A consultora EXX Africa sustentou este domingo que o norte de Moçambique está cada vez mais perigoso, com as empresas estrangeiras no gás a serem consideradas hostis e a situação a poder descambar numa guerra civil.

“É provável que os investimentos estrangeiros que providenciam uma receita substancial ao Governo vão eventualmente ser olhados como uma ameaça e uma presença hostil no norte de Moçambique”, escrevem os analistas desta consultora numa análise à situação no país.

“Este cenário faz lembrar outras insurgências em África, como o enclave angolano de Cabinda ou o rio Delta, na Nigéria, e a necessidade de medidas eficazes, coordenação e apoio regional e investimento socioeconómico nesta pobre região nortenha é cada vez mais urgente porque a insurgência arrisca-se a desaguar numa guerra civil total”, lê-se no relatório enviado aos investidores e a que a Lusa teve acesso.

A análise da EXX Africa salienta que “a escalada drástica da insurgência e a incapacidade do Governo para suster a violência na província indica que os projetos do gás vão ter um risco maior de ataque, mesmo que, por agora, as petrolíferas não sejam o alvo direto dos militantes”.

Estes rebeldes que operam no norte de Moçambique, na província de Cabo Delgado, não parecem receber grande financiamento por parte da rede terrorista internacional Estado Islâmico.

“Os ataques como os de Mocímboa da Praia indicam que a insurgência está a procurar apoio nas comunidades locais para apoderar-se e controlar o território, e assim ganhar o controlo dos recursos económicos e das receitas governamentais locais”, lê-se no documento, que lembra que “esta tática já foi tentada no norte da Nigéria por um grupo próximo do Estado Islâmico” e poderá resultar em Cabo Delgado “devido ao falhanço das medidas de contra-insurgência e à falta de apoio regional a Moçambique”.

Mocímboa da Praia é uma das principais vilas da província, situada 70 quilómetros a sul da área de construção do projeto de exploração de gás natural conduzido por várias petrolíferas internacionais e liderado pela Total.

A violência armada dos últimos dois anos e meio já terá provocado a morte de, pelo menos, 700 pessoas e uma crise humanitária que afeta cerca de 211.000 residentes.

As Nações Unidas lançaram, no início de junho, um apelo de 35 milhões de dólares (30 milhões de euros) à comunidade internacional para um Plano de Resposta Rápida para Cabo Delgado para ser aplicado de maio a dezembro.