O registo é diferente, o assunto também, a qualidade acaba por ser consequência disso mesmo. Apesar de não ser propriamente um clube de topo da Premier League (aliás, tanto é assim que há dois anos estava a festejar a subida ao principal escalão do futebol inglês), o Wolverhampton tem uma estrutura oficial a nível de site, redes sociais e web TV que consegue ser uma agradável surpresa. Tudo arrumado, tudo com qualidade, tudo em torno da criação de conteúdo entre rubricas fixas, podcasts, lançamentos de jogos ou comentários a seguir aos encontros. Foi nesse contexto que, no programa Matchday Live, Leonel Pontes, antigo treinador do Sporting que conheceu Rui Patrício e João Moutinho desde miúdos, falou um pouco mais sobre a evolução dos dois internacionais.

“Leonel, o capitão do Wolverhampton disse recentemente que nunca tinha conhecido um jogador tão competitivo como João Moutinho. É mesmo assim?”, perguntaram ao madeirense. “Sim, é verdade. Desde pequeno que é assim, não gosta de perder. Nos jogos, nos treinos, em qualquer coisa. Desde pequeno que sabe o que quer do seu futuro, trabalhou para isso. Tem uma personalidade fantástica, uma forma competitiva de jogar ótima e é um treinador dentro do jogo porque consegue perceber o que se passa desde os 13 anos”, contou Leonel Pontes, numa conversa descontraída e aberta sobre o médio. “Falei várias vezes sobre ele a propósito da Premier League. Tinha o sonho de jogar em Inglaterra, recebeu convites do Tottenham e de outras equipas mas sentia-se confortável no FC Porto, depois no Mónaco. Só agora veio, para o Wolverhampton, percebendo que tinha também o apoio de outros jogadores portugueses durante a sua adaptação ao clube, à equipa e à cidade”, acrescentou.

“Ele quer jogar todos os jogos, não gosta de estar fora. Depois, trabalha desde miúdo muito bem para ter uma grande condição física. Nunca foi preciso falar muito com ele, sabia desde pequeno o que tinha de fazer”, sublinhou ainda, a propósito do 54.º jogo oficial de Moutinho, que caso a equipa consiga superar o Olympiacos nos oitavos da Liga Europa tem condições para superar o recorde de 56 encontros realizados no Sporting em 2007/08.

É oficial: João Moutinho é jogador do Wolverhampton e é o décimo português no clube inglês

“O Rui é fantástico. Conheci-o com 11 anos. Era grande, descoordenado mas com muita vontade de aprender. Estes dois ou três últimos anos foram os melhores da sua carreira porque mesmo que cometa erros nunca treme. Entre os 18 e os 22 anos teve tempo para falhar e nunca sair da equipa, isso foi muito importante para o seu crescimento. Na altura era adjunto da equipa sénior com o Paulo Benfica e pusemos o pescoço por ele, para ficar na equipa. Ele mostrou personalidade, carácter e qualidade, embora fosse imaturo, claro. Teve erros infantis, mesmo com os adeptos atrás a contestar, e hoje é tão bom por causa disso. A saída não foi fácil porque cresceu no Sporting e viveu ali um momento estranho mas mostrou que era um grande homem, com coração, psicologicamente forte, daí que tenha saído sem que ninguém o esquecesse. É o melhor guarda-redes de Portugal e está na lista dos dez melhores guarda-redes do mundo, não tenho dúvidas sobre isso”, recordou sobre o guarda-redes.

Wolverhampton anuncia Rui Patrício por quatro épocas

“Não trabalhei diretamente com ele, quando estava a crescer no Sporting já estava na Seleção Nacional. Conheço-o em termos pessoais e é um jogador imprevisível, rápido e esperto a jogar. É forte a jogar entre linhas e no 1×1, não tem medo. Não é um goleador puro mas é um jogador que pode mudar o jogo, que pode fazer coisas diferentes, que se está a adaptar a este novo estilo de jogo em Inglaterra com mais sprints e menos espaço mas acredito que pode ser um jogador muito importante”, rematou, neste caso sobre Daniel Podence.

Podence junta-se à armada portuguesa no Wolverhampton – e o Olympiacos tem um lucro de 13 a 18 milhões em quatro meses

A par de Rúben Neves, os três jogadores feitos na formação do Sporting foram titulares na equipa de Nuno Espírito Santo para o último encontro em casa a contar para a Premier League e que poderia valer nova ascensão ao sexto lugar em caso de triunfo, depois da vitória “sem espinhas” do Tottenham de José Mourinho com o Leicester. E os três acabaram por ser determinantes no triunfo, com Rui Patrício a ser uma muralha intransponível na baliza, João Moutinho a ser o pêndulo que equilibrou toda a equipa e Daniel Podence a marcar o primeiro golo que não só valeu três pontos como permitiu superar a pontuação que o Wolverhampton conseguira na última época.

Depois de mais um encontro onde foi penalizado com um golo do adversário nos descontos (desta vez com o 1-1 do Burnley de grande penalidade, depois do 1-0 do Sheffield United há duas jornadas), o Wolves sentiu dificuldades na construção a meio-campo perante a maior agressividade do Crystal Palace, que vinha de seis jornadas seguidas depois de ter assegurado uma pontuação que lhe permitia garantir a permanência no primeiro escalão inglês, e teve o primeiro sinal de relativo perigo numa insistência de Rául Jiménez, que conseguiu roubar uma bola ainda antes do meio-campo, foi a lutar contra o mundo até à área e rematou fraco para defesa fácil de Guaita. Foi preciso esperar até aos 26′ para ver a primeira oportunidade real do encontro, com Zaha a lançar Schlupp após erro de Boly mas o remate a sair a rasar o poste de Rui Patrício. Não marcaram os visitantes, marcaram os visitados: grande passe de Moutinho, assistência de Doherty e desvio de cabeça de Podence sem hipóteses (42′).

No segundo tempo, e mais uma vez em vantagem, o Wolverhampton conseguiu ter outra capacidade para gerir o encontro e até esteve mais perto de aumentar o resultado que propriamente sofrer o empate, diante de um Crystal Palace de Roy Hodgson que voltou a acusar em demasia o golo sofrido à semelhança do que tinha acontecido noutros jogos recentes e que não mais voltou teve a capacidade para criar situações como a de Schlupp. E a história acabou de vez a meio da etapa complementar, quando no seguimento de uma grande jogada de Traoré, que passou ainda pelos pés de Raúl Jiménez, o lateral Jonny Castro rematou na área à meia volta e fez o 2-0 (68′).