Estará a valer a pena, a cautela na reabertura da sociedade após a primeira grande vaga pandémica do novo coronavírus? Uma análise desta sexta-feira feita pela CNN diz que sim e mostra que países que levantaram restrições demasiado cedo — como os EUA, o Brasil ou a Índia — estão a sofrer com isso.

O estudo em questão debruça-se sobre as políticas aplicadas por 18 países e mostra que a maioria dos que agora foram designados pela União Europeia como tendo a epidemia sob controle só começaram a “relaxar” depois de ver quedas constantes no número de novos casos diários de infeção com Covid-19. Por outro lado, três dos quatro países com maior número de mortos e casos positivos no mundo — Estados Unidos, Brasil e Índia — ou nunca se “fecharam” de forma eficiente ou começaram a reabrir demasiado cedo, antes das contagens de casos começarem a cair.

A União Europeia apresentou formalmente uma lista com os 15 países que considera seguros o suficiente para permitir que seus residentes viajem para esse território e olhando para essas nações é fácil de identificar um ponto que todos têm em comum: Apesar da enorme pressão económica, a grande maioria dele recusou-se a facilitar as medidas de distanciamento social, enquanto a contagem de casos ainda estava a subir. Mais: quando levantaram as restrições, fizeram-no de maneira cuidadosa e por fases.

Por esta altura é quase unânime entre a comunidade científica considerar que os bloqueios terão travado centenas de milhões de infeções um pouco por todo o mundo. Um estudo publicado na revista científica Nature no mês passado estimou que desde o início de abril as políticas de isolamento impediram que 285 milhões de pessoas na China, 49 milhões em Itália e 60 milhões nos EUA fossem infetadas. “Acho que nenhum esforço humano salvou tantas vidas num período tão curto de tempo. Houve enormes custos pessoais em ficar em casa e cancelar eventos mas os dados mostram que cada dia fazia uma diferença profunda”, afirmou o autor principal do estudo em questão, Solomon Hsiang (que é professor e diretor do Laboratório de Políticas Globais da Universidade da Califórnia).

O sucesso do “lockdown”

A eficiência de um bloqueio como o que se viu em muitos países do mundo depende de várias elementos, incluindo, claro, o simples facto de ele ser implementado com a antecedência correta. Não há dois bloqueios iguais, portanto, enquanto pessoas em países como Itália ou Espanha enfrentavam multas se se aventurassem para fora das suas casas sem ser por razões essenciais, já os japoneses tinham apenas a recomendação para ficar em casa.

Austrália, Canadá, Nova Zelândia foram rápidos em restringir as viagens, enquanto em outros países como a Argélia, Geórgia e Marrocos, as crianças foram as primeiras a sentir o impacto da pandemia quando as escolas fecharam. Outras medidas incluíram a quarentena e/ou isolamento social voluntário ou o encerramento de lojas e serviços não essenciais: Alguns países como a Argélia, Ruanda, Montenegro e China, sofreram surtos após o levantamento das restrições e isso levou as autoridades a reintroduzir algumas medidas mais específicas, restritas a locais específicos.

Veja-se o caso da China, em que a capital Pequim foi paralisada parcialmente ainda no mês passado depois de identificado um novo cluster ligado a um mercado de alimentos. Montenegro  também retomou a proibição de eventos em massa na semana passada depois de ver um novo surto de casos após três semanas sem vírus. Mesmo no Ruanda as autoridades de saúde voltaram a colocar várias aldeias em “lockdown” depois de identificados vários novos.

À medida que lojas e escolas fecham e quase todas as viagens são canceladas, centenas de milhões de pessoas em todo o mundo são engolidas por um dos principais efeitos secundários desta pandemia: a profunda crise económica. É precisamente este impacto que levou alguns líderes, incluindo o presidente dos EUA, Donald Trump, a pressionar as autoridades a permitirem uma rápida reabertura, mesmo quando especialistas em doenças infecciosas alertaram sobre o antecipado levantamento de restrições.