A pandemia de Covid-19 impulsionou um reforço policial nas fronteiras e uma movimentação menor de pessoas no Brasil, factos que levaram a um aumento das apreensões de drogas no país entre março e junho.

No final de março, o Brasil fechou os 16.885 quilómetros da sua fronteira terrestre, a terceira maior do mundo, depois da China e da Rússia.

Com o reforço da segurança na fronteira durante a pandemia, as rotas de transporte de drogas tornaram-se inóspitas para os traficantes brasileiros, que além de abastecerem o mercado interno também enviam drogas da América do Sul para a Europa.

Entre março, quando as medidas de distanciamento social começaram a ser adotadas, e junho, quando começaram a se tornar mais flexíveis, a Polícia Federal brasileira apreendeu quase 200 toneladas de marijuana, o dobro do número registado no mesmo período de 2019.

Em maio, por exemplo, confiscaram um carregamento de 28 toneladas escondidas num camião, no estado de Mato Grosso do Sul, na fronteira com o Paraguai, considerado o maior produtor de marijuana da América do Sul.

Na mesma sexta-feira, as autoridades anunciaram a apreensão de cinco toneladas de marijuana dentro de uma carrinha nos arredores do Rio de Janeiro.

Em março, as apreensões foram de cerca de 13 toneladas e em abril chegaram a 56 [toneladas]. O aumento foi sentido imediatamente”, disse Eduardo Bettini, coordenador geral de fronteiras do Secretário de Operações Integradas do Ministério da Defesa do Brasil, citado pela Efe.

Na cidade de Foz do Iguaçu, no estado do Paraná, na fronteira com o Paraguai e a Argentina, o major André Cristiano Dorecki, do Batalhão de Fronteiras da Polícia Militar brasileira, garantiu que “as apreensões se multiplicaram exponencialmente” desde o início da pandemia.

O militar disse acreditar que o aumento se deve às barreiras sanitárias e ao maior número de agentes deslocados para impedir o fluxo de pessoas na região fronteiriça.

Eles usam portos clandestinos e barcos improvisados que dão acesso às estradas brasileiras. Atualmente, monitoramos quase 500 portos clandestinos, que estão constantemente abertos”, explicou Dorecki.

A situação em Foz do Iguaçu é bastante semelhante no estado de Mato Grosso, na fronteira com a Bolívia, um dos principais pontos de entrada de cocaína no Brasil.

Segundo investigações oficiais, existem caminhos clandestinos para o transporte da droga através de pequenas rotas terrestres rurais e fluviais pelos rios nesta parte da fronteira brasileira.

O tenente-coronel Fábio Ricas, do Grupo Especial de Fronteiras do Mato Grosso, destacou que os traficantes optaram agora pelo transporte aéreo para contornar os pontos de controlo na fronteira.

Só este ano houve a apreensão de cinco aeronaves leves envolvidas no transporte de cocaína naquela região.

Em Santos, o maior porto da América Latina, as apreensões de drogas mantiveram-se na média durante a pandemia, mas houve um aumento nas apreensões nos outros portos do país.

A preferência dos traficantes pelos portos brasileiros justifica-se porque o fluxo comercial entre o Brasil e a Europa é maior do que nos países sul-americanos produtores de cocaína, como Colômbia e o Peru, uma vez que o catálogo das exportações brasileiras é mais diversificado, o que facilita a ocultação das drogas nos contentores.

A última grande apreensão no porto de Santos aconteceu na segunda-feira, quando foram descobertos 557 quilos de cocaína escondidos em sacos de café que tinham como destino o porto de Antuérpia, na Bélgica.

O Brasil é o país lusófono mais afetado pela pandemia e um dos mais atingidos no mundo, ao contabilizar o segundo maior número de infetados e de mortos (mais de 1,49 milhões de casos e 61.884 óbitos), depois dos Estados Unidos da América.