A derrota do Manchester City frente ao Arsenal em Wembley na meia-final da Taça de Inglaterra abanou a equipa e abanou o próprio Pep Guardiola, aquele treinador conhecido por ser polido mas que começou a disparar em várias direções tendo a mira apontada ao clube londrino que o afastou de mais um objetivo da temporada. “Tenho todo o respeito pelo Arsenal em campo. Fora dele, nem tanto. Mas no campo, muito. Tenho de lhes dar os parabéns e desejar-lhes sorte para a final”, atirou, recordando não só a forma como os gunners avançaram para os contactos e a contratação do antigo adjunto, Mikel Arteta, mas também pelas críticas pela decisão do Tribunal Arbitral de Desporto (TAD) que decisão revogar o castigo que impedia os citizens de participar nas competições europeias.

No entanto, houve mais pontos a marcar a agenda do Manchester City e, por consequência, o discurso do treinador espanhol. “Acho que ele está absolutamente preparado para qualquer país, fez a melhor temporada da história do New York City na última temporada. É incrivelmente bem preparado, tem muita experiência. Não tenho nenhuma dúvida sobre sua capacidade. Aprendi muito com ele, aprendemos juntos. Parte sucesso que tivemos em Munique e aqui em Manchester foi por causa dele. Fico feliz de saber que as pessoas pensam nele neste momento estranho, da pandemia do coronavírus”, comentou sobre o interesse do Flamengo no seu adjunto, Domènec Torrent. “Fez um trabalho excecional. Mostraram muito caráter para subirem uma época depois e têm sido consistentes. Ele é único no futebol mundial pelo modo especial que joga e uma pessoa incrível, muito especial. Será incrível para o futebol inglês tê-lo na Premier League na próxima temporada”, sublinhou sobre Marcelo Bielsa.

Sobre o Watford, o jogo que se seguia, na penúltima jornada do Campeonato, um elogio também a Nigel Pearson, terceiro treinador da temporada depois de Javi Gracia e Quique Flores, substituído apenas para dois jogos pelo ex-adjunto Hayden Mullins com o objetivo de garantir a permanência no primeiro escalão. Um elogio e uma tarefa difícil facilmente percetível: como motivar a equipa para os dois últimos encontros tendo já em vista a segunda mão dos oitavos da Liga dos Campeões frente ao Real Madrid? A experiência de jogadores em posições onde não jogam habitualmente era uma das fórmulas possíveis a utilizar e foi isso que aconteceu com portugueses.

Depois de ser suplente não utilizado frente ao Arsenal, Bernardo Silva regressou à equipa jogando não numa das posições do tridente ofensivo (e até mais na frente já jogou, no encontro decisivo para a Premier League frente ao Chelsea que deu o título ao Liverpool) mas no meio-campo, descaído para o lado esquerdo. E também Cancelo, que voltou a não sair do banco na meia-final da Taça de Inglaterra, foi opção mas como lateral esquerdo, uma posição onde nem Mendy, nem Zinchenko parecem ter convencido a 100% Guardiola. Num e noutro caso, esta foi uma temporada com menos minutos do que era previsível. E por razões diferentes, como explicou o técnico.

“É verdade que o Bernardo não jogou tanto esta época. Talvez seja culpa minha ou então tem a ver com o nível do Phil [Foden] e do Riyah [Mahrez]. Os outros jogadores também estiveram bem. Eles sabem que têm de competir pelo lugar, mas a minha admiração, o meu respeito e a minha opinião sobre o Bernardo Silva não mudaram. Ele é um jogador especial para mim, um dos mais especiais que já treinei. Não muda a forma de estar por jogar ou não. Há jogadores que ficam felizes quando jogam e que se comportam como crianças quando ficam de fora. O Bernardo é o oposto. É um homem maduro. Foi sempre a mesma pessoa”, disse há semana e meia. “Todos os que jogaram contra o Real podiam ter estado com o Aston Villa mas precisava de algo fresco, não só de pernas e mentalidade mas também de vontade. Se me seguirem, não será problema, mas, se não me seguirem, terão um problema. Um problema deles, não meu. Que Cancelo seja ele próprio, de mente aberta, que ouça, que tente fazer o seu melhor. Estamos aqui para o ajudar, depende dele”, referiu em março a propósito do lateral ex-Juventus.

Quer um, quer outro tiveram exibições regulares num encontro que, como já se previa, teve sentido único com a equipa visitada demasiado recuada, sem capacidade de saída e a deixar Troy Deeney perdido na frente sem bola nem apoios. E, para não variar, Raheem Sterling foi a figura em maior destaque do Manchester City, deixando o jogo praticamente resolvido na primeira parte: depois de uma grande defesa de Ben Foster a remate de Rodri a testar a meia distância (11′), o internacional inglês aproveitou uma bola mal cortada na área para desferir um míssil que deixou o guarda-redes sem reação (31′), sofreu uma grande penalidade de Hughes e bisou na partida, fazendo a recarga à conversão do castigo máximo depois de uma defesa inicial de Foster (40′). Em cima do intervalo, Kevin De Bruyne ainda teve oportunidade para aumentar após assistência de Bernardo Silva mas saiu ao lado.

Se há cinco anos Piers Morgan, jornalista muito conhecido e que fez uma das mais recentes entrevistas de fundo com Cristiano Ronaldo, tinha escrito no Twitter a frase “Se o Sterling vale 49 milhões de libras eu sou um porco-formigueiro, a resposta recente do avançado, dizendo “Isto ainda é mais engraçado agora”, e a resposta a isso de Piers Morgan, publicando uma imagem de um porco-formigueiro, conta o resto da história: a transferência do Liverpool valeu todas as libras investidas por um jogador que, não fosse a forma de jogar do City e a rotatividade que Guardiola gosta de manter a equipa, tinha condições suficientes para ser o melhor marcador. Aliás, basta ver que, entre clube e seleção, marcou 33 golos em 54 jogos e, na Premier League, chegou aos 19, naquele que foi mais um recorde batido por um jogador cada vez mais influente no rendimento ofensivo da equipa.

No segundo tempo, e quando se esperava uma outra reação do Watford após o “atropelo” da primeira parte, foi o Manchester City que manteve o controlo do jogo e, entre substituições que Guardiola foi fazendo na equipa, ainda chegou à goleada por 4-0 com golos de Phil Foden (63′) e Laporte (66′), regressando aos triunfos na Premier League e chegando aos 78 pontos… menos 20 do que aqueles com que se sagrou campeão na última temporada.