“Não queremos ser só o país da Web Summit.” As palavras são do secretário de Estado para a Transição Digital, André de Aragão Azevedo, que esta terça-feira afirmou que o objetivo de Portugal para a presidência do Conselho da União Europeia, em 2021, vai passar por “dar o destaque merecido ao ecossistema de startups [portuguesas]”.

As declarações foram feitas durante a apresentação do estudo da Startup Portugal, da EY e da SAP, sobre o ecossistema de empreendedorismo português, que mostra um “otimismo moderado” das startups em relação ao futuro, disse o político. Além disso, o estudo conclui que 3,8% das startups tiveram de encerrar, 4,6% estão “prestes a suspender a atividade temporariamente” e 19,8% estão com a “atividade temporariamente suspensa” devido à pandemia de Covid-19.

A maioria das startups afirma estar a “laborar normalmente”

No âmbito da presidência do Conselho da União, Aragão Azevedo disse ainda que quer “trazer para Portugal um dos eventos mais relevantes nesta área. Não queremos ser só o país da Web Summit. Queremos, ao longo do ano, ir pontuando com outro tipo de eventos que tragam foco e visibilidade àquilo que de bom se tem feito no ecossistema de empreendedorismo.”

De acordo com o secretário de Estado, o estudo mostra a importância do ecossistema de empreendedorismo português para a economia.

“Temos um ecossistema de cerca de 2500 [startups] e temos o objetivo de duplicar este número”, disse sobre um setor que deixa Portugal “bem na fotografia”. Porém, e apesar dos resultados mais otimistas revelados neste estudo, o secretário de Estado assumiu que é preciso melhorar o acesso à informação a todos os intervenientes do ecossistema, sejam empreendedores ou investidores.

Sobre este ponto, Aragão Azevedo voltou a reiterar uma vontade já revelada pela Startup Portugal: criar uma plataforma online onde seja mais fácil “melhorar a capacidade de informação” para as startups. Além disso, o responsável governamental não deixou de referir que “a vitalidade deste setor necessita da capacidade de captar o ecossistema [de investimento] internacional”.

Apps para rastrear contactos? “Estamos muito adiantados e teremos novidades muito em breve”, garante secretário de Estado

Esta promessa do político surge devido ao estudo da Startup Portugal, que revela que dados como “as medidas de apoio mais úteis neste momento” seriam incentivos e isenções fiscais, com 47,7% a escolher esta necessidade, seguida da oferta de novos apoios financeiros (28,9%). Além disso, os participantes não deixaram de referir que seria importante haver “maior informação sobre os principais apoios públicos” (24,5% dos inquiridos) e informação sobre perspetivas de investidores (20,4%).

Os apoios mais úteis para as empresas neste momento, de acordo com o estudo

A maioria das empresas inquiridas (86,9%) afirmou que teve conhecimento dos apoios do Estado. Não obstante, apenas 33,1% afirmou ter recorrido ter recorrido a pelo menos uma destas medidas de apoio, dado que Aragão de Azevedo destacou como positivo.

Mesmo com pandemia, a maioria das startups está “a laborar normalmente”

A Startup Portugal revelou a meio de maio ao Observador que estava a preparar um estudo sobre o impacto da pandemia nas startups. Este braço do governo de incentivo às startups juntou-se à EY e à SAP e, após inquirirem “mais de 200 fundadores e presidentes executivos de startups, tendo sido recebidas respostas de 14 distritos de Portugal e das 2 regiões autónomas”, há resultados. As conclusões são várias, mas há duas que se destacam: “71,8% continua a laborar normalmente e para 42,3% a presente situação gerou novas oportunidades de negócio”.

Despedimentos, cortes e críticas aos apoios do Governo. Um raio-x ao impacto da pandemia nas startups portuguesas

Apesar de praticamente todas as startups afirmarem que foram impactadas pela pandemia , de alguma forma, são estas conclusões que levam o secretário de Estado a falar de um “otimismo moderado” no ecossistema. De acordo com o estudo, há setores que foram fortemente afetados, como o “turismo ou a saúde”. Porém, sendo a maioria das empresas deste setor de software empresarial, o trabalho não foi afetado negativamente.

Sentimento das startups em relação ao futuro

Quanto ao futuro, a expectativa dos empreendedores não parece ser tão nefasta quanto de poderia esperar. Ao todo, apenas 28% dos inquiridos vê negativamente o que pode vir aí. O cenário positivo é destacado devido a muitas startups singrarem nos em momentos de crises, referiram na apresentação os responsáveis por esta análise.

Mesmo assim, Pedro Oliveira, cofundador da Landing.Jobs e um dos inquiridos, referiu o seguinte quanto ao atual cenário que os empreendedores vivem: “Deparámos com um mercado que é tudo menos growth [de crescimento], é sobrevivência. (…) Já passámos por muitas crises, mas nunca nada assim”.

Para cerca de 42,3% das startups inquiridas, a pandemia gerou novas oportunidades de negócio, demonstrando que é muitas vezes em momentos de crise que surgem as melhores ideias de negócio. Recorde-se que mais de metade das empresas da Fortune 500 iniciaram a sua atividade durante a contração e mais de cinquenta unicórnios foram criados durante a Grande Recessão (2007-2009)”, diz o estudo da Startup Portugal/EY/SAP.

Por fim, o estudo concluiu que a maioria das startups inquiridas (81%) está numa fase inicial, com “cerca de 1 a 10 trabalhadores”. Por isso, a passagem para o trabalho remoto pode causou menos impacto na laboração. Além disso, quanto a investimento, o estudo destaca que a maioria do capital de risco vem do estrangeiro, “nomeadamente de países como os EUA, a Inglaterra e França” e que “esse financiamento pode estar em suspenso face à atual situação”.

*Artigo alterado às 20h47 minutos. No terceiro parágrafo adicionou-se “no âmbito da presidência do Conselho da União Europeia” antes das declarações do secretário de Estado.