“O Bayern do futuro mete medo”. Não é muito normal a imprensa desportiva fazer trabalhos de fundo sobre o que podem ser clubes de outros países mas, no caso dos bávaros, oito vezes consecutivas campeões da Alemanha, abre-se uma exceção pelo efeito indireto que isso pode trazer: em Espanha, onde se escreve sobre Real, Barcelona e Atl. Madrid, existe a consciência que os germânicos continuam e continuarão a ser um dos principais adversários na luta pela Liga dos Campeões. E até o investimento que está a ser feito, contrariando a lógica dos últimos anos, fez com que a Marca escrevesse sobre o plantel para um projeto a médio e longo prazo que está a ser preparado.

O Bayern gasta menos em contratações do que as grandes equipas europeias que disputam a Liga dos Campeões. Exemplo prático, na preparação para a temporada em curso: Mats Hummels foi vendido ao B. Dortmund por 30,5 milhões, chegou Lucas Hernández por 80 milhões; depois, com Kimmich a assumir-se cada vez mais como um médio, veio Pavard para o lugar em busca de dono desde a reforma de Lahm – mais 35 milhões por um campeão do mundo de seleções com 23 anos; e chegou ainda Michaël Cuisance do B. Mönchengladbach, um projeto de futuro que entrou para a vaga de Renato Sanches. Houve mais dois bónus no plantel que começou por ser dirigido por Niko Kovac e acabou com Hansi Flick mas emprestados, Coutinho (Barcelona) e Perisic (Inter). Ou seja, e em resumo, ou cedências temporárias de mais valias ou jovens para fazer várias temporadas.

Para a próxima época, sendo que a presente terminou apenas este sábado com a final da Taça da Alemanha com o Bayer Leverkusen, os reforços também já começaram a chegar: Alexander Nübel, de 23 anos, que seguiu os passos de Manuel Neuer e saiu do Schalke 04 para o Bayern (neste caso a custo zero); Tanguy Kouassi, central formado pelo PSG de 18 anos que é considerado pelos responsáveis como um dos grandes talentos europeus na posição e que assinou também livre; e Leroy Sané, a grande estrela contratada ao Manchester City por cerca de 50 milhões de euros. E não ficará por aí porque, além das saídas dos emprestados Coutinho e Perisic, também Thiago Alcântara quer mudar-se para outras paragens para ter mais minutos (e o Liverpool esfrega as mãos de contente).

Juntando a Nübel, Kouassi e Leroy Sané, confirmados para 2020/21, Pavard, Cuisance e Lucas Hernández, que vieram esta épocas, e outros elementos anteriormente garantidos ou vindos da formação como Alphonso Davies, Kimmich, Goretzka, Coman ou Kirkzee, fica feito um “onze” de luxo com uma média de idades de 22,2 anos. Mas se estes aliarmos ainda os consagrados como Lewandowski, Müller, Neuer, Boateng, Alaba ou Gnabry, percebe-se o objetivo da Marca: estamos perante um dos melhores plantéis da Europa, que é um exemplo a nível de política desportiva, que tem um modelo dirigente e uma estrutura acionista que funciona como referência e que continua com uma saúde financeira invejável. Tão ou mais importante, não se cansa de ganhar.

Sem poupanças ou “testes” para o último objetivo da temporada, o intervalo chegou com uma única “novidade” em relação ao que se viu na versão rolo compressor que ganhou as dez partidas da retoma na Bundesliga depois da paragem (com quatro goleadas à mistura): Lewandowski não marcou. E foi mesmo isso, o Bayern foi para o descanso já com dois golos de vantagem mas o polaco continuava sem inscrever o nome na ficha do encontro, ficando essa parte inicialmente para David Alaba (num fantástico livre direto, 16′) e Gnabry (após uma grande passe de Kimmich a explorar a profundidade, 24′). O Bayer, que em relação à partida do Campeonato já podia contar com Havertz, teve boas aproximações mas acabou por entrar em jogo já em desvantagem.

No segundo tempo, aproveitando algum abrandamento por parte do conjunto de Munique, o Bayer conseguiu outro tipo de situações de perigo junto da baliza de Neuer mas foi traído pelo seu setor defensivo, num lance que começou num passe longo do guarda-redes para Lewandowski antes do 3-0 do polaco perante todas as facilidades concedidas pela formação de Leverkusen (59′). O encontro ficava de vez sentenciado e o melhor que a equipa de Peter Bosz fez foi reduzir por Sven Bender (63′), sendo que até ao final houve alguns falhanços impensáveis dos dois lados numa fase onde o último troféu nacional da época estava decidido antes do bis do polaco, a um minuto do final do tempo regulamentar – e num castigo demasiado pesado para o adversário, acrescente-se. Ainda assim, nota para o rendimento de Lewandowski: em 43 jogos oficiais, já vai nos… 51 golos. Havertz fechou as contas em 4-2 de grande penalidade aos 90+5′, repetindo assim o resultado na Bundesligas.

Para o Bayer, ainda não acabou a temporada porque há a Liga Europa, para o Bayern também não porque agosto vai ser mês de Liga dos Campeões. E se os bávaros conseguirem lidar bem com o hiato até aos oitavos da Champions, que começam com uma vantagem de 3-0 frente ao Chelsea, são sérios candidatos à vitória. Agora e no futuro. Com um guarda-redes que em posse mais parece um libero mas que continua a ser um dos melhores do mundo entre os postes, uma defesa com linhas subidas onde Alaba consegue disfarçar o único ponto negativo e que tinha a ver com a velocidade de Boateng, laterais rápidos e com grande sentido ofensivo, um meio-campo que é tão bom na recuperação como na construção e um ataque que faz da mobilidade e do instinto a sua mais valia, os bávaros voltaram não só a dominar como a jogar como dominadores.