O reinício da competição por parte da Juventus não foi propriamente harmonioso. Depois de um empate muito sofrido contra o AC Milan, que valeu a presença na final da Taça de Itália, a equipa de Maurizio Sarri perdeu precisamente esse troféu para o Nápoles e teve algumas dificuldades em assumir maiores níveis de competitividade. A derrota na final, porém, acabou por ser o interruptor de que a Juventus precisava para acordar para a reta final da temporada.

De lá para cá, os bianconeri ganharam três vezes seguidas, marcaram nove golos e sofreram apenas um, aproveitando os deslizes da Lazio e do Inter Milão para cavar uma distância confortável na liderança, aproximando-se sem reservas da conquista da nona Serie A consecutiva. A tranquilidade adquirida ao longo das últimas semanas, fruto dessas vitórias pouco contestadas, acabou por ter o seu cúmulo no jogo da passada terça-feira, contra o Génova. A Juventus ganhou por 3-1, Dybala, Cristiano Ronaldo e Douglas Costa marcaram e os golos de argentino, português e brasileiro correram o mundo: o primeiro marcou depois de um slalom entre vários adversários, o segundo atirou um remate fortíssimo que chegou aos 105 km/h e o brasileiro, sem balanço, desenhou uma trajetória perfeita de fora de área. Um jogo particularmente inspirado da equipa de Maurizio Sarri, que demonstrou toda a qualidade individual que a equipa tem e que muitas vezes não consegue explorar.

Ronaldo veio ainda melhor, voltou a marcar num grande lance e leva 19 golos… nas últimas 15 jornadas

Mais do que isso, os últimos jogos da Juventus tinham deixado patente um pormenor específico. Cristiano Ronaldo e Dybala marcaram ambos nas três primeiras jornadas da retoma, algo que provava, pela enésima vez, que os dois jogadores sabem e conseguem jogar juntos — algo que, na temporada passada e ainda com Massimiliano Allegri, foi normalmente dado como impossível face ao bom entendimento do português com Mandzukic. Certo é que, neste recomeço da Serie A, Ronaldo e Dybala estavam a dividir o protagonismo e a forma uma dupla que é o verdadeiro motor goleador da equipa.

Este sábado, na Allianz Arena e no dérbi da cidade, a Juventus recebia um Torino que ainda não está totalmente livre do fantasma da despromoção à Serie B. Com o mesmo onze que derrotou o Génova, à exceção da introdução de Buffon — que chegava assim ao 648.º jogo na Serie A, ultrapassando Maldini e tornando-se o jogador com mais presenças na liga italiana, algo que era assinalado nas camisolas da equipa –, a vecchia signora posicionava-se da forma mais natural. Com uma primeira linha de construção muito subida, Ronaldo a tombar para a direita mas a trocar de posição com Dybala frequentemente para puxar adversários e deixar o argentino mais solto, a Juventus apostava também na capacidade ofensiva dos dois laterais para encontrar novas soluções nos corredores. Danilo de um lado e Cuadrado do outro, juntos à ala, ofereciam o espaço interior a Bentancur e a Rabiot, que construíam o ataque de cabeça erguida a partir de trás.

Tudo isto, porém só foi visível já depois de a Juventus se colocar em vantagem. Logo ao terceiro minuto de jogo, e à semelhança do que tinha feito contra o Génova, Dybala entrou na grande área com a bola controlada, tirou dois adversários da frente e rematou de pé esquerdo para dentro da baliza (3′). Depois do golo sofrido, o Torino procurou chegar ao empate e adiantou muito as linhas, espaçando os setores sem conseguir compactar a equipa mais trás para impedir as investidas dos elementos mais ofensivos da Juventus. O conjunto de Maurizio Sarri não se preocupou de sobremaneira em aumentar a vantagem de imediato, preferindo recuar para receber os ataques adversários e depois aproveitar recuperações de bola para subir em contra-ataque, e o segundo golo acabou por surgir exatamente dessa forma.

Cristiano Ronaldo conduziu ao longo de todo o corredor central, atraiu dois defesas adversários que iludiu com fintas de corpo e soltou para Cuadrado, que apareceu vindo da direita. O colombiano tirou um defesa da frente e atirou cruzado para o fundo da baliza, sem hipótese para Sirigu (29′): um golo que acabou por ser a tradução dentro de campo de uma amizade que fez furor durante a semana nas redes sociais, quando o jogador português soltou o cabelo para imitar o penteado de Cuadrado. Até ao intervalo, o Torino ainda conseguiu reduzir, por intermédio de uma grande penalidade convertida por Belotti (45+6′) e cometida por De Ligt, que jogou com a mão no interior da grande área.

Na segunda parte, o Torino começou melhor e aproveitou alguma apatia da equipa de Sarri, que estava a permitir mais espaço no setor defensivo e parecia ter perdido alguma clarividência no ataque. O treinador da Juventus reagiu com as entradas de Matuidi e Douglas Costa, para tentar refrescar a transição ofensiva e controlar o meio-campo — que o Torino estava a conseguir conquistar e gerir, chegando com relativa facilidade aos últimos 30 metros adversários –, principalmente através de uma pressão mais acutilante. O golo que acabou por fechar as contas da partida, porém, chegou por intermédio de Cristiano Ronaldo: num momento muito antecipado há quase dois anos.

Desde que chegou à Juventus, em julho de 2018, que o jogador português nunca tinha conseguido marcar de livre direto. Ao longo de 42 tentativas e ao longo de dois anos, atirou por cima, à trave e aos postes, ao lado, contra a barreira e para defesa do guarda-redes. Mas este sábado, à 43.ª tentativa, Ronaldo conseguiu marcar de livre direto pela primeira vez em Itália, acabou com uma maldição que já era prolongada e chegou ao quarto jogo consecutivo a marcar — juntando-se a Dybala e solidificando a ideia de dupla goleadora. O livre, além de muito celebrado pelo jogador português e pelos colegas de equipa, até arrancou um sorriso a Sarri, junto ao banco de suplentes.

Até ao fim, a Juventus geriu com relativa tranquilidade e segurou a confortável vantagem — com o Torino a ter ainda a infelicidade de marcar um autogolo, através de Djidji –, chegando à quarta vitória consecutiva, aos 12 golos nesta retoma e aos provisórios sete pontos de vantagem em relação à Lazio, que ainda joga este sábado com o AC Milan. Com a nona Serie A seguida praticamente assegurada, a Juventus parece ter uma ideia de jogo cada vez mais consolidada, ainda que sem estar perfeitamente afinada, ao encontro do pretendido por Maurizio Sarri e que pode ser fulcral naquilo que ainda falta disputar na Liga dos Campeões.