Quem olha para os últimos dias do Manchester City dificilmente acredita que esta foi uma temporada complicada para a equipa de Guardiola. Depois de duas goleadas por 5-0, contra Newcastle e Brighton e com 10 golos marcados para zero sofridos, os citizens souberam esta segunda-feira que vão poder disputar as próximas duas edições da Liga dos Campeões, ao contrário do que tinha ficado decidido em fevereiro. E por isso, pela conclusão do Tribunal Arbitral do Desporto que colocou novamente o clube inglês na rota do grande futebol europeu nos próximos anos, Guardiola acredita que o City merece um pedido de desculpas.

“Fizemos as coisas bem. O José [Mourinho] e todos os treinadores sabem que fomos prejudicados. Devem pedir-nos desculpa. Estou incrivelmente feliz pela decisão, que mostra que tudo o que foi dito sobre o clube não era verdade. E por poder defender em campo aquilo que ganhámos em campo. Como já disse muitas vezes, se tivéssemos feito algo de errado, aceitávamos a decisão da UEFA e do TAD. Podemos defender-nos. Temos o direito de nos defendermos quando acreditamos que aquilo que fizemos está correto”, disse o espanhol, também em resposta às críticas do treinador português do Tottenham, que garantiu que se tratava de uma “decisão vergonhosa”.

Certo é que, esta quarta-feira, o Manchester City entrava realmente em campo pela primeira vez desde que a decisão do TAD foi revelada. A equipa de Guardiola, vinda das tais duas goleadas inequívocas, recebia o Bournemouth, que ainda luta para não descer ao Championship mas que nas duas últimas semanas empatou com o Tottenham e ganhou ao Leicester. Com uma confiança renovada, assente na certeza de estar na Liga dos Campeões no próximo ano, na garantia do encaixe financeiro e nos argumentos para segurar os principais jogadores, o City joga já para cumprir calendário — perdido que está o título, para o Liverpool, e confirmado que está o segundo lugar.

No Etihad e com Bernardo Silva no onze, a equipa de Guardiola só precisou de pouco mais de cinco minutos para abrir o marcador. Na conversão de um livre direto, a tombar na esquerda, David Silva bateu Ramsdale e assinalou da melhor maneira os 10 anos no Manchester City que comemorou já esta semana. O médio espanhol marcou pela segunda vez de livre direto em três jogos na Premier League, sendo que anteriormente só tinha conseguido converter um lance do género em mais de 300 jogos na liga inglesa.

Depois de sofrer o golo, o Bournemouth não se escondeu e ensaiou uma reação, estendendo-se no relvado e colocando a primeira fase de construção muito elevada, chegando até a controlar a posse de bola no meio-campo adversário durante algum tempo. Dominic Solanke teve nos pés a melhor oportunidade da equipa de Eddie Howe nesta fase, ao atirar por cima já no interior da grande área (37′), mas o Manchester City acabou por aumentar a vantagem numa altura capital da partida e cortou pela raiz a rebeldia do Bournemouth. Através de um bom lance de transição rápida, David Silva apareceu solto na esquerda a assistir Gabriel Jesus, que entrou com a bola controlada na grande área, passou por vários adversários e acabou por rematar para voltar a bater Ramsdale (39′). O médio espanhol juntou a assistência ao golo e tornou-se o terceiro jogador mais velho a oferecer 10 golos numa única temporada em Inglaterra, depois de Bergkamp e Di Canio.

Na segunda parte, o Bournemouth ainda tentou replicar os melhores momentos da primeira parte mas apenas a espaços, com o Manchester City a segurar o meio-campo sem permitir vazios nas costas da defesa. Sterling e Mahrez ainda entraram, para refrescar o setor mais adiantado e explorar a possibilidade de lances rápidos de contra-ataque, mas acabou por ser o Bournemouth a marcar, com David Brooks a saltar do banco para reduzir a desvantagem no marcador (88′). O City passou os últimos instantes recuado nos últimos 30 metros do próprio meio-campo, a resguardar uma vantagem conquistada na primeira parte mas deixada algo desprotegida na segunda, e acabou por resistir até ao apito final.

A equipa de Guardiola terminou uma semana de boas notícias com chave de ouro e com a terceira vitória consecutiva, na antecâmara da meia-final da Taça de Inglaterra com o Arsenal no próximo sábado — e já a pensar na Liga dos Campeões, deste ano e dos próximos dois. E esta quarta-feira, com um golo e uma assistência, foi fulcral um jovem de 34 anos que vai deixar o Manchester City no fim da temporada: David Silva, o médio que ofereceu um livre direto ao clube inglês para assinalar 10 anos de um casamento feliz e com muitos frutos.