O Banco Africano de Desenvolvimento reviu as perspetivas para a economia, devido à crise provocada pela pandemia, atualizando as Perspetivas Económicas Regionais do seu relatório anual.

Em Moçambique, a crise triplicou as necessidades de financiamento, originando um défice nas contas públicas que pode chegar aos 8.2%. Em Angola, país que entra no quinto ano de recessão, “vão aumentar os desafios sociais num país com 32% de desemprego” e a inflação pode chegar aos 25%.

O crescimento económico de Cabo Verde pode contrair-se até 7% este ano e manter uma queda de 0,6% em 2021, provando a perda de 17.500 empregos. Em São Tomé e Príncipe, o PIB deve contrair-se 6,1%, mas pode chegar aos 8,2% se a pandemia persistir até dezembro.

O mesmo relatório apontou que Guiné-Bissau está entre os cinco países africanos mais mal preparados para lidar com a pandemia de Covid-19, sendo o país lusófono com mais infeções e mortos, e os economistas antecipam uma queda de entre 1,5% e 3,1% no PIB

Crise triplica necessidades de financiamento em Moçambique para 8,2% do PIB

“Os efeitos da pandemia de Covid-19 e o confinamento podem reduzir o crescimento económico de Moçambique para 1,5% e originar uma recessão de 2% se a pandemia durar até dezembro”.

No documento, que revê em baixa as estimativas iniciais de janeiro, o BAD alerta que as necessidades de financiamento de Moçambique triplicaram, o que origina um défice das contas públicas que pode chegar aos 8,2% se a pandemia se prolongar até final do ano.

O défice iria alargar-se para 8,2% do PIB em 2020, contra os 4,5% inicialmente previstos no orçamento, e mesmo num cenário base mais conservador, o défice será mais do triplo do que os 2,2% registados em 2019″, aponta-se no documento, que salienta que “o impacto nas receitas vem principalmente da descida das receitas provenientes das exportações e do abrandamento originado pelo fecho de estabelecimentos comerciais e limitações de transporte durante o confinamento”.

Moçambique conta 1.040 infetados e oito mortos.

Inflação de 25% e recessão de até 5,3% em Angola

A pandemia de Covid-19 e a dramática redução nos preços do petróleo minaram os esforços das reformas, exacerbando a situação macroeconómica que já era frágil, e limitando as perspetivas para uma rápida recuperação económica”, lê-se no suplemento às Perspetivas Económicas Regionais, o relatório anual do BAD sobre as economias africanas.

O documento, que revê fortemente em baixa as estimativas apresentadas no final de janeiro, antevê uma queda do PIB em Angola entre 3,1%, no cenário base, que pode ir até 5,3% no cenário mais grave.

“A redução da receita fiscal ligada ao petróleo, que representa cerca de 60% do total da receita, vai contribuir para um défice orçamental que pode ir de 4,4% do PIB até 9,7%”, no cenário mais pessimista.

No documento, que coloca Angola em 43º lugar dos 54 países africanos e em 170º dos 195 países a nível mundial em termos de preparação do sistema de saúde (Índice Global de Segurança Sanitária), os analistas do BAD alertam que “as perspetivas sombrias de crescimento, num contexto em que o país entra no quinto ano de recessão, vão aumentar os desafios sociais num país com 32% de desemprego”.

Nas previsões originais, apresentadas no final de janeiro, o BAD previa um crescimento de 2,8% e uma inflação de 11,2%, com um excedente orçamental de 0,1%, que agora se degradou para 4,4%.

Angola tem 386 casos confirmados de Covid-19 e 21 mortos.

Economia de Cabo Verde cai neste e no próximo ano

O crescimento económico de Cabo Verde pode contrair-se até 7% este ano e manter uma queda de 0,6% em 2021 no pior cenário, ou seja, se a pandemia de Covid-19 durar até final deste ano.

A forte recuperação económica de Cabo Verde, depois da crise do euro em 2015, teve uma travagem súbita devido à pandemia; o PIB em 2020 deve contrair-se 4% se a pandemia abrandar em julho (cenário base) e até 7% se continuar até dezembro (cenário pior)”, lê-se no Suplemento divulgado pelo banco.

“O crescimento económico pode recuperar para 1,3%” no cenário base, podendo o país conhecer uma ligeira recessão de 0,6% em 2021 se a pandemia durar até dezembro, acrescentam os analistas, que antecipam uma quebra de mais de 60% nas receitas turísticas, que representam quase 20% do PIB, para além de uma descida das pescas e uma atividade estagnada “na manufatura, transportes e logística, reflexo das perturbações nas cadeias de abastecimento globais”.

Esta contração do PIB, alertam, “pode causar a perda de 17.500 empregos”, e os investimentos diretos estrangeiros, principalmente do Reino Unido, Portugal, Espanha e Itália “devem ter uma contração de 56%, para 53 milhões de dólares em 2020, atrasando investimentos em setores essenciais, incluindo o turismo, construção, transporte, informação, comunicações e tecnologias”.

Na parte do relatório que aborda a economia de Cabo Verde, o BAD antevê uma ligeira subida da inflação, para até 1,8%, e um agravamento do rácio da dívida pública sobre o PIB, de 124,2% no final de 2019, para 137,4%, “refletindo mais endividamento e o declínio do PIB nominal”.

No relatório inicial, divulgado no final de janeiro, o BAD previa um crescimento de 5% para este ano e uma inflação de 2% e estimava que o desequilíbrio orçamental ficasse nos 2,2%, um défice que pode chegar agora aos 9,2% no cenário mais pessimista.

Cabo Verde tem 1.499 infeções e 18 mortos.

Pandemia origina recessão de 8,2% em São Tomé e Príncipe

“No cenário base, que aponta para um abrandamento da pandemia em julho, o PIB deve contrair-se 6,1%, mas pode chegar aos 8,2% se a pandemia persistir até dezembro, lê-se no suplemento às Perspetivas Económicas Regionais, o relatório anual do BAD sobre as economias africanas.

Na atualização feita às previsões de janeiro, os economistas do BAD argumentam que “o arquipélago é altamente dependente do cacau e do turismo, setores que foram fortemente afetados pela pandemia”. As perturbações na atividade económica e no comércio “vão também pressionar os preços dos produtos importados, incluindo comida, o que potenciar um forte aumento na inflação, de 8,4% em 2019 para 13% e 2020 no cenário mais pessimista”.

No relatório, os economistas do BAD lembram que o arquipélago está na 192ª posição entre 195 países analisados pelo Índice Global de Segurança Sanitária e alertam que São Tomé e Príncípe tem um “sistema de saúde fraco, com recursos e capacidade limitados, estando por isso entre os mais mal preparados para lidar com a pandemia”.

São Tomé e Príncipe contabiliza 724 casos e 13 mortos.

Guiné-Bissau está entre os cinco países africanos mais mal preparados

“A Guiné-Bissau é um dos 10 países menos preparados para lidar com a pandemia de Covid-19 a nível mundial e ocupa o 51º lugar entre os 54 países africanos no Índice Global de Segurança Sanitária”, dizem os economistas do BAD na atualização das Perspetivas Económicas Regionais, o relatório anual do BAD sobre as economias africanas

O país teve um mau desempenho em todas as subcategorias relacionadas com a prevenção, exceto na taxa de vacinação; faltam camas de cuidados intensivos, equipamento e capacidade em recursos humanos, e como nenhum centro de isolamento está a funcionar, as pessoas que testam positivo vivem com as suas famílias, o que coloca um alto risco de contágio”, alertam os economistas do BAD.

No documento, os economistas antecipam uma queda de entre 1,5% e 3,1% no PIB este ano, mas mesmo no cenário mais pessimista – prolongamento da pandemia até dezembro – o país consegue registar um crescimento positivo em 2021.

“A redução do preço do caju e dos volumes de exportação são os principais fatores para as previsões negativas, mas as perspetivas de crescimento são mais positivas em 2021, com uma expansão de 2,5% no cenário base (pandemia abranda em julho) e de 2% no cenário em que a pandemia continua até dezembro”, lê-se no documento.

A Guiné-Bissau é o país lusófono com mais infeções e mortes, com 1.790 casos e 25 vítimas mortais.

África passou na quarta-feira o meio milhão de casos de Covid-19 e o número de mortos subiu para 11.955, mais 333 nas últimas 24 horas, segundo os dados mais recentes sobre a pandemia no continente.