Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

É verdade que o país já começou a desconfinar e que os espetáculos culturais, do teatro passando pelo cinema ou até pelo stand up, voltaram a abrir. Mas com o cancelamento dos grandes festivais de verão, há pouca esperança de voltar a estar com muita gente num só recinto a ouvir a banda preferida.  A não ser que esse tipo de evento seja feito num recinto de um tamanho de um campo de futebol, seguindo todas as normas de segurança e de saúde da Direção Geral da Saúde e que, como é óbvio, o público esteja com a distância pretendida, usando máscara.  Esta foi a tática escolhida por Hugo Nóbrega da H2N, produtora e responsável para colocar de pé o espetáculo “Re-Creio” que, durante quatro dias, vai juntar Bruno Nogueira, Miguel Esteves Cardoso, Luana do Bem, Beatriz Gosta ou Salvador Martinha para conversas especiais e espetáculos de stand up.

“Muitas vezes pensei no timing certo e concluí que não havia. O ‘Re-Creio’ tem um hífen porque aqui a palavra tem um duplo sentido: o de voltar a acreditar e o da diversão. É uma mega operação, um evento teste.”, começa por dizer. Sendo que nesta altura estamos “numa fase de transição” para todos, ainda há quem tenha muito medo de voltar a estar na rua, apesar do produtor saber que seria um pouco indiferente fazer agora o evento ou só em setembro. Foi também por isso que Hugo Nóbrega optou por escolher o humor em vez da música. “O humor é uma área onde temos todos noção da importância que teve durante o confinamento. Ainda pensei em fazer com música, mas para primeira edição seria mais fácil dar a entender que isto não se tratava de um festival, que tinha regras necessárias”, diz. E não só regras, como também a vigilância da Proteção Civil e o olhar atento da Direção Geral da Saúde. Mas o produtor não jogou em campo desconhecido: a H2N organiza há muitos anos o The Famous Fest e já trouxe grandes nomes internacionais a Portugal, como Jimmy Carr ou Louis CK. Ou seja, ainda que fosse um risco, foi calculado.

O Jamor foi sempre a opção desde início e a ideia seria replicar aquilo que Hugo Nóbrega viu na Suécia, onde esteve a fazer a quarentena. Basicamente, assim que os suecos acabavam de trabalhar, iam para os jardins — ainda que depois o governo sueco tenha dado um passo atrás na estratégia. Já em Portugal, o produtor percebeu que não poderia ser um evento tão livre e deu-lhe a volta, optando por um lugar habituado a futebol, mas que reunisse as condições necessárias para o que queria.“Tem o enquadramento de final de Taça, onde estamos a ir para um momento de festa e celebração. Tem este ar calmo, há estacionamento, há filas para estar com calma”, comentou o produtor. Porque mesmo que a vontade inicial fosse sentar o público na relva (numa espécie de “comedy garden”), a Covid-19 falou mais alto. As pessoas nunca se vão cruzar: há quem vá para a bancada (800 lugares) e só sai e entra por ali, e há quem só vá para a plateia (500 lugares). Pode beber uma cerveja, mas tem de a pedir pelo telemóvel, até porque não há trocas de dinheiro. Se vir mal ao longe, pode sempre olhar para os ecrãs gigantes que estarão a transmitir os espetáculos.

As preocupações estendem-se ao elenco, com alguns dos nomes em cartaz a pertencerem ao grupo de risco. Tanto Miguel Esteves Cardoso (MEC), que completa 65 anos este sábado, como Rita Blanco, por exemplo, falaram com Hugo Nóbrega para refletir um pouco sobre a sua participação. É que o medo não vem só do público, também vem dos artistas e das próprias marcas. “A maior parte teve muito receio. Querem vir à hora certa e não querem estar com muitas pessoas”, diz.

Quanto a informações úteis, as portas só abrem uma hora e meia antes do início de cada espetáculo. E no capítulo das entradas, apesar de os espetáculos de MEC e de Bruno Nogueira já terem esgotado, ainda há bilhetes disponíveis para as outras atuações.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR