“Se tivesse conseguido controlar aquela bola, a equipa podia ter uma noite mais tranquila e ficou frustrado por isso”. “Esteve longe do seu melhor apesar de ter continuado sempre a tentar coisas diferentes”. “Não esteve no seu melhor, em alguns momentos pareceu mesmo frustrado”. “Fraco no toque, passes errados, falta de energia, aquele que esteve no ressurgimento também precisa de férias”. Pela primeira vez desde que chegou a Inglaterra, todas as avaliações a uma exibição de Bruno Fernandes pelo Manchester United chegaram a uma só conclusão: “Afinal, ele também é humano”. E foi essa descida à terra por 90 minutos menos conseguidos que ajudavam a justificar aquele que seria o encontro mais aguardado da última jornada da Premier League, com os red devils a jogarem fora com o Leicester sabendo que uma derrota poderia afastar a equipa da próxima edição da Liga dos Campeões.

West Ham deu Rice a Bruno Fernandes e o Manchester United percebeu que não serão favas contadas

“Apenas dependemos de nós para alcançarmos o que queremos”, escreveu o médio nas redes sociais após o empate em Old Trafford frente ao West Ham, que podia até ter outros números face à boa exibição dos londrinos. Depois da igualdade frente ao Tottenham no regresso do futebol em Inglaterra, os comandados de Ole Gunnar Solskjaer tiveram uma série de quatro triunfos consecutivos que colocaram a equipa no quinto lugar, beneficiaram de uma queda a pique do Leicester que chegou a andar na discussão da segunda posição com o Manchester City mas foram vacilando nos set points que foram tendo, com dois empates em Old Trafford frente a Southampton e West Ham tendo ainda a derrota na meia-final da Taça de Inglaterra diante do Chelsea em Wembley pelo meio.

“Mudança no nosso futebol? Acho que foram vários fatores que contribuíram para isso. A confiança, o acreditar, a mudança de atmosfera e sentimento no clube… A chegada do Bruno [Fernandes] em janeiro também teve um impacto tremendo na equipa”, assumiu o técnico norueguês antes do encontro decisivo para a qualificação para a Champions. “Também temos os nossos melhores jogadores em boa forma e ansiosos por se mostrar. Acho que é fruto do trabalho, os jogadores confiaram em nós, confiaram no que fomos pedindo e os níveis mentais e físicos também melhoraram muito face à última temporada”, acrescentou, recordando o sexto lugar de 2018/19.

Do interior do clube chegavam elogios, do exterior do clube voltavam os elogios. “Obviamente o prémio de Jogador do Ano não pode ser entregue a alguém que só chegou à Premier League em meados de janeiro mas o seu impacto foi incrível com sete golos e sete assistências em 13 jogos até ao momento. A sua influência e a sua capacidade de pensar o jogo não podem ser medidas nas estatísticas. O United parece uma equipa diferente”, escreveu no final desta semana a revista FourFourTwo, recordando alguns dados do médio português a que se podia acrescentar outros como o facto de ter sido o jogador com mais peso em golos (13) nos dez primeiros jogos do Campeonato inglês. E era nas capacidades de Bruno Fernandes que recaíam parte das esperanças do conjunto de Manchester para regressar à Champions, o que poderia valer mais dez milhões de euros também ao Sporting: três a cinco pela entrada na Liga dos Campeões, outros cinco por ter atingido os 20 encontros oficiais pela nova equipa.

Tudo isso aconteceu. E aconteceu porque, apesar de voltar a ter um encontro mais discreto do que é habitual ainda que com muito mérito do Leicester à mistura pela capacidade de povoar o corredor central e tirar espaços a Pogba e a Bruno Fernandes, o médio português apareceu duas vezes, marcou um golo que foi anulado, fez um fantástico passe para Martial que acabou em grande penalidade e converteu o castigo máximo que abriu a vitória e respetivo apuramento para a Champions ao Manchester United (2-0). Em 14 encontros na Premier League, o internacional ganhou nove vezes, empatou cinco, fez oito golos e realizou ainda sete assistências. Tudo desde fevereiro.

O encontro começou com grande intensidade e com um Leicester a resgatar a personalidade em campo perdida nas últimas jornadas para oferecer outra resistência ao Manchester United. Os red devils tinham mais bola, trocavam mais passes entre si de forma consentida mas eram os visitados que iam criando mais perigo, com um remate de fora da área de Ndidi para defesa segura do espanhol De Gea após um roubo de bola de Tielemans a Matic na fase inicial de construção e uma tentativa que saiu fraca de Iheanacho numa transição rápida que colocou os foxes numa situação de 3×2. Bruno Fernandes, depois de um grande passe de Pogba, ainda marcou num golo anulado por clara posição irregular mas foi Tielemans a voltar a criar perigo, com um remate que saiu a rasar o poste.

Em termos práticos, e à exceção desse lance do português, o Manchester United encontrava muitas dificuldades para desconstruir a defesa do Leicester mas conseguiu no período de descontos antes do intervalo as duas chances de maior perigo nos 45 minutos iniciais, com Martial a ver uma tentativa desviada num defesa contrário a sair muito próximo do poste e, no seguimento do canto, Rashford a obrigar Kasper Schmeichel à defesa mais apertada do primeiro tempo. O Manchester United acabou melhor, reentrou melhor mas voltou a ter os seus períodos de tremideira de uma equipa que continua a evoluir entre dores de crescimento, como um num livre lateral desviado de cabeça por Jamie Vardy que bateu na trave com David de Gea a confirmar em demasia no golpe de vista.

Ayoze Pérez, jogador que foi talismã em algumas partidas, foi lançado no lugar de Iheanacho para o forcing final por um golo que valia o regresso do Leicester à Liga dos Campeões mas uma interceção de Greenwood perante a lentidão de Choudhury ainda na fase de construção dos foxes seguida de um fantástico passe de primeira de Bruno Fernandes isolou Martial na área antes de ser derrubado na área por Jonny Evans. O VAR ainda esteve a analisar o lance mas a grande penalidade foi confirmada e, com a maior calma do mundo, o médio português enganou Kasper Schmeichel (70′) num golo que valeu muitos milhões ao Manchester United pela entrada direta na Champions e mais dez milhões ao Sporting por ter assegurado o terceiro lugar à equipa na Premier League. E com tudo decidido e Evans expulso com vermelho direto após uma entrada muito dura, Kasper Schmeichel deu ainda o 2-0 a Lingaard, que entretanto tinha sido lançado, ao falhar uma finta na própria área (90+7′).