Proteger os utentes dos lares, residências e unidades de cuidados continuados da terceira idade é fundamental para ultrapassar a próxima fase da pandemia de Covid-19, apontou esta quinta-feira o antigo ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes.

Num debate promovido pelo histórico café ‘A Brasileira’, no Chiado, a opinião do antigo governante foi corroborada por Margarida Tavares, infeciologista do Hospital de São João (Porto), que concordou que o país precisa de aproveitar o verão para se preparar para os meses críticos que se avizinham.

O antecessor de Marta Temido, no anterior executivo do PS, lembrou também que o período de verão dá às autoridades algum ‘fôlego’ para “fazer um plano, preparar e fazer o trabalho de casa”, focando a sua atenção naquela que considerou ser uma das franjas mais “vulneráveis” da população portuguesa: a terceira idade.

É preciso um plano específico para os lares, residências e unidades de cuidados continuados. Não um plano que vise criar ‘guetos’, mas que diga que aquela população precisa de ser protegida e ao protegê-los estamos a fazer o mesmo a toda a sociedade”, explicou o antigo ministro de António Costa.

Campos Fernandes assumiu, ainda, que “todos tivemos tolerância com as falhas ocorridas no princípio da crise”, mas advertiu que no futuro “vamos ter uma grande dificuldade em compreender aquelas que aconteçam em outubro, novembro e dezembro” e que “não decorram de fatores não controláveis”.

Por sua vez, a especialista de infecciologia do maior hospital do Porto acrescentou que os lares e unidades de cuidados continuados “têm de fazer um trabalho” para poderem receber doentes “no tempo certo”, quando já não precisam de permanecer no hospital.

Uma das prioridades do país devia ter sido criar formas de proteger locais fechados com concentração dessas pessoas de risco. Os casos de morte que tivemos foram sobretudo nessa parte da população. Se conseguirmos protegê-la, vamos passar muito melhor esta fase”, conclui Margarida Tavares.

No debate participou, ainda, o diretor do laboratório do Instituto Champalimaud, Henrique Veiga Fernandes, que revelou que “25% dos últimos casos são detetados na população imigrante”, o que nos indica que a propagação do vírus passa, atualmente, por “questões estruturais da sociedade portuguesa”, e o especialista de Saúde Pública, André Peralta Santos, que apelou a uma “mudança de comportamentos da sociedade”.

Há duas mensagens principais a passar. Uma, o uso de máscara. A segunda, todos os dias fazermos uma autoavaliação dos nossos sintomas e a partir do momento em que tenhamos de restringir todos os nossos contactos sociais e profissionais”, reforçou o especialista ligado à Universidade de Washington, no Estado de Seattle (Estados Unidos).

Nesse sentido, Adalberto Campos Fernandes sublinhou que “a verdadeira vacina” para o vírus da SARS-CoV-2 está “na nossa capacidade de nos comportarmos à altura e com respeito pelos outros”.

A discussão inseriu-se no ciclo de debates promovidos pelo histórico café ‘A Brasileira’, sob o tema “Lisboa depois da Covid-19”, que decorrem todas as quintas-feiras, até 6 de agosto.