Cerca de 50 jovens marcharam este sábado em Luanda reclamando medidas mais adequadas na luta contra a covid-19, mas também mais justiça e apoios sociais, num protesto marcado por uma fraca mobilização. Os manifestantes começaram a concentrar-se junto do cemitério de Santa Ana, por volta das 11h00, para prepararem os seus cartazes, mas só partiram às 13h00, desfilando em direção ao Largo das Escolas, gritando as palavras de ordem que expressam as suas preocupações: Luz, Água, Pão, Educação.

“Queremos cesta básica, não queremos rebuçado”, ouviu-se no arranque do desfile, numa alusão à frase do ministro angolano do Interior, Eugénio Laborinho, que, numa conferência de imprensa, respondeu às queixas de violência policial durante o estado de emergência devido à pandemia, dizendo que a polícia “não estava para distribuir rebuçados”.

Ermelinda Tchikuamby, exibe um cartaz pedindo à policia que não a mate e explica à Lusa que se juntou ao protesto para denunciar a situação que os mais pobres estão a viver.

Existem bairros em Luanda que estão a viver mal, chega a doer o coração. Foi prometida cesta básica mas não foi dada cesta básica a essas pessoas”, declarou a estudante de Direito, salientando que muitos dos que não cumprem o confinamento a que as autoridades angolanas apelam reiteradamente ficariam em casa se tivessem alimentos.

A jovem de 28 anos questionou também a passagem de Angola do estado de emergência para o de calamidade, quando aumentaram os casos de infeção por covid-19.

“Há pessoas que não sabem o que é estado de calamidade e acham que não tem coronavírus na rua e [dizem]: ‘se tenho fome, vou na rua vender’ e lá vêm os senhores da ordem pública bater por que deviam estar em casa”, criticou Ermelinda Tchikuamby.

A estudante frisou que os ativistas querem promover “uma manifestação pacífica, sem qualquer problema, sem qualquer agressão”, mas afirmou que a polícia é rápida “a atirar e dar porretes”

Por isso, estou a pedir não me matem”, justificou, apontando o cartaz.

Timóteo Miranda, um dos organizadores, explica que a marcha teve vários objetivos, entre os quais chamar a atenção para a situação que se vive devido à pandemia.

“Estamos numa fase muito sensível em que a saúde está em perigo, mas o  Estado nunca deixa de ser Estado”, disse o ativista, lamentando que muitas pessoas tenham tido “supressão dos seus direitos e liberdades fundamentais”.

O ativista falou em vários problemas, desde os professores das escolas privadas, que estão sem receber salários há meses, ao escasso acesso à água das comunidades mais vulneráveis. “Nós entendemos que é necessário nos higienizarmos contra a covid-19, mas entendemos também que é necessário que o executivo crie condições para que a água chegue aos pontos mais distantes do país”, reivindicou.

“Como é que vamos exigir que as pessoas fiquem em casa, se as pessoas não têm o que comer, se grande parte depende do mercado informal”, questionou, criticando “a perseguição sistemática das zungueiras [vendedoras ambulantes], que fazem o seu negócio”.

Quanto à fraca mobilização do protesto, Timóteo Miranda admite estar relacionada com a falta de cidadania, mas também algum medo, que faz com que haja cada vez menos gente na rua. “Há falta de incentivo à cidadania, nós somos rotulados de frustrados porque exercemos a cidadania”, realçou o estudante de Ciências de Educação, de 21 anos.

As pessoas ainda não saíram da caverna porque o executivo também não facilita, faz com que as pessoas tenham medo de exercer a sua cidadania”, acrescentou Timóteo Miranda, sublinhando que o mais importante era que os jovens conseguissem transmitir as suas mensagens.

Nos cartazes artesanais liam-se contestações ao partido no poder em Angola há mais de 40 anos — “o MPLA é uma desgraça” -, mas apelava-se também por soluções ao executivo liderado por João Lourenço e à prisão dos corruptos.

Entoando “ativistas unidos jamais serão vencidos”, os jovens que se juntaram à manifestação, onde era obrigatório o uso de máscara para cumprir as medidas de biossegurança, foram acompanhados pela polícia até ao Largo das Escolas, onde foi lido um manifesto com as reivindicações e o protesto terminou, sem incidentes, pelas 15h30.