O grupo GEOTA insistiu esta segunda-feira na necessidade de uma política sustentável de mobilidade com transportes públicos de qualidade e que ajudem na luta contra a pandemia de Covid-19, sublinhando que estes ainda não estão focados nos utentes.

Em comunicado, o Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente (GEOTA) considera que “os horários e tarifários da generalidade dos transportes públicos não prezam a intermodalidade nem parecem focados nos utentes” e lembra que há décadas que reclama mais atenção e investimento nesta área.

Para o presidente da organização de defesa do ambiente, João Dias Coelho, citado no comunicado, o desconfinamento “aconselha ao reforço imediato dos transportes públicos, em especial nas áreas metropolitanas: no triplo sentido de gerar confiança em quem tem de se deslocar desta forma para o trabalho, permitir o devido afastamento social e evitar o recurso excessivo ao automóvel individual”.

“Aconselha igualmente a que o Estado e as empresas promovam o teletrabalho sempre que isso permita manter a produtividade, pois tal reduz os riscos de contágio e também alivia os transportes”, acrescenta.

Para o responsável, os números são expressivos: “em Portugal, 89% das deslocações realizam-se em automóvel individual e este número não parou de crescer nos últimos 30 anos”.

“Nas deslocações pendulares nas regiões metropolitanas, cerca dois terços das pessoas usa automóvel, um terço transporte público (há 30 anos esta proporção era inversa)”, afirma o responsável, insistindo que: “55% dos nossos 2.700 quilómetros de autoestradas não têm tráfego que justifique o perfil de autoestrada mas, além das portagens, andamos a pagar 1.500 milhões de euros por ano, dos nossos impostos, aos respetivos concessionários”.

O presidente do GEOTA recorda que “a maioria das deslocações intercidades é mais rápida e mais barata por autocarro do que por comboio” e que “na Área Metropolitana de Lisboa (onde vive 28% da população do país), a comparticipação do Estado no financiamento dos transportes públicos é cerca de 10% (quando o normal, nas grandes cidades europeias, é de 30 a 80%)”.

Para a organização, esta situação “é resultado de um acumular de décadas de políticas erradas: promoção da expansão em mancha de óleo dos subúrbios, construção de autoestradas sem racionalidade, desinvestimento na ferrovia e promoção do automóvel individual”. Defende ainda que as recentes iniciativas nalgumas cidades, que apostaram em “modos suaves” de mobilidade e na recriação dos passes intermodais “são bem-vindas, mas precisam de ser complementadas com outras medidas”.

Além da ausência de “uma estratégia de mobilidade consequente”, o grupo aponta a falta de “uma doutrina de operação centrada no utente” e de “um modelo de financiamento sólido e transparente para os transportes públicos que tenha em consideração a necessidade de redução imediata de emissões de dióxido de carbono”.

Defende igualmente que Portugal precisa de um novo paradigma nesta área, onde os transportes sejam entendidos “como na maior parte do Mundo, como um serviço público absolutamente essencial à vida social e económica das cidades (além dos benefícios para a saúde pública e o ambiente, em comparação com o uso excessivo do carro)”.

Sublinha que a pandemia de Covid-19 teve a virtude de “nos ensinar a viver com menos” e a “ser mais solidários e resilientes”, mas evidenciou as desigualdades e injustiças, e diz que no domínio dos transportes públicos se aprendeu pouco.

Como exemplo, aponta o facto de as empresas de transportes terem ainda parte do pessoal em layoff, meses depois do início do desconfinamento, os relatos na comunicação social de episódios frequentes de transportes sobrelotados, em particular no Metro de Lisboa, na Carris, nos suburbanos da CP e da Fertagus, nas ligações da Transtejo e nos autocarros suburbanos, sublinhando que “os comboios intercidades andam vazios, mesmo quando fazem percurso igual aos suburbanos”.

De acordo com o GEOTA “muitos autocarros suburbanos não cumprem horários regulares, ou reduziram os seus horários em relação à era pré-Covid” e “muitas seguradoras estão a limitar as coberturas das apólices de acidentes de trabalho no caso de teletrabalho”.

“Muitos serviços do Estado estão a insistir no trabalho presencial mesmo quando ele não é necessário”, insiste o GEOTA, defendendo que “não interessa perder tempo a passar culpas” e que “os transportes públicos de qualidade devem ser uma ferramenta na luta contra a pandemia e uma política sustentável de mobilidade”.