Reportagem de João Gaspar e Paulo Novais, da agência Lusa

A capela da Adega, em Pedrógão Grande, ardeu em 17 de junho de 2017. Há três anos que os habitantes esperam pela reconstrução prometida daquela casa de culto, numa aldeia onde se conta que a santa ardeu para salvar o povoado.

“Ai, Senhora das Brotas”, lamenta Maria Rosa Dias, de 94 anos, espreitando para dentro da pequena e singela capela com o nome da santa, que passa despercebida na estrada que vai dar a Vila Facaia. Lá dentro, só se veem telhas partidas, pedaços de madeira queimados e vidro derretido pelo calor.

Naquela aldeia com cerca de 30 habitantes permanentes, a capela é hoje um dos poucos sinais da passagem do fogo pela Adega, onde, três anos volvidos, o verde quase que tirou de vista as árvores ainda queimadas que não foram cortadas.

Da sua bata, Maria Rosa Dias retira as chaves da Capela da Senhora das Brotas e mostra-as com orgulho, ao mesmo tempo que explica que aquele monumento terá, segundo conta, “mais de 200 anos”. “Eu nasci e a capela já estava aqui”, salienta a habitante da Adega, que lamenta que passados três anos a capela continue por reconstruir, depois de várias promessas que foi ouvindo ao longo dos tempos.

Na Adega, nenhuma casa de primeira habitação ardeu e ninguém morreu na aldeia quando lá passou o fogo, contam os habitantes. “Aqui, só morreu a santa”, diz José Nunes, da comissão da fábrica da capela, que é longo interrompido por Maria Rosa Dias: “Morreu por nós. Morreu para nos salvar”.

A habitante de 94 anos apenas esboça um sorriso quando se lembra das procissões com os “cachopos” no tempo da Páscoa, das “toalhas lindas” ou de uma estola antiga que ardeu lá dentro.

Isto faz-me muitas saudades. Parece que não queria morrer sem ver isto feito”, lamenta Maria Rosa Dias.

José Nunes, de 75 anos, está frustrado. Três anos depois ainda não tem garantias de que a reconstrução da capela avance, depois de algumas intenções que não saíram do papel. À agência Lusa, o habitante da Adega mostra o desenho de arquitetura para a reconstrução da capela, que lhe chegou às mãos no início de 2018, assinado pelo arquiteto Simão Botelho.

O arquiteto responsável pelo estudo inicial de arquitetura, Simão Botelho, explicou à agência Lusa que fez o projeto enquanto voluntário da Fundação EDP no terreno, após o incêndio, mas que a reconstrução “não chegou a avançar porque não houve financiamento”.

Os habitantes dizem que a Fundação Calouste Gulbenkian chegou a perspetivar a sua reconstrução, mas a entidade, contactada pela Lusa, refere que “chegou a visitar a capela, mas que a sua reconstrução nunca foi equacionada na prática”.

Até hoje, nunca mais ninguém nos disse nada. Nunca ninguém nos disse que não ia para a frente”, lamenta José Nunes, referindo que chegou a estar orçamentado um valor pela Câmara Municipal de Pedrógão Grande para a reconstrução da capela, mas que nunca foi executado.

Já a Câmara Municipal afirma que o financiamento teria sido, inicialmente, assumido pela Fundação Calouste Gulbenkian, mas que a obra não avançou por duas razões: o custo demasiado elevado para a reconstrução e a recusa dos habitantes de um memorial associado à capela.

José Nunes justifica essa recusa por considerar que não faria sentido um memorial numa aldeia onde não morreu ninguém na sequência do incêndio.

Face ao impasse, a Câmara Municipal de Pedrógão Grande decidiu “assumir a obra”, contou fonte oficial da autarquia, referindo que a verba de 40 mil euros para a reconstrução já estava inscrita no Orçamento Municipal de 2019 e mantém-se no Orçamento de 2020.

O objetivo do município é garantir que “todos os trabalhos estejam concluídos no presente ano”, estando prevista não apenas a reconstrução da Capela da Senhora das Brotas, “mas também toda a envolvente exterior e o desenvolvimento da rede viária” até ao monumento, recuperando o anteprojeto de arquitetura desenvolvido por Simão Botelho.

“Na Adega, a única coisa que falta é a capela. Já perguntaram se fazíamos um convívio, mas um convício com a santa como está? Não faz sentido”, vinca José Nunes. Para o elemento da comissão da fábrica, a situação custa em especial para os mais velhos da aldeia, recordando o lamento de uma senhora, agora já num lar em Pedrógão Grande: “Quando morrer, já não vou à Senhora das Brotas”.

Ermelinda Nunes, mulher de José, diz que há também algo de simbólico em ter a capela naquele estado, como que a recordar à aldeia o dia de 17 de junho de 2017, aquele incêndio que provocou a morte a 66 pessoas. “Isto marca muito as pessoas”, frisa a habitante de 59 anos, que conta que quando viu naquele dia “um clarão maluco de fogo a correr pelo meio dos eucaliptos” achava que a sua casa iria arder e que não foi destruída apenas “por milagre”.

A Senhora das Brotas ardeu para não arderem as casas”, realça.

Enquanto a situação não se resolve, Maria Rosa Dias vai guardando as chaves da capela da Senhora das Brotas, à espera de um dia lhes dar uso. “Não quero morrer sem ver a Senhora das Brotas. Era uma fé que a gente tinha”, disse.