A Associação de Medicina Geral e Familiar considera que o “esforço incrível” feito pelos médicos de família e de saúde pública, que controlaram mais de 90% dos casos Covid-19 em casa, evitou que os hospitais atingissem o limite. No entanto estão “muito preocupados” com o impacto que a paragem durante três meses das consultas e dos tratamentos pode ter nos doentes crónicos que carecem de um “acompanhamento permanente e cuidadoso”.

“Ainda estamos a descobrir o que é que vai acontecer com três meses de abstenção quase total” da atividade assistencial não urgente na saúde da população, afirmou o presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), Rui Nogueira, em entrevista à agência Lusa.

Mas os doentes crónicos são a principal preocupação: “Não sabemos ainda quais são as consequências cardiovasculares de enfartes que estão a acontecer ou aconteceram, como é que estão a evoluir os doentes com insuficiência cardíaca, insuficiência renal, os diabéticos, os hipertensos”, salientou.

Nós chegámos a ter 20 mil doentes com Covid ativos (…) mas temos um milhão dos outros doentes”, advertiu o médico, manifestando uma preocupação particular com a doença oncológica que “não dá grande margem de manobra”.

“Já conseguimos boas respostas para estes doentes, mas temos que ter os diagnósticos precoces, o que se calhar não estamos a conseguir”, lamentou Rui Nogueira, observando que as doenças cardiovasculares e oncológicas representam mais de dois terços das causas de morte.

Segundo o médico, o confinamento também trouxe outras complicações para a população, como o aumento de peso e da doença mental. “As pessoas aumentaram de peso, já estamos a ver isso nas consultas, com ganhos de seis, sete, dez quilos”, disse, salientando que “o confinamento é o contrário de tudo” o que os médicos aconselham aos utentes, como saírem de casa e fazerem atividade física.

Quanto à saúde mental, afirmou que “é uma realidade que ainda não está devidamente estudada, avaliada”, e que, apesar de não ser “uma situação vital como as doenças cardiovasculares e oncológicas, é uma área muito vasta”. “Nós temos muitos doentes com problemas de saúde mental, mas agora ainda aumentou mais o problema que é preciso avaliar”, defendeu.

Sobre o que é necessário melhorar depois da pandemia, o médico defendeu que “é preciso investir na área informática e nos técnicos administrativos” para que seja “mais fácil o acesso dos médicos aos doentes e vice-versa”.

“Há coisas que ainda não estão perfeitas. Digamos que 80% está, mas faltam os outros 20%. Por exemplo, um em cada cinco doentes ainda não está bem informatizado” em termos de pedidos de exame.

Por outro lado, é necessário que os números de telefones e e-mails dos utentes estejam atualizados no sistema. “Tem que haver um esforço técnico dos informáticos para tornar mais amigável a atualização destes dados, não pode ser o médico a fazer esse trabalho”.

Durante a pandemia, os médicos recorreram às teleconsultas para acompanhar os doentes, uma prática que o médico diz que “facilita em muitos aspetos”. Contudo, afirmou, não se pode “prescindir da presença do doente em grande parte das situações, mas isso não quer dizer que não haja muitas situações que são facilmente resolúveis pelo telefone ou por e-mail”.

Uma situação que “ainda não está resolvida”, e que Rui Nogueira diz que nem sabe “como e quando se vai resolver”, é os doentes perderem o medo e regressarem aos serviços de saúde.

“Houve uma fase inicial em que ligávamos ao doente a dizer para não vir à consulta, avaliávamos pelo telefone, e só se fosse mesmo necessário para ir, mas a maior parte das consultas foram adiadas”, contou.

Agora, as consultas estão a ser remarcadas: “Temos que andar atrás deles e eles atrás de nós”, descreveu, desabafando que “é uma desorganização ainda por resolver”.

“Nós vamos demorar quatro a seis meses para resolver isso”, adiantou, alertando ainda para o aumento dos tempos de espera principalmente na região de Lisboa e Vale do Tejo, onde há 700 mil utentes sem médico de família.

Nesta região, “há 20 ou 30 unidades de saúde onde metade ou um terço da população não tem médico de família. E isto é terrível”, concluiu.

 “Esforço incrível” dos cuidados de saúde primários evitaram hospitais no limite

Em entrevista à agência Lusa, o presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF)APMGF, Rui Nogueira, afirmou que entre 90% e 95% dos doentes infetados com o coronavírus SARS-Cov-2 foram vigiados nos cuidados de saúde primários pelos médicos de família e de saúde pública.

“Apenas 5% a 7% dos casos foram socorridos no hospital, metade daquilo que era a expectativa, daí que os nossos hospitais não tivessem sido submetidos à posição extrema de dar resposta porque conseguimos a montante controlar os casos”, afirmou o médico de Medicina Geral e Familiar. Tem sido “um esforço incrivelmente grande, valioso”, porque os médicos dos cuidados de saúde primários controlaram as situações benignas sem necessidade de as pessoas recorrerem ao hospital.

Segundo Rui Nogueira, a pandemia de Covid-19 continua a exigir “um esforço” incrível por parte destes profissionais: “Há cerca de 400 doentes internados, mas nós temos 10 mil em casa a ter que os seguir, a telefonar diariamente para ver o que está a acontecer”.

Traçando o retrato da pandemia de Covid-19 em Portugal, o médico afirmou que, apesar de ser um “país pequeno, com cerca de 10 milhões de habitantes”, há situações muito diferentes nas sete regiões, defendendo que “qualquer medida tem de contar com esta realidade”

“Nas quatro regiões mais pequenas, com cerca de meio milhão de habitantes cada uma, a situação neste momento está resolvida e podemos até dizer que nem sequer teve uma grande expressão, o que corresponde àquilo que é a realidade desta pandemia que afeta principalmente os grandes aglomerados populacionais”, declarou.

Nas regiões Centro e Norte, adiantou, a “situação está praticamente resolvida” e depois existe “outra realidade” em Lisboa e Vale do Tejo, onde o número de casos tem vindo a aumentar diariamente.

Mas, ressalvou Rui Nogueira, “em nenhum destes casos podemos estar descansados porque temos a dúvida de poder haver uma segunda vaga” e no caso de acontecer “não devemos deixar que sejam pior do que a primeira” e, para isso, o país tem de se preparar para a combater.

“Devemos preparar-nos com realismo e muito rigor para uma eventual segundo vaga. Primeiro com as lições retirada da primeiro vaga e depois com medidas urgentes e rigorosas que têm que ser adotadas”, defendeu.

E, segundo o médico, já foram aprendidas “várias lições” com a pandemia, uma delas é “a rapidez” com que o coronavírus se propaga e a sua agressividade.

“É altamente contagioso e, portanto, temos de ser muito rigorosos logo no início para evitar a rápida propagação do vírus”, disse, considerando que, apesar de Portugal se ter preparado, é dos “países com mais casos ‘per capita’”, mas tem resolvido bem os casos.

Para isso, foi essencial a “atitude dos serviços de saúde”, nomeadamente dos médicos de saúde pública”, que fizeram de “uma forma primorosa as ligações de todos os casos”.

Portugal contabiliza pelo menos 1.568 mortos associados à Covid-19 em 41.912 casos confirmados de infeção, segundo o último boletim da Direção-Geral da Saúde (DGS).