A Turquia vai manter uma presença militar no norte da Síria “até que o povo seja livre”, declarou esta terça-feira o Presidente Recep Tayyip Erdogan, numa crítica às “designadas” eleições que decorreram no domingo.

“Vamos continuar a permanecer nesse país até que o povo sírio, o nosso vizinho e irmão, encontre a liberdade, a paz e a segurança”, afirmou Erdogan num discurso em Ancara.

A Turquia protagonizou desde 2016 três intervenções militares no norte da Síria para combater o grupo jihadista Estado Islâmico (EI) e a milícia curda Unidades de Proteção do Povo (YPG).

No norte deste país, fraturado desde 2011 por uma guerra civil, a Turquia apoia militarmente os grupos rebeldes que combatem as forças do Presidente sírio Bashar al-Assad. Estas zonas estão submetidas à influência de Ancara devido à sua presença militar, e particularmente pela sua dependência económica face à Turquia.

As autoridades da província de Idlib, último grande bastião ‘jihadista’ e rebelde, iniciaram em julho a substituição da libra síria, em queda livre, pela moeda turca nas transações correntes.

No seu discurso, Erdogan também denunciou as “designadas” eleições legislativas organizadas domingo na Síria, um escrutínio que Washington considerou “manipulado”.

O que foram essas eleições? Onde estão os países que se dizem democraticamente avançados? À ONU ninguém diz, ‘o que estão em vias de fazer?’. As pessoas votaram de mãos atadas”, assinalou o Presidente turco.

Erdogan também afirmou que a Turquia “segue de perto” a situação na Líbia, onde Ancara apoia o Governo de Tripoli face às forças do marechal dissidente Khalifa Haftar.

A Líbia está fraturada por um conflito entre dois poderes rivais, o Governo de Acordo Nacional (GAN), reconhecido pela ONU e com sede na capital Tripoli, e os apoiantes de Khalifa Haftar, que domina o leste em torno da cidade de Bengazi, e parte do sul do país.

O primeiro é apoiado pela Turquia, que possui conselheiros e sustenta forças militares no terreno, Qatar, Tunísia e Itália, e o segundo pelo vizinho Egito, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, França e alegadamente a Rússia.

Num sinal de fortes tensões, o parlamento egípcio aprovou na segunda-feira uma possível intervenção armada na Líbia caso as forças do Governo de Tripoli, apoiadas por Ancara, prosseguiam o seu avanço em direção ao leste do país.

“Que ninguém tome os seus desejos por realidades, não vamos permiti-lo”, frisou Erdogan, sem, no entanto, mencionar explicitamente o Egito.

Após a queda do regime de Muammar Kadhafi em 2011, na sequência de uma revolta interna e uma decisiva intervenção aérea de forças da NATO (onde a França se destacou juntamente com Reino Unido e Estados Unidos), a Líbia resvalou para uma situação de caos, com contínuos conflitos e lutas pelo poder.

Nos últimos meses, a intervenção da Turquia alterou o equilíbrio de forças no terreno, debilitando e fazendo retroceder o Exército Nacional Líbio.

Apoiados pelos ‘drones’ [aparelhos aéreos não tripulados] de Ancara, e milícias pró-turcas provenientes da Síria, as forças do GAN ameaçam agora prosseguir o avanço para leste.

A guerra civil na Líbia, que se agravou na sequência de uma crescente ingerência externa, já provocou muitos milhares de mortos e mais de 200.000 deslocados.