Episódio 1. Eder Sarabia, o adjunto de Quique Setién que tem a fama de “polícia mau” e que salta do banco a gritar com os jogadores quando falham passes, remates ou posicionamentos para escudar o seu número 1, tentou dar uma instrução a Lionel Messi na pausa para hidratação contra o Celta (que estava a ser um dos melhores dos catalães em Vigo), o argentino virou-lhe as costas e, quando foi pousar a garrafa de água, voltou a ignorá-lo como se nada fosse e seguiu para o relvado – e entretanto alguém nas redes sociais descobriu um tweet de Sarabia em 2015, quando era adjunto do Las Palmas, que dizia que nunca houve na história um goleador como… Cristiano Ronaldo.

O Barcelona reencontrou o seu ADN mas não teve pulmão – e o coração de Iago Aspas fez o resto da surpresa

Episódio 2, parte I e II. No final do encontro em Vigo, e como cada flash interview com jogadores do Barcelona tem um potencial que ronda os 100% de dar notícia, Luís Suárez não se recusou a analisar o momento dos catalães e pareceu dirigir a mira ao próprio Quique Setién. “O que se passa com a equipa? É para isso que servem os treinadores, para analisar por que razão perdemos pontos importantes fora de casa, algo que não acontecia em outras temporadas. Mas também há que dar valor ao adversário…”, atirou. E como faltava ainda qualquer coisa mais para aquecer o ambiente, Gerard Piqué fez um tweet dizendo “Estamos destinados a fingir. A fingir”.

Episódio 3. Na véspera de um jogo fundamental contra um rival direto como o Atl. Madrid e sabendo que o Real Madrid já tinha dois pontos de vantagem na classificação, Josep Maria Bartomeu, presidente do Barcelona que tem também uma relação complicada com os pesos pesados do balneário, decidiu fazer uma reunião de urgência em casa de Quique Setién, contando ainda com Eric Abidal (diretor desportivo), Javier Bordas (diretor geral) e Òscar Grau (CEO), para manifestar ao técnico que, apesar das convulsões, continua a manter total confiança.

O último capítulo, que não é necessariamente o último mas pode funcionar como tal se o Real Madrid vencer em casa (neste caso centro de treinos) na próxima quinta-feira, foi surpreendente mas, perante os episódios anteriores, mais não fez do que confirmar o clima a ferro e fogo que se vive em Camp Nou. O empate frente ao Atl. Madrid foi penalizador para o que se passou em campo mas se as frentes conturbadas já eram muitas ainda mais se tornaram em pequenos pormenores como a colocação de Griezmann no lugar de Arturo Vidal aos 90+1′ quando o encontro estava empatado a dois desde os 62′. “Comentário a isso? Sem palavras…”, disse no final Diego Simeone, técnico dos colchoneros que orientou durante vários anos o francês na capital espanhola. No meio de tanto ruído e confusão que está longe de terminar, sobrou apenas Messi e mais um recorde histórico.

O Barcelona até começou a ganhar num autogolo de Diego Costa após canto de Messi (11′) mas o Atl. Madrid não demorou a empatar numa grande penalidade de Vidal sobre Yannick Carrasco que Saúl Ñíguez transformou na segunda tentativa depois de ter sido anulada a defesa inicial de Ter Stegen por estar fora da linha. Messi, quem mais, voltou a agarrar na equipa e foi dando show nas tentativas sem sucesso entre remates ao poste, por cima e travados por Oblak. O golo, que seria histórico, apareceria no segundo tempo também de penálti à Panenka (50′) por falta de Felipe, antigo central do FC Porto, sobre Nelson Semedo, ex-lateral do Benfica. No entanto, Saúl Ñíguez acabou por fazer o empate 12 minutos depois, neste caso com o lateral português a fazer falta sobre Carrasco, antes de outro internacional, João Félix, ter sido lançado por Diego Simeone em campo.

Ao fazer o golo 700 (630 no Barcelona, 70 pela Argentina), Lionel Messi tornou-se apenas o segundo jogador no ativo a atingir a marca, atrás de Ronaldo – embora o mundo das redes sociais se tenha apressado a destacar que chegou a esse registo em menos jogos. No entanto, na noite em que marcou pela 32.ª vez em 41 jogos frente ao Atl. Madrid, o número 10 ficou mais longe de conseguir o 11.º Campeonato pelos catalães, onde já conquistou um total de 34 troféus, dez dos quais no plano internacional. Naquela casa de Camp Nou sem pão onde todos ralham e só Messi tem razão, isso continua a valer-lhe de pouco e um dos poucos recordes que não tem ficou mais longe.