Depois de Lisboa, chegou a vez do Porto receber “Metropolis”, o espetáculo que junta o clássico filme mudo alemão, realizado por Fritz Lang em 1927, e um concerto da Orquestra Sinfónica Portuguesa, numa banda sonora original composta pelo pianista Filipe Raposo.

Tudo começou no início de 2019, quando o compositor recebeu um convite do Teatro São Luiz, em Lisboa, numa altura em que a instituição estava a celebrar os seus 125 anos. “Metropolis” estreou-se em Portugal, em 1928, precisamente no S. Luiz, que durante um período funcionou como cinema. O desafio era simples: escrever uma nova partitura para o enredo de 120 minutos.

Considerado o primeiro filme de ficção científica e uma obra-prima do expressionismo alemão, “Metropolis” é uma parábola sobre as relações sociais numa cidade imaginada à distância de um século, ou seja 2027. “Cronologicamente estamos muito perto dessa cidade, mas muito longe de a conseguir. A minha partitura tem o objetivo de ser uma espécie de portal do tempo, que viaja com o filme”, explica Filipe Raposo em entrevista ao Observador.

Para o músico de 41 anos, a questão do homem-máquina é a principal dialética da história, onde o homem está ligado ao coração e a máquina à razão. É numa tensão permanente entre estes dois lados que a luta de classes é visível entre os trabalhadores e os mais privilegiados, numa crítica evidente ao trabalho abusivo e em série. “A máquina, os mecanismo e as roldanas são uma presença permanente no filme e também na música. Interessava-me explorar esse sistema de repetição e o minimalismo do próprio movimento.”

Com cinco álbuns editados, Filipe Raposo prepara-se para lançar um novo trabalho ainda este ano

“Metropolis” aborda também conceitos como os mitos, as utopias, a paixão e a sedução, sendo “uma espécie de sinfonia urbana”, onde a ideia de industrialização acaba por ser um projeto falhado. Este é um tema que o músico considera bastante atual, uma vez que defende existir atualmente um “êxodo urbano”.

Como pianista residente da Cinemateca Portuguesa, acompanhando filmes mudos desde 2004, Filipe Raposo já acompanhou “Metropolis” três vezes ao piano, sendo esta a primeira vez que o faz com orquestra. “O filme tem sido alvo de várias bandas sonoras, apesar de haver uma partitura original escrita na época em que foi estreado. Essa partitura e esse esemble de 15 músicos foram o meu ponto de partida.”

Em quatro meses de trabalho de composição, o primeiro passo foi analisar o filme, perceber o estado da arte e procurar material capaz de desenvolver algumas temáticas. A literatura, das ciências sociais às artes, e a filmografia em torno do universo das cidades foram ingredientes essenciais para que Filipe Raposo criasse, enquanto compositor, a sua própria visão de vida urbana. Aproveitou depois as viagens a Macau, Hong Kong e a Buenos Aires para observar grandes metrópoles e perceber de que forma é que estas se projetam no filme. “Quis afastar-me da partitura original, tentei não me colar a ela e que este trabalho fosse uma visão da nossa contemporaneidade.”

O mais difícil? “Trazer para o filme a contemporaneidade e ao mesmo tempo estar num diálogo permanente com o realizador, embora isto pareça um bocadinho absurdo.” Filipe Raposo revela que quando acompanha ou escreve música para uma película questiona o realizador, ainda que metaforicamente.

Em palco estarão 14 músicos da Orquestra Sinfónica Portuguesa, separados por dois metros e sem máscara no rosto

Segundo o compositor, esta é uma partitura que tem diferentes funções ao longo do filme. “Pode acentuar ou sublinhar momentos, emancipar-se e desligar-se do filme, pode ir numa outra direção como se fosse um contraponto a alguma imagem, o que pode ter também um objetivo dramatúrgico.” Outra vezes o silêncio parece ser primordial e acaba por ganhar evidência. “Há cenas tão fortes que julgo ser importante desligar a música por alguns momentos. São técnicas de escrita de música para cinema que tento aplicar e que acabam por ser uma mais valia.”

“Metropolis” estreou no ano passado, mas chega pela primeira vez ao palco do Coliseu no Porto esta quinta-feira, pelas 21h, com 14 elementos da Orquestra Sinfónica Portuguesa sob direção do maestro Cesário Costa.

“Espero que se possa mudar e estruturar a classe artística”

Durante a pandemia, Filipe Raposo viu dezenas de concertos cancelados ou adiados, em Portugal e no estrangeiro, ocupando o seu período de confinamento com a escrita do seu concerto de piano e orquestra, que estreou no passado dia 4 de julho em Faro. “Acabou por ser o meu projeto de confinamento, que me acompanhou ao longo de quatro meses. Foi diferente do que costuma ser o meu processo de composição habitual, tornou-se muito mais difícil porque estávamos todos sem saber o que seria e quando desconfinamento. Tudo isso criou uma angústia criativa e existencial muito grande. Tive que me forçar a ter uma rotina diária.”

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Sobre as consequências da pandemia mundial no setor da cultura em Portugal, o pianista e compositor, também conhecido além fronteiras, vê o futuro com esperança e otimismo. “Acredito que houve uma série de situações que foram analisadas, como o estatuto do artista, os falsos recibos verdes e o apoio às artes. Isso gerou várias questões que julgo serem úteis a curto e a médio prazo. Espero que se possa mudar e estruturar a classe artística, é muito importante. Tenho esperança que existam conclusões positivas disso.

Ainda este ano, Filipe Raposo quer ver “Metropolis” em digressão pelo país e adianta que a 7 de novembro lançará no Teatro São Luiz, em Lisboa, o disco “When Barroque meets Jazz”, um trabalho com a cantora Rita Maria que une o universo do jazz à música barroca.