Várias centenas de independentistas catalães protestaram esta segunda-feira contra a visita que o rei de Espanha, Felipe VI, está a realizar àquela região, numa altura de grande polémica devido aos alegados negócios ocultos do seu pai e rei emérito, Juan Carlos.

O lema da manifestação foi que “A Catalunha não tem rei”, frase que os separatistas alinharam com vários cartazes que empunhavam, assim como bandeiras independentistas e fotografias do rei de cabeça para baixo.

Felipe VI e a rainha, Letícia, estão a realizar um périplo por todas as comunidades autónomas espanholas, um mês depois do levantamento do estado de emergência que esteve em vigor para lutar contra a pandemia de Covid-19.

A manifestação de protesto teve lugar nos arredores do Mosteiro Real de Poblet, onde o rei e a rainha se encontravam, tendo a polícia bloqueado o acesso à estrada principal.

Alguns dos ativistas tentaram mesmo assim chegar ao mosteiro através dos campos plantados com vinhas.

Esta foi a primeira visita dos reis de Espanha à Catalunha desde há oito meses e tem lugar em plena controvérsia sobre os alegados negócios ocultos do rei emérito, João Carlos, que estão a ser investigados pelo Ministério Público e pelo Supremo Tribunal espanhol.

Uma série de fugas de informação levantaram a suspeita de que o pai do soberano poderia ter iludido o fisco, depois de ter depositado milhões de euros em contas bancárias em paraísos fiscais.

Os procuradores no Supremo Tribunal do país estão a averiguar se há matéria para investigar o rei emérito por alegadamente ter recebido comissões da Arábia Saudita, possivelmente como subornos pela construção de um projeto ferroviário, a linha de comboio de alta velocidade entre Medina e Meca.

Juan Carlos, que abdicou em nome do seu filho em 2014 por causa de uma outra polémica ligada a uma caçada que vez em África, ainda não deu explicações sobre as suspeitas, o que leva a uma onda de especulações sobre o seu envolvimento.

A situação criada levou Felipe VI a anunciar em 15 de março último que renunciava a qualquer futura herança a que tenha direito do seu pai e também retirava a Juan Carlos as ajudas de custo anuais que este recebia da coroa.

No meio desta polémica, a casa real lançou uma visita às 17 comunidades autónomas espanholas para demonstrar apoio aos cidadãos e à economia, à medida que o país tenta recuperar da primeira vaga da pandemia de Covid-19.

A etapa catalã da visita, com deslocações a várias cidades, estava inicialmente prevista para ter lugar na próxima semana, mas a Casa Real encurtou-a, devido ao surto de novos casos do vírus em Barcelona e arredores.

Já por duas vezes, o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) uniu-se aos partidos de direita no parlamento para impedir a criação de uma comissão parlamentar para investigar as suspeitas contra Juan Carlos, que era reclamada pelos seus parceiros no Governo, o Unidas Podemos (extrema-esquerda populista).

A ministra da Igualdade e número dois do Podemos, Irene Montero, evitou esta segunda-feira responder se o Governo deveria retirar o título de rei emérito a Juan Carlos I, mas indicou que considera ser “muito difícil” separar da instituição monárquica os alegados “casos de corrupção”.

O ministro do Consumo, Alberto Garzón, membro do Partido Comunista, que também faz parte da coligação Unidas Podemos, defendeu também esta segunda-feira uma atitude “inflexível” com Juan Carlos e voltou a insistir na criação de uma comissão parlamentar de investigação sobre os seus alegados negócios ocultos do rei emérito.