Os britânicos foram, até 2019, o principal grupo de turistas a escolher Portugal como destino de férias, em especial o Algarve. Foram, mas podem deixar de ser, agora que Inglaterra pôs Portugal fora da lista dos “corredores de viagem internacionais”. Viajar para Portugal, ou tentar entrar em Inglaterra depois de passar por algum dos países excluídos, significa que os viajantes serão sujeitos a uma quarentena de duas semanas.

“Se esteve ou parou num país que não está na lista de corredores de viagem, terá que ficar em isolamento até passarem 14 dias desde o dia em que deixou esse país“, avisa o Departamento de Transportes, sobre as medidas que vão ser implementadas a partir de dia 10 de julho às pessoas que tentem entrar em Inglaterra, sejam elas residentes ou visitantes. A lista completa dos “corredores de viagem internacionais” pode ser consultada aqui.

Como se não bastasse a quarentena nas viagens para Inglaterra, o Reino Unido continua a desaconselhar todas as viagens não essenciais para Portugal continental, embora abra exceções à Madeira e aos Açores a partir de 4 de julho. As outras exceções podem ser consultadas aqui.

“O Ministério dos Negócios Estrangeiros atualizou o aviso global contra viagens não-essenciais, isentando destinos que já não representam um risco inaceitavelmente alto para os viajantes britânicos”, lê-se na página do governo.

Se a quarentena diz respeito a todos os indivíduos, residentes ou visitantes, que tentem entrar em Inglaterra, a recomendação para evitar voos não-essenciais é para os cidadãos britânicos que pretendam viajar para fora do Reino Unido. Seja como for, Portugal continental parece ser país a evitar. E isto apesar de o Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico lembrar que “cerca de 2,5 milhões de cidadãos britânicos visitaram Portugal em 2019” e que “a maior parte da visitas não apresentam problemas”.

A “incidência relativamente elevada de casos de Covid-19, principalmente na região da grande Lisboa” e o “reconhecimento das taxas de infeção muito mais baixas nas regiões autónomas da Madeira e dos Açores, bem como o facto dessas ilhas serem acessíveis através de voos diretos do Reino Unido e terem controlos efetivos de entrada relacionados com a Covid-19” justifica as diferentes medidas do governo britânico, conforme explica a Embaixada Britânica em Lisboa.

Menos de 3,3 mil milhões no turismo se Portugal ficar fora dos corredores aéreos do Reino Unido

Espanha, França e Itália, que foram os destinos preferidos dos britânicos em 2019, podem sair beneficiados em relação a Portugal, visto que aparecem tanto na lista de “corredores de viagem internacionais” para Inglaterra, como na lista dos países para onde podem ser feitas viagens além das essenciais.

Miguel Albuquerque, presidente do Governo Regional da Madeira, já reagiu ao anúncio do Reino Unido mostrando-se convencido que está “assegurado o corredor turístico” e lembrando que o Reino Unido é um dos principais mercados turísticos na região. De facto, a seguir ao Algarve, a Madeira é a região preferida pelos britânicos em Portugal.

O facto de os britânicos já poderem viajar para a Madeira e os Açores em lazer, por não representarem territórios de risco, deve-se à estratégia das regiões autónomas — ao contrário do continente — de testar todas as pessoas à chegada ou exigir que apresentem um teste negativo para a infeção com SARS-CoV-2.

Mas tudo isto não quer dizer que os turistas que visitem as regiões autónomas não vão ser sujeitos a quarentena quando regressarem a Inglaterra. Conforme esclarece a Embaixada Britânica em Lisboa: “No que diz respeito à quarentena obrigatória de 14 dias para as pessoas que chegam ao Reino Unido, essa medida permanecerá por enquanto em vigor para todas as pessoas que chegarem ao Reino Unido vindas de Portugal (no seu todo)“.

As decisões de Inglaterra não se aplicam nos outros países do Reino Unido

As medidas de saúde, como a obrigação de quarentena, são estabelecidas por cada país do Reino Unido em separado. O que justifica que, apesar da criação dos “corredores de viagem internacionais” da Inglaterra, a Irlanda do Norte continue a obrigar a quarentena todos os viajantes de fora do Reino Unido ou da República da Irlanda e que a Escócia e o País de Gales ainda não tenham decidido o que vão fazer, explica a BBC.

A primeira-ministra escocesa, Nicola Sturgeon, disse, na conferência de imprensa diária, que o país não acompanhou com a decisão de Inglaterra porque o governo escocês precisava de tomar decisões complexas e acrescentou que a lista de países que lhes foi apresentada na quinta-feira era diferente da que foi divulgada oficialmente na sexta.

“Quando há tanta coisa em jogo como agora, não podemos deixar-nos arrastar, para ser franca, por um processo de decisão caótico de outro governo”, disse a primeira-ministra citada pela BBC.

O primeiro-ministro galês, Mark Drakeford, disse que foi impossível conseguir uma resposta do governo inglês sobre como iam fazer a alteração das medidas, daí que não se tenham juntado ao plano.

“Lidar com o governo do Reino Unido, nos últimos dias, foi uma experiência absolutamente caótica”, disse Drakeford, na conferência de imprensa diária, citado pela BBC. O primeiro-ministro galês diz que o governo primeiro anunciou que ia fazer e só depois começou a pensar em como ia fazê-lo, o que terá gerado os problemas de comunicação entre os países.

O ministro dos Transportes, Grant Shapps, disse, por sua vez, que até dia 10 de julho a lista não vai mudar e que os restantes países do Reino Unido ainda estão a tempo de acompanhar as medidas previstas por Inglaterra.

Santos Silva: decisão do Reino Unido é “tecnicamente absurda” e “profundamente injusta”

Os britânicos podem viajar para a Madeira e para os Açores porque as autoridades do Reino Unido consideraram que eram destinos seguros, mas continuam a obrigar quem regresse a um isolamento de 14 dias. Para Augusto Santos Silva, ministro dos Negócios Estrangeiros, isto é o absurdo em cima do absurdo.

“Era mesmo preciso este elemento final de caos para mostrar quão absurdo foi este processo de decisão”, afirma Santos Silva, sobre a exceção parcial conferida às ilhas.

O ministro dos Negócios Estrangeiros declara-se surpreso — ainda que não tenha sido absolutamente apanhado de surpresa — com a decisão britânica porque “tecnicamente é absurda”, “profundamente injusta” e não parece “própria das relações de confiança recíproca ao relacionamento de dois países aliados de muitos séculos”.

Santos Silva não acredita que a situação provoque um conflito diplomático. Mas “evidentemente este é um momento triste no relacionamento entre Portugal e o Reino Unido”, diz. “Os países amigos tratam-se de outra maneira, têm relações de confiança recíproca mais sólidas e respeitam as regras da confiança recíproca.”

Como um amigo magoado, mas sem perder a calma nas declarações, o ministro dos Negócios Estrangeiros lançou algumas farpas ao amigo traidor da confiança.

“O Reino Unido tem neste momento mais 28 vezes óbitos devidos a Covid-19 do que Portugal, tem sete vezes mais casos relativos a Covid-19 registados do que Portugal e portanto é absurdo que seja um país que tem piores indicadores em matéria de pandemia que queira impor quarentena a passageiros provenientes de um país que tem melhores indicadores.”

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E se mesmo assim a mensagem não foi suficientemente clara, Augusto Santos Silva ainda acrescenta a comparação entre as praias algarvias e britânicas: “Os telespectadores percebem bem a diferença entre a forma como no Algarve as praias estão higienizadas, os hóteis estão higienizados, as pessoas se comportam na praia, e as imagens que ainda há duas semanas nós vimos nas praias inglesas, designadamente Brighton, amontoadas de gente.”

Num tom que parecia apaziguador, o ministro ainda aproveitou para deixar mais uma mensagem nas entrelinhas: “Vamos trabalhar para que as autoridades britânicas estejam mais bem informados da próxima vez que tomarem uma decisão, para que a decisão seja melhor”.

Editado às 23h35 com a referência ao que vai ser feito nos restantes países do Reino Unido