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Uns consideraram ser uma mera coincidência, outros fizeram uma análise diferente: com o Manchester United a ganhar ao Southampton por 2-1 num jogo onde com outra eficácia poderia ter resolvido muito antes a questão, Ole Gunnar Solskjaer reforçou o meio-campo tirando Bruno Fernandes e lançando Scott McTominay. A equipa perdeu por um lado a capacidade de ter posse e de ligar setores, ganhou por outro mais poder de choque e um elemento mais posicional à frente da defesa. No sexto minuto de descontos, os saints foram tudo menos isso e travaram os red devils com um golo de Obafemi, naquele que podia ser um ponto marcante na trajetória ascendente da equipa de Old Trafford na Premier League por valer finalmente a entrada nos lugares de acesso à Champions.

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O deslize até acabou por passar um pouco ao lado da crítica, mais uma vez muito elogiosa para o internacional e para a capacidade que teve em colocar o Manchester United num outro patamar. Um patamar que, por exemplo, permitia poder superar a série de 18 jogos consecutivos sem derrotas de Alex Ferguson em 2012/13 (época do último triunfo na Premier) entre Campeonato, Taça de Inglaterra, Taça da Liga e Liga Europa – e que contou em 16 com Bruno Fernandes, que desde que chegou levava 11 vitórias, cinco empates e a contribuição de oito golos e outras tantas assistências. Esta noite, o português podia obter uma marca histórica depois de ter sido o jogador de sempre com melhor rendimento nos dez primeiros encontros da Premier League (sete golos e seis assistências): se marcasse ao Crystal Palace seria o primeiro desde Ibrahimovic, em 2017, a marcar em cinco jogos consecutivos fora no Campeonato, algo que antes apenas Van Nistelrooy e Van Persie tinham conseguido.

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No entanto, nem tudo se resume a golos. Nem para os avançados, nem para os médios que conseguem marcar 32 numa só temporada, como Bruno Fernandes alcançou na época passada em Alvalade. E foi por isso que a BT Sports, aproveitando o hype em torno do número 18, pediu ao internacional para desenhar aquele que para si seria o melhor o jogador ideal juntando várias características. Nas escolhas entraram um português, um companheiro no Manchester United, um ex-companheiro do Sporting e as grandes referências mundiais no futebol. Vejamos:

Nas capacidades técnicas, Ronaldo: “Apesar de ter mudado o seu jogo ao longo dos anos, continua a ser dos jogadores mais difíceis de defender no 1×1 e o mais talentoso que vi”. Na liderança, o quarentão Buffon: “Toda a gente respeita o que fez na carreira e não é fácil um jogador manter-se tantos anos ao mais alto nível”. No trabalho, N’Golo Kanté: ” Seria aquele que toda a gente escolheria porque está em todo o lado, vai a todo o lado e é muito complicado jogar contra ele”. Na velocidade, Rashford: “É difícil correr a alta velocidade e ter qualidade para fazer a coisa certa, de escolher o timing de remate, de passe, e essa é uma das suas melhores qualidades”. Na finalização, Bas Dost: “Um dos melhores avançados com quem joguei, marca muitos golos. Podia escolher também o Cristiano mas quero escolher jogadores diferentes”. Na inteligência, Iniesta e Pirlo: “Dois dos melhores de sempre, que mereciam ter conquistado a Bola de Ouro pelo menos uma vez. Pensam muito rápido, não consegues pressioná-los porque quando o fazes eles já passaram, fizeram algo diferente e a bola já lá não está”.

Em resumo, e entre os destaques às referências Iniesta e Pirlo, Ronaldo foi escolhido uma vez mas poderia ter sido duas. E Ronaldo, também ele um dos jogadores mais marcantes da história do Manchester United este século, teve um papel importante na contratação. “Chegar ao Cristiano Ronaldo era algo fácil para mim. Através do Patrice Evra consegui o contacto dele, perguntei-lhe várias coisas sobre o Bruno Fernandes e as recomendações que ouvi deixaram-no numa boa posição. Ele exige muito de mim e de todos os companheiros. Logo no primeiro dia, apertou a mão a toda a gente. Não chegou aqui a pensar ‘Sou o maior, a figura e têm de me seguir’. Nada disso, cumprimentou individualmente todos os funcionários”, recordou o norueguês ao podcast The High Performance.

O recorde ficou adiado, a exibição até nem foi das melhores mas, quando olhamos para os lances que fizeram a diferença a favor do Manchester United frente ao Crystal Palace (2-0), sabendo que não existia margem de erro perante as vitórias de Chelsea e Leicester, Bruno Fernandes estava lá sempre. A hipótese de golo, na segunda parte, acabou por bater no poste mas ficou mais uma assistência e o envolvimento no lance que definiu de vez o encontro. E esse é o maior elogio que se pode fazer ao português: às vezes basta estar presente para tudo mudar.

Ainda assim, o encontro foi tudo menos fácil frente a um Crystal Palace que chegou com menos posse e menos passes realizados do que o Manchester United mas os mesmos remates e até mais perigosos. O que fez a diferença foi mesmo a eficácia e mais um lance relâmpago de Marcus Rashford, que aproveitou um passe de Bruno Fernandes, combinou com o português, avançou na área e rematou para o 1-0 nos descontos do primeiro tempo. Na segunda parte, os visitados ainda tiveram um golo anulado a Jordan Ayew, após jogada rápida na frente com Zaha, mas foram os red devils a sentenciar de vez a partida já perto do fim, num lance iniciado no médio português, a ter o passe decisivo por Rashford e o remate vitorioso de Martial (78′), deixando também Patrick van Aanholt naquela que pode ser uma lesão grave após ter caído mal com o avançado francês no momento do 2-0.

Desta forma, não só o Manchester United superou o recorde de Ferguson em 2012/13, chegando aos 19 encontros consecutivos sem perder (o recorde máximo com o escocês é de 29) e lançando uma próxima jornada, a penúltima, que será escaldante: o Chelsea, terceiro com 63 pontos, joga em Anfield com o Liverpool; o Leicester, quarto com 62 pontos, joga em Londres com o Tottenham de José Mourinho; e os red devils, também com 62 pontos, recebem o West Ham. O final da Premier League, esse, será ainda mais emocionante, com o Chelsea a defrontar o Wolverhampton de Nuno Espírito Santo e o Manchester United a jogar fora com o Leicester.