perda dela. Tive de ligar à Liz para lhe dizer para não ficar ofendida comigo, por não ver os dois últimos episódios. Não sei se alguma vez serei capaz de os ver.” Isto é ainda mais difícil para Patton porque foi a obsessão de Michelle McNamara pelo Golden State Killer e a pressão para escrever um livro que a levaram à sua dose involuntária: “Sou um fã de boa escrita. E percebi desde muito cedo que estava a viver com uma grande escritora. Se podia ajudar em algo, para que ela pudesse escrever o livro, eu estava disposto a ajudá-la.”, diz-nos Patton Oswalt mais à frente. Continua “Havia dias que ficasse excitada, ia contra um muro, perdia o entusiasmo, mas depois voltava ao trabalho. Era uma pessoa muito presente no que fazia. Tudo o que ela era veio ao de cima quando ela escreveu o livro.”

No primeiro episódio é difícil perceber todas estas nuances. “I’ll Be Gone In The Dark” parece-se como mais uma série sobre um criminoso. Mas não é. As várias camadas da série de Liz Garbus começam a surgir no segundo episódio e à medida que se percebe que é mais uma série sobre os outros, sejam os sobreviventes, Michelle ou os outros detetives como Michelle, torna-se mais cativante e menos pretensa ao habitual formato de documentário deste género ou a peça jornalística. Agarra pelos vários olhares mas também pela vulnerabilidade da história de Michelle, alguém que esteve na fundação da popularização deste tipo de investigação.

Patton Oswalt acredita que a série trará uma nova vaga de investigadores: “Penso que isso já está a acontecer, há tantos podcasts de crime, blogs, cidadãos detetives. A Michelle gostava de reforçar que não estava a fazer isto sozinha, estava a pedir ajuda, que estava a usar várias recursos. Há mais gente a fazer assim. Não é uma pessoa sozinha que apanha um assassino. É sempre um trabalho de equipa.”

Ao longo das duas teleconferências, tanto Patton como Liz parecem concordar que “I’ll Be Gone In The Dark” é uma série que quer colocar o espectador a pensar mais nas vítimas – até pela dimensão dos crimes e a falta de reconhecimento, durante décadas – do que no criminoso. “Gostava que a série fizesse com que a audiência olhasse mais para as vítimas e menos para os assassinos. Que a atenção voltasse a estar no sítio certo.”, confessa Patton. Liz confirma: “Penso que foi muito importante centrar a história nos sobreviventes e não olhar para eles do ponto de vista do assassino e dar-lhe o estatuto de anti-herói. A voz da Michelle foi essencial para a forma como contamos a história, ao centrar a história nos sobreviventes, evitámos alguns dos percalços e lugares comuns das histórias dos assassinos em série.”