O tribunal de Munique decidiu a favor dos queixosos e contra a Tesla, admitindo que, quando a marca norte-americana estimou e anunciou que o seu Autopilot deveria ser capaz de permitir uma circulação em condução autónoma em cidade até ao final de 2019, estava a mentir, a faltar à verdade ou a ser demasiado optimista. Qualquer uma das hipóteses inaceitável  à luz dos direitos do consumidor. A esta anunciada habilidade por cumprir do Autopilot juntam-se outras menos evidentes que, segundo o tribunal, deverão também ser alteradas na publicidade da marca. E depois desta contestação na Alemanha, a Tesla arrisca-se a ter um tratamento igual de um tribunal britânico, que está igualmente a analisar a situação, pelos mesmos motivos.

A Tesla é nova nestas andanças da construção de automóveis e, por vezes, ainda confunde as expectativas (optimistas) dos seus técnicos responsáveis pelo desenvolvimento, com a realidade, aquela com que se pode comprometer nas promessas que faz aos seus clientes. Anunciou que os seus modelos podem estar equipados com uma função mais simples do Autopilot, de ajuda à condução, podendo os condutores, mediante um custo extra, optar por outro Autopilot mais complexo, que inclui o hardware (câmaras, sensores e gestão electrónica) capaz de assegurar condução autónoma quando tal for legalmente possível, o que ainda não acontece em nenhum país do mundo, excepto em locais específicos e de forma experimental. E decidiu avançar com datas, que não dependem do fabricante e que teimam em continuar a derrapar. Os clientes até podem perceber, mas os concorrentes (agora os germânicos) aproveitam para tentar comprometer a imagem do fabricante de veículos eléctricos. Os alemães chegaram inclusivamente a ponto de contestar o termo Autopilot, apesar de, como lembrou Elon Musk, o país não ter qualquer problema em usar “Autobahn”.

As alterações que a Tesla tem de realizar no site e nas informações que presta são mínimas e de pormenor. No site português da marca é possível ler as características da versão normal do Autopilot, aí denominado como “Piloto automático” e que está incluído no equipamento de série:

As funcionalidades de conveniência e segurança avançadas do piloto automático foram concebidas para o ajudar a lidar com as dificuldades de condução na estrada. Todos os novos automóveis Tesla estão equipados de série com funcionalidades de assistência ao condutor, como travagem de emergência, aviso de colisão e monitorização de ângulos mortos.”

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Em relação ao que a Tesla denomina “Capacidade de condução autónoma total” – sendo que esta terminologia convém ser revista para estar de acordo com a realidade –, o construtor define as suas habilidades actuais e futuras, da seguinte forma:

  • “Navegar em piloto automático: condução automática em autoestrada, da rampa de acesso à rampa de saída, incluindo interligações e ultrapassagem de automóveis que circulam a uma velocidade inferior.”
  • “Mudança de faixa automática: mudanças de faixa assistidas durante a condução em autoestrada.”
  • “Estacionamento automático: em paralelo e perpendicular.”
  • “Chamamento: Estacionamento e recuperação automáticos do seu veículo.”

Informando ainda que, em breve, o sistema verá ser adicionadas estas novas funcionalidades:

  • “Reconhecimento e reacção a semáforos e sinais de stop.”
  • “Condução automática em estradas de cidades.”
  • “Enhanced Summon – o seu automóvel estacionado irá ao seu encontro num parque de estacionamento.”

O descritivo termina informando que “a capacidade de condução autónoma total está disponível para aquisição após a entrega; é provável que os preços aumentem ao longo do tempo devido ao lançamento de novas funções”, pelo que não faz muito sentido mencionar “condução autónoma total” até que tal seja legal e o Autopilot da Tesla o permita.

O mais curioso é que a Tesla tem apenas de ser factual para ultrapassar de forma folgada os seus rivais, mesmo as mais prestigiadas marcas germânicas, cujas ajudas à condução continuam a ser inferiores às proporcionadas pelos Model S, X, 3 e Y. Nunca testámos outro sistema num veículo de série, para além dos que equipam os Tesla, que reconhecesse sinais de Stop ou semáforos e os respeitasse sem que o condutor tivesse de intervir. Também nunca vimos um veículo, além dos que integram a marca norte-americana, que fosse capaz de autonomamente decidir quando pode realizar ultrapassagens em autoestrada e, percorrer, sem intervenção do condutor, as vias de acesso e de saída da autoestrada.