O ministro da Justiça brasileiro, André Mendonça, negou esta sexta-feira qualquer possibilidade de interferência política na Polícia Federal (PF), acrescentando que a “independência e autonomia” desta força policial não significa uma “soberania de atuação”.

“Essa independência e autonomia que a PF tem não significa uma soberania de atuação. Eu, como ministro da Justiça, peço uma atuação efetiva da PF. Eu exijo resultados, quero saber se estão a fazer operações, quais as dificuldades que estão a ter, para tentar ajudar a solucionar“, disse o governante numa videoconferência em que discutiu as ações da tutela, citado pelo portal de notícias G1.

Na visão do ministro, é ilusório pensar que políticos tenham poder de interferência no órgão policial.

“Qualquer pessoa que vá fazer isso, está a cometer um suicídio jurídico-político. Elucubrar (ponderar) uma interferência no trabalho da PF é impensável”, insistiu o governante.

André Mendonça, que substituiu no cargo o ex-ministro da Justiça Sergio Moro após este acusar o Presidente, Jair Bolsonaro, de tentar interferir na PF, disse ainda que exige da Polícia uma perseguição imparcial ao crime, assim como atuação responsável.

“O que a gente cobra: persigam o crime? Sim, mas de modo imparcial, de modo isento, sem perseguição a grupo A ou grupo B. Que tenham uma atuação responsável. (…) Eu não tenho de ser punitivo, agora eu tenho de ter uma atuação séria e efetiva, eficaz no menor tempo possível”, concluiu o responsável pela tutela da Justiça.

Uma alegada interferência política na Polícia Federal brasileira está a ser investigada desde abril passado.

Em causa está um inquérito aberto pelo Supremo Tribunal Federal (STF), a pedido do procurador-geral da República, Augusto Aras, após o ex-ministro e antigo juiz Sergio Moro ter acusado Bolsonaro de interferência política na Polícia Federal, na sequência da demissão do ex-chefe daquela instituição Maurício Valeixo.

Na ocasião, Moro afirmou que Bolsonaro exonerou a liderança da Polícia Federal porque pretendia ter acesso a investigações judiciais, algumas das quais a envolver os filhos ou aliados.

“O Presidente disse-me, mais de uma vez, expressamente, que queria ter uma pessoa do contacto pessoal dele [para quem] ele pudesse ligar, [de quem] ele pudesse colher informações, [com quem] ele pudesse colher relatórios de inteligência. Seja o diretor [da Polícia Federal], seja um superintendente”, declarou Moro, quando pediu a demissão no final de abril.

No início de maio, o procurador-geral do Brasil pediu a audição de ministros, de uma deputada e de delegados, assim como o registo de reuniões do governo, para investigar as acusações de Moro.

Agora, a Polícia Federal considera necessário ouvir também Jair Bolsonaro, principal visado no inquérito.

A Polícia Federal é um órgão autónomo, subordinado ao Ministério da Justiça, embora o diretor seja nomeado pelo Presidente da República.