Investigadores de uma universidade holandesa identificaram um gene cuja mutação pode deixar o corpo humano mais vulnerável à infeção pelo novo coronavírus: trata-se do gene TLR7, que codifica a informação necessária a produção de uma proteína que, até agora, não tinha sido relacionada com a imunidade a uma infeção.

O estudo, realizado por médicos e investigadores do Centro Médico da Universidade de Radboud, foi publicado recentemente no Journal of the American Medical Association (JAMA) — e foi originalmente motivado pela curiosidade dos médicos depois de pelo menos dois pares de irmãos com menos de 35 anos, de famílias não relacionadas, terem surgido nos hospitais holandeses com formas muito graves da Covid-19.

Os jovens, anteriormente saudáveis, desenvolveram formas severas da infeção que os médicos não conseguiram explicar de imediato. Tiveram de ser ventilados e um dos jovens acabou por morrer. A raridade daquela forma mais grave da infeção em jovens saudáveis levou os médicos a questionar-se sobre se a afinidade familiar, que os faz partilhar o código genético, desempenharia um papel na exposição ao vírus.

Investigadores do Centro Médico da Universidade de Radboud recolheram amostras genéticas dos dois primeiros irmãos e analisaram-nas em busca de indicadores comuns que ajudassem a explicar a exposição à Covid-19. Ao jornal El Español, um dos investigadores responsáveis pelo estudo, Cas van der Made, explicou que os médicos procuraram inicialmente no cromossoma X, onde se encontram vários genes relacionados com o sistema imunitário.

“Com dois pares de irmãos afetados, os genes do cromossoma X eram os mais suspeitos. As mulheres são portadoras de dois cromossomas X, enquanto os homens têm um Y e um X. Por isso, os homens só têm uma cópia dos genes do cromossoma X. Se os homens tiverem um defeito no gene, não há um segundo gene que possa assumir esse papel, como nas mulheres“, explicou van der Made àquele jornal.

A investigação holandesa concluiu que os irmãos tinham um pequeno defeito no gene TLR7, que impedia o corpo de produzir uma proteína que se afigura agora como “essencial para a proteção contra este coronavírus“, explicou o mesmo responsável.

“Parece que o vírus se pode replicar sem perturbações porque o sistema imunitário não recebe a mensagem de que o vírus invadiu. Porque o TLR7, que deve identificar o intruso e posteriormente ativar a defesa, quase não está presente”, afirmou van der Made. “Essa poderia ser a razão da gravidade da doença nestes irmãos.

Já depois da primeira análise, surgiu um novo par de irmãos também com menos de 35 anos (por isso considerados como jovens) igualmente gravemente doentes. Surpreendidos com a coincidência, os médicos recolheram amostras genéticas destes novos irmãos e perceberam que também eles tinham um pequeno defeito no gene TRL7. “De repente tivemos quatro jovens com um defeito no mesmo gene e todos eles adoeceram gravemente com o vírus“, disse o especialista.

A pandemia da Covid-19, que surgiu no final de 2019 na cidade chinesa de Wuhan, já se disseminou por todos os continentes, infetou mais de 16 milhões de pessoas e provocou a morte a mais de 650 mil pessoas.