Segunda-feira, Espanha. Terça-feira, Itália. António Costa recebeu em São Bento o homólogo italiano, Giuseppe Conte, para alinhar a estratégia do sul para o Conselho Europeu de 17 e 18, aquele que é decisivo — esperam ambos os líderes — para o plano de recuperação das economias, depois do impacto da crise sanitária. E desta vez, as más previsões gerais para a economia europeia, conhecidas esta terça-feira, são usadas como trunfo para a reunião que aí vem. “Revelam bem a urgência de um acordo”, afirma Costa.

Na conferência de imprensa conjunta, depois de um encontro de trabalho no palacete de São Bento, em Lisboa, António Costa começou logo por usar este argumento, sem que ninguém lhe fizesse sequer a pergunta. É pouco comum um primeiro-ministro pegar em más previsões logo à cabeça e sem sequer tentar aligeirar o quadro negro, até porque este pode ser um trunfo para o objetivo de curto prazo: acelerar um acordo entre 27.

“Há uma revisão em baixa em geral” para o conjunto da União Europeia e “uma redução muito significativa nas perspetivas” para Portugal, assumiu logo o primeiro-ministro português. Disse, no entanto, que Portugal “tem hábito de trabalhar contra estas previsões”, mas desta vez nem vale a pena dizer que é auto-suficiente. Não é. Desta crise “não se sai sozinho”, diz Costa que quer que os outros estados membros vejam nestas previsões “um aviso muito sério”.

E na exigência de rapidez Costa tem o alinhamento do seu homólogo italiano, com Conte a referir também que “temos de ter a coragem de agir rapidamente”. Para o primeiro-ministro de Itália, as previsões “confirmam a gravidade da crise”. E alinha nesta cadeia outro argumento de peso: os estados membros não podem pensar individualmente porque a crise de um afeta todo o mercado único.

“É na sola da bota, é na palma da mão”. Um flamenco a dois de Costa e Sánchez a desafiar o norte da Europa

Ao lado de Costa, que referiu como “amico António”, Conte disse mesmo que a falta de um acordo rápido “terá um custo económico muito elevado” e que de nada vale cada país agir de forma isolada, já que “é importante ter uma resposta da União Europeia para passar uma mensagem ao resto do mundo”. “É preciso ter um mecanismo de resiliência, que possa preservar o mercado único e torná-lo rapidamente competitivo”, disse o italiano acenando mesmo com o pior cenário se a Europa não se conseguir um acordo presto: “Esta crise destruirá o mercado único”.

António Costa concorda e recorre a um ditado português para puxar a essa necessidade de juntar caminhos: “Todos vão dar a Roma”. “Todos temos de fazer esforços para nos podermos aproximar das posições uns dos outros”, disse apontando a agenda de contacto intensos — na próxima semana vai reunir-se com Mark Rutte, o primeiro-ministro da Holanda, um dos países frugais que têm posto pedras nesta engrenagem que o sul quer ver produzir resultados já. E não será o único encontro com esse lado de lá, com Costa a revelar que vai também reunir-se em vídeo conferência com a homóloga dinamarquesa, Mette Frederiksen, mais um Governo europeu que se tem oposto à proposta do fundo de recuperação da Comissão Europeia.

Quanto a condições que possam vir a ser impostas, ambos os líderes alinham que a proposta da Comissão Europeia “é boa” e dali não querem sair. Ao contrário de Costa, que ontem admitiu que possa ser revisto o quadro financeiro plurianual (ainda que com limites na política de coesão e na política agrícola comum) Conte não quer ouvir falar nisso. Sobre o plano de recuperação foi claro: “Não temos tempo e não é possível pensar numa proposta de baixo perfil”, disse apontando a necessidade de uma solução de compromisso dos 27 que se não acontecer “enfraquece a proposta”.