O Parlamento do Egito autorizou esta segunda-feira um possível envio de tropas para a Líbia, após o Presidente egípcio, Abdel Fattah al-Sisi, ter ameaçado com uma ação militar as forças turcas que apoiam Tripoli.

Numa sessão à porta fechada, a Câmara dos Representantes egípcia, maioritariamente ligada a Al-Sisi, aprovou o envio de tropas para a Líbia ou para qualquer outro país estrangeiro para “proteger a segurança nacional”.

O Presidente egípcio defende que a cidade costeira líbia de Sirte, bastião das forças ligadas ao marechal Khalifa Haftar, o “homem forte” do leste do país, é uma “linha vermelha” e avisou que qualquer ataque à cidade levará o Cairo a intervir militarmente para proteger a fronteira oeste.

Antes da decisão do Parlamento egípcio, Al-Sisi telefonou ao seu homólogo norte-americano, Donald Trump, a quem expôs a postura das autoridades do Cairo em relação à Líbia, uma vez que quer o Egito quer a Turquia são aliados dos Estados Unidos.

Num comunicado, a Presidência egípcia indicou que Al-Sisi explicou “a posição estratégica em relação à questão líbia com o objetivo de recuperar o equilíbrio dos componentes do Estado e conservar as suas instituições nacionais”.

Al-Sisi referiu que a intenção é “evitar uma deterioração ainda maior da situação de segurança”, bem como “as intervenções estrangeiras ilegais” na Líbia, que “podem pôr em risco a estabilidade e segurança” da região.

A votação da autorização esteve inicialmente prevista para domingo, mas foi adiada para esta segunda-feira, e surge como uma resposta à ameaça turca, que apoia as forças de Tripoli, de avançar militarmente para Sirte (370 quilómetros a leste da capital líbia).

A Líbia, que dispõe das reservas de petróleo mais abundantes do continente africano, está a braços com um conflito entre dois poderes rivais: o Governo de Acordo Nacional (GAN), reconhecido pela ONU e cuja sede é em Tripoli, e as forças de Haftar, que reina no leste e numa parte do sul do país.

O GAN é apoiado pela Turquia, que destacou militares para o terreno, e Haftar pelo vizinho Egito, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Rússia.

A intervenção militar turca foi considerada decisiva para o GAN, que tem rechaçado a ofensiva contra Tripoli, desencadeada em abril de 2019, e que permitiu retomar o controlo do noroeste do território líbio.

Também esta segunda-feira, a Turquia apelou para o fim imediato do apoio às forças de Haftar no final de uma reunião, em Ancara, com os ministros do Interior do GAN, Fathi Bachagha, e de Malta, Byron Camilleri.

É indispensável interromper imediatamente todo o tipo de ajuda e de apoio ao golpista Haftar, que impede a instauração da paz, da calma, da segurança e da integridade territorial da Líbia”, declarou o ministro da Defesa turco, Hulusi Akar.

“Sabemos que o maior obstáculo para alcançar esse objetivo é o golpista Haftar”, prosseguiu Akar, adiantando que Ancara vai prosseguir a colaboração com o GAN nas áreas de “formação, cooperação e aconselhamento militar”.

As declarações do ministro turco surgem numa altura em que a situação no terreno está cada vez mais tensa, em que o Egito ameaça intervir militarmente se o GAN avançar para a cidade estratégica de Sirte.

No domingo, o diário estatal egípcio Al-Ahram reportou que a votação no Parlamento se destinava a mandatar Al-Sisi para “intervir militarmente na Líbia” para “ajudar a defender o vizinho contra a agressão turca”.

Na semana passada, no Cairo, o Presidente egípcio foi anfitrião de dezenas de líderes tribais leais a Haftar, aos quais repetiu que o Egito “não vai ficar parado face às movimentações que constituem uma ameaça direta à segurança”.

O Parlamento líbio criado por Haftar no leste apelou a Al-Sisi para enviar tropas.

Em abril de 2019, as tropas de Haftar lançaram uma ofensiva militar para tomar Tripoli, que chegou aos arredores da capital, de onde foram empurradas de volta após a intervenção das forças apoiadas pela Turquia.

Mais tarde, as tropas de Tripoli retomaram o controlo do aeroporto, todos os pontos de entrada e saída da cidade, e um cordão de pequenas cidades chave na região, empurrando para leste as tropas de Haftar, tendo ainda tentado, em vão, reconquistar Sirte, tomada no início deste ano pelos rebeldes.

Se reconquistar a cidade, de onde é natural o antigo líder líbio Muammar Kadhafi, abrem-se as portas para as tropas apoiadas pela Turquia poderem avançar ainda mais para leste e retomar as instalações de exploração de petróleo, atualmente sob controlo de Haftar.