A derrota do Tottenham com o Sheffield United no início de julho, a culminar uma série de seis jogos com apenas um triunfo e três desaires, parecia ser o culminar de uma temporada a todos os níveis falhada pelos londrinos, que passaram de finalistas vencidos da Liga dos Campeões com lugar quase cativo nos lugares de acesso à principal prova europeia para uma equipa a lutar pela Liga Europa com dois treinadores pelo meio. Nessa fase, sentiu-se um José Mourinho diferente. Acossado pelas críticas, a deixar algumas indiretas pela política de contratações no clube a propósito da ida de Meunier para o B. Dortmund quando parecia ter tudo certo com os spurs, a pedir o tempo que outros casos de sucesso tiveram como Jürgen Klopp e o próprio Mauricio Pochettino. A época parecia perdida mas, mesmo com um calendário pouco vantajoso, o técnico português mostrou que tem várias vidas.

Mourinho é dos melhores do mundo a fazer uma coisa. O Tottenham fez isso três vezes e ganhou ao Leicester

Com um empate sem golos com o Bournemouth pelo meio, num jogo onde merecia mais, o Tottenham ganhou em casa ao Everton de Carlo Ancelotti, ao Arsenal de Mikel Arteta e ao Leicester de Brandon Rodgers, tendo ainda conseguido um importante triunfo em Newcastle onde Mourinho nunca tinha ganho em várias partidas realizadas antes pelo Chelsea e pelo Manchester United. A equipa melhorou a pique em termos defensivos, não só pelos poucos golos sofridos (dois em cinco jogos) mas também pelas raras oportunidades concedidas, encontrou um equilíbrio que lhe falhava no meio-campo e recuperou o melhor que Son e Harry Kane conseguem acrescentar ao coletivo no ataque. E foi com essa recuperação que chegou à última jornada da Premier League com hipóteses em aberto de chegar ao sexto lugar do Campeonato, necessitando neste caso de uma ajuda do “seu” Chelsea frente ao Wolverhampton para garantir uma vaga que constituía um mal menor numa época finalizada em crescendo.

“Tivemos algumas oportunidades para chegar aos lugares europeus na próxima temporada mas chegamos aqui nas mãos de outros, precisamos de ganhar ao Crystal Palace e esperar que o Wolverhampton não vença. Caso fiquemos em sétimo, teremos depois de esperar que o Arsenal não ganhe a Taça de Inglaterra. Estas são as nossas opções mas dependemos de outros e, como tal, só podemos pensar em fazer a nossa parte. É nisso que estamos focados, até para manter a nossa série positiva. O que prefiro? Jogar na Europa, prefiro a Liga Europa a nada. Até podia ser uma vantagem no Campeonato não jogar, porque faríamos um jogo por semana, com outra preparação, menor risco de lesões, menos desgaste e menos viagens. Há várias vantagens mas prefiro a Europa”, destacou Mourinho no lançamento do jogo com o Crystal Palace, equipa em queda livre desde que assegurou a permanência.

“Quando cheguei a equipa estava no 14.º lugar e a oito pontos do Arsenal. Se quiser rir comigo, sou o campeão dos últimos cinco jogos. E se tivéssemos mais jornadas, chegávamos ao top 4″, atirou ainda, num encontro com algum humor à mistura quando disse que queria fazer duas conferências por semana mesmo de férias e onde destacou as bases que ficaram para a próxima temporada: “Se viesse algum jogador já na segunda-feira era ótimo mas é apenas o início da janela de mercado… Penso que estamos a ir na direção certa, com muita calma, organizados, a pensar bem. Sabemos o que podemos ou não fazer, sabemos as direções que podemos ou não levar. Não podemos ser reativos, temos de manter o equilíbrio. Passo a passo, ficaremos com um plantel mais equilibrado. E, claro, manter os nossos melhores jogadores também vai ser algo muito importante de cumprir”.

O primeiro passo foi dado, entre o mérito e as fragilidades. Porque se a equipa teve uma entrada a todo o gás em campo, chegou à vantagem, podia ter construído outro resultado e conseguia dominar, bastou uma entrada em falso no segundo tempo para colocar a equipa de novo a falhar demasiados passes, a não ter capacidade para controlar o resultado e a sofrer sem necessidade. No final, perante a derrota do Wolverhampton em Londres com o Chelsea, o Tottenham garantiu a Liga Europa. E Mourinho ganhou o seu tudo ou nada pelo sexto lugar. Agora, no verão, é o documentário All or Nothing da Amazon que explicará tudo o resto. E seja pelo trailer já conhecido, seja pelos comentários que vão sendo feitos, o trabalho promete gerar mesmo muito interesse…

Com uma só alteração em relação à equipa inicial que atropelou o Leicester na última jornada na primeira parte, regressando ao eixo defensivo Eric Dier após castigo para o lugar de Davidson Sánchez, o Tottenham conseguiu não só entrar melhor como marcar cedo, o que deu outro conforto à equipa para ir fazendo o seu jogo até ao intervalo. E foi o suspeito do costume a inaugurar o marcador: Harry Kane, que marcou o quinto golo nos últimos três encontros da Premier League, beneficiou de uma assistência de Lo Celso para ganhar espaço na área e rematar sem hipóteses para Vicente Guaita, num lance que tinha começado numa boa zona de pressão mais adiantada que permitiu ao meio-campo londrino ganhar a bola em terreno adversário antes de fabricar o 1-0 (13′).

Lucas Moura, com uma fantástica jogada individual cortada pela defesa visitada já perto da linha de golo, teve a oportunidade de aumentar o resultado mas o encontro parecia controlado, perante a incapacidade do Crystal Palace em levar perigo à baliza de Lloris e as boas notícias que chegavam de Londres, com o Wolverhampton a cair de forma abrupta nos descontos da primeira parte com golos de Mason Mount e Giroud a darem uma vantagem de 2-0 ao Chelsea. Ou seja, e para que o sexto lugar fugisse ao Tottenham, era preciso que a equipa perdesse também o seu encontro. Mas aquele que poderia ser o melhor conselheiro acabou por tornar-se o cabo dos trabalhos.

Um pouco contra a corrente do jogo, Schlupp, sozinho na área após um canto do lado esquerdo, fez o empate no Selhurst Park (53′) e reabriu a decisão da sexta posição, que do lado dos Wolves de Nuno Espírito Santo parecia fechada pela desvantagem de dois golos. Lucas Moura ainda teve um remate na passada que passou pouco ao lado da baliza de Guaita mas foi o Crystal Palace a crescer, a criar mais oportunidades e a deixar o Tottenham entregue à sua sorte quase que a puxar pelo azar tendo em conta a incapacidade de controlar o encontro ou, no limite, ter outra destreza nas transições para apanhar em falso a defesa contrária e acabar com o encontro. No final, o empate chegou por três golos de diferença no confronto direto com o Wolverhampton para apurar desde já a equipa para a Liga Europa mas se a primeira parte deve ser um exemplo, a segunda fica também como lição.