A pandemia da Covid-19 afetou a situação alimentar e o rendimento da maioria das famílias timorenses, agravando as condições que, especialmente a nível rural, já eram problemáticas, segundo uma análise preliminar em Timor-Leste.

Dados divulgados esta quinta-feira indicam que 81% de 1.200 famílias inquiridas reportaram que a pandemia da Covid-19 “teve um impacto negativo nas suas fontes alimentares e de rendimento”. Cerca de 40% tiveram de adotar várias alternativas para lidar com o problema incluindo reduzir o seu consumo alimentar diário.

Os dados fazem parte de uma Avaliação Rápida de Segurança Alimentar realizada em maio em vários pontos de Timor-Leste pelo Ministério da Agricultura e Pescas com o apoio das organizações Oxfam, Mercy Corps, World Vision, Catholic Relief Services, ADRA e do programa de nutrição e agricultura TOMAK.

“Uma pandemia global de fome está a emergir em consequência da crise da Covid-19”, refere a Oxfam, num comunicado enviado à Lusa. “Em Timor-Leste, muitas famílias já reportam menos fontes de rendimento e menos abastecimento alimentar. O apoio direcionado à agricultura poderia evitar uma crise de fome”, sustenta.

Kathy Richards, diretora nacional da Oxfam em Timor-Leste, saúda a resposta das autoridades à pandemia, impedindo que o vírus se espalhasse na comunidade. Porém, nota que, ao mesmo tempo, muitas famílias “enfrentam dificuldades com impacto nas suas fontes de alimento ou rendimento”, agravando em alguns casos situações já precárias. “Antes da crise da Covid-19, os agricultores de Timor-Leste já estavam a lidar com uma época das chuvas de 2019-2020 com grandes desafios, a lidar com doenças pecuárias como a peste suína africana, pragas em culturas e chuvas erráticas”, notou.

Richards nota que a crise da Covid-19 “se tornou uma questão muito além da saúde”, com um grande impacto no setor alimentar que obriga a “intervenções coordenadas em vários níveis de ministérios governamentais para melhorar a segurança alimentar das comunidades rurais”. “Temos de garantir que em Timor-Leste a crise da Covid-19 não alarga as desigualdades nas zonas rurais”, refere, disponibilizando o apoio da organização.

“Esta é uma oportunidade para recuperar melhor e mostrar um maior investimento sustentável no setor agrícola em Timor-Leste –chave para a recuperação social e económica de Timor-Leste e para a sustentabilidade a longo prazo”, considera.

Em termos globais, a Oxfam nota o crescente impacto da Covid-19 na fome e insegurança alimentar, estimando que em todo o mundo e entre abril e setembro até 6.500 pessoas possam morrer diariamente de fome ligada diretamente à questão da pandemia. A organização refere uma “falha sistémica nos sistemas alimentares” que “está a provocar a desigualdade e a fome”.

De acordo com o Programa Alimentar Mundial e o Instituto Internacional de Investigação em Política Alimentar, 265 milhões de pessoas estão atualmente à beira da fome, mais do dobro do que na crise alimentar de 2008. Mais 150 milhões de pessoas são suscetíveis de enfrentar a insegurança alimentar.

Timor-Leste não tem atualmente casos ativos de Covid-19.