Em 2018, Elon Musk – que detinha 20% da Tesla – apresentou aos seus pares da administração o plano para os próximo anos. E este passava pelo lançamento da polémica Cybertruck, a pick-up de linhas angulosas, o Semi, um tractor para semi-reboque a bateria que poucos julgam possível e o Roadster, que até vai ter jactos de ar frio para acelerar mais rápido do que toda a concorrência. Tudo parecia tão arriscado que a administração pediu ao CEO uma prova de confiança, solicitação a que Musk acedeu com prazer: trabalharia para a Tesla a custo zero, sem ordenado. Em contrapartida, seria compensado cada vez que o valor da empresa em bolsa desse um salto de 50 mil milhões de dólares, num cálculo complexo que leva em linha de conta a facturação e o EBITDA ajustado. E toda a gente ficou feliz. Mas, passados dois anos, apenas Musk parece esfuziante com o acordo.

Em termos práticos, de cada vez que num período de seis meses o valor das acções da Tesla suba a ponto de elevar o valor no mercado da empresa em mais 50 mil milhões de dólares, o CEO recebe um prémio. O acordo foi assinado em 2018 e em Junho de 2020 caiu a primeira tranche de 800 milhões de euros, valor que foi pago em acções, por opção de Musk. Mas o acordo foi assinado quando cada título era transaccionado por 291 dólares, a milhas dos 1417 dólares que que valia quando fechou o mercado na 6ª feira.

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Depois de Elon Musk receber este prémio milionário, impõe-se estabelecer uma comparação com as remunerações, prémios e compensações dos restantes CEO do mercado, para se ter uma ideia real do que estamos a falar.

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Em 2018, a Automotive News publicou um estudo em que recordava os CEO mais bem pagos do mercado no ano anterior. A média estava nos 5,5 milhões de dólares, sendo então o líder do ranking Matthew Simoncini, o CEO da Lear, um fornecedor da indústria automóvel especializado em bancos e sistemas eléctricos, com 32,4 milhões de dólares, apesar de ter um salário de somente 1,4 milhões. Nesse mesmo estudo, Mary Barra, a CEO da General Motors, surgia no 2º lugar, com 25,9 milhões (com um salário base de 2,1 milhões). O CEO da Ford Motor Company, Jim Hackett, ocupa a 10ª posição do ranking com 7,3 milhões de dólares.

Face a esses valores, “só” os 800 milhões de dólares que Elon Musk recebeu de prémio da Tesla permitem-lhe saltar destacado para a liderança. Mas, apenas um mês depois, o CEO que também gere e controla a SpaceX, a Boring Company e a Starlink, amealhou outro prémio muiiiiito generoso, como compensação de não receber salário, dependendo apenas dos resultados da empresa. Se o primeiro prémio se ficou a dever ao facto de a Tesla ter estado seis meses com um valor de mercado acima dos 100 mil milhões de dólares, este novo prémio está relacionado com seis meses acima de 150 mil milhões de dólares. Só que, desta vez, o valor pago em acções foi de 2,1 mil milhões de dólares, cerca de 1,8 mil milhões de euros.

Se acha que este rol de prémios acaba por aqui, está redondamente enganado. Muito em breve vai chegar o prémio relativo aos seis meses acima dos 200 mil milhões de dólares, poucos meses depois seguido por mais outro período acima dos 250 mil milhões e, como o valor da Tesla fechou na 6ª feira a 1417 dólares, o que lhe atribui um market cap de 286 mil milhões, não deverá faltar muito para que Musk receba a tranche referente aos 300 mil milhões de dólares. Quem disser que trabalhar sem salário não compensa, ainda não conhece a história de Elon Musk.