O governo cabo-verdiano defende a revisão dos objetivos de curto prazo da Cabo Verde Airlines (CVA), reduzindo a aposta nos destinos internacionais mais distantes e apostando em nichos de negócio, devido à pandemia de Covid-19.

A posição, numa altura em que o governo ainda negoceia o apoio estatal à companhia, privatizada em 2019 mas desde março sem atividade comercial devido à pandemia, surge num dos documentos de apoio à proposta de lei do Orçamento Retificativo para 2020, que na próxima semana será levada a votação final no parlamento.

“O Governo, ciente destas novas variáveis que deverão levar à alteração dos fluxos internacionais de passageiros e cargas, e ciente da condição periférica do país, e enquanto acionista da CVA, entende e assume que a companhia deverá revisitar os seus objetivos estratégicos de curto prazo”, lê-se no documento.

Apesar da venda de 51% do capital social da companhia – anteriormente designada de Transportes Aéreos de Cabo Verde (TACV) – a investidores islandeses liderados pelo grupo Icelandair e 10% a emigrantes e trabalhadores, o Estado ainda detém uma participação de de 39% da atual CVA, que antes da pandemia estava a voar para mais de uma dezena de destinos, na Europa, África, Estados Unidos e Brasil, com uma estratégia que assentava no “hub” do Sal.

“Sem pôr de lado a estratégia de criação do centro de redistribuição de passageiros e carga localizado no Sal, os tráfegos étnico e turístico deverão emergir com nichos de negócio para as quais a CVA deve olhar com maior interesse e absorvê-los como mercado alvo. Por um lado, porque são mercados que mais depressa irão reagir no pós-Covid-19, e por outro lado porque a pandemia continuará a impactar negativamente no tráfego internacional de passageiros por mais alguns anos, segundo informações da IATA”, assume o Governo, na recomendação à companhia.

Antes da crise provocada pela pandemia de Covid-19, a administração da CVA já tinha apontado que a companhia necessitava com urgência de um empréstimo de longo prazo para garantir a sua operacionalidade. “O governo tudo fará para apoiar a CVA neste período transitório para fazer face a um mercado em transformação”, lê-se ainda no documento.

O vice-primeiro-ministro de Cabo Verde, Olavo Correia, afirmou este mês que o governo está a tentar um “processo negocial” para viabilizar o futuro da CVA. Para o também ministro das Finanças, a CVA é uma “empresa nacional” com “grande impacto na economia cabo-verdiana”.

“Nós estamos a fazer tudo para criarmos um novo contexto para que a empresa continue a operar, pelo que não faz sentido nós estarmos a criar notícias que visam apenas danificar a imagem da empresa e danificar a imagem de Cabo Verde”, afirmou o governante.

O governo cabo-verdiano suspendeu a 19 de março todas as ligações aéreas internacionais, que só deverão ser retomadas em agosto, pelo que a companhia está parada há mais de quatro meses. “Há um grande comprometimento do Governo de Cabo Verde para que, juntamente com o parceiro estratégico, possamos encontrar uma solução para a transportadora de bandeira nacional”, defendeu Olavo Correia.

Em março de 2019, o Estado de Cabo Verde vendeu 51% da então empresa pública TACV (Transportes Aéreos de Cabo Verde) por 1,3 milhões de euros à Lofleidir Cabo Verde, empresa detida em 70% pela Loftleidir Icelandic EHF (grupo Icelandair, que ficou com 36% da CVA) e em 30% por empresários islandeses com experiência no setor da aviação (que assumiram os restantes 15% da quota de 51% privatizada).

O governo cabo-verdiano concluiu este ano a venda de 10% das ações da CVA a trabalhadores e emigrantes, mas os 39% restantes, que deveriam ser alienados em bolsa, a investidores privados, vão para já ficar no domínio do Estado, decisão anunciada pelo executivo devido aos efeitos da pandemia.

A CVA transportou quase 345 mil passageiros no primeiro ano após a privatização (01 de março de 2019 a 28 de fevereiro de 2020) de 51% da companhia, um aumento de 136% face ao período anterior, segundo dados fornecidos à Lusa pela empresa.

Cabo Verde registava ao final do dia 21 de julho um acumulado de 2.107 casos de Covid-19 diagnosticados desde 19 de março e 21 óbitos. A pandemia de Covid-19 já provocou mais de 610 mil mortos e infetou mais de 14,7 milhões de pessoas em 196 países e territórios, segundo um balanço feito pela agência francesa AFP.