A 6 de abril de 1933, em plena ascensão de Hitler ao poder na Alemanha, Antonin Artaud apresentava a conferência “O Teatro e a Peste” na Universidade de Sorbonne, em Paris. Sabemos, através dos Diários de Anaïs Nin — escritora francesa e amiga de Artaud —, que o que ali se passou foi tudo menos uma conferência, pelo menos no jeito mais expositivo, formal e tradicional que associamos ao género. Em Artaud, nada era politicamente correto e muito menos expectável. Transpirava a bom transpirar, gritava, contorcia-se, tudo numa violência transformadora que esvaziou a sala antes de a comunicação estar concluída.

Também agora as salas de espetáculos têm estado vazias. Não porque o público tenha decidido, em protesto, bater com a porta, mas porque uma pandemia o impediu de ocupar o lugar que lhe é devido. 87 anos depois, John Romão, forçado, como todos os portugueses, a estar em casa, voltou a Artaud. “Esta ideia surgiu logo na primeira ou segunda semana de confinamento obrigatório. Tinha acabado de reler O Teatro e a Peste e nunca me tinha centrado no contexto em que este tinha sido apresentado. Isso chamou-me a atenção e liguei logo à Salomé [Lamas]”, explica o encenador.

A realizadora, que tanto centra a sua obra na interceção entre ficção e documentário e que por isso parecia a Romão a pessoa certa para nisto com ele embarcar, atendeu o telefone. Vinha de um trabalho de investigação no Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia, em Braga, onde tinha estado a desenvolver questões mais ligadas com o poder da ciência como veículo para redesenhar o mundo e as relações entre seres humanos. Estava em casa há três ou quatro dias e respondeu assim: “Tenho uma câmara comigo, ‘bora lá”.

Deste “’bora lá” nasceu O Teatro e a Peste, que Romão e Lamas propuseram à EGEAC e ao Teatro Viriato, unidos em co-produção. O resultado é um projeto entre o teatro e o cinema, onde um ator e o diretor artístico de cada equipamento se juntam para recriar a conferência que Artaud deu em 1933. É para ver por streaming, através dos sites e das redes sociais da BoCA, da EGEAC e de todos os teatros envolvidos. São eles: o Teatro Romano (cujo vídeo pode ser visto dia 31 de julho, às 21h00), onde a coordenadora Lídia Fernandes se junta a Albano Jerónimo; o São Luiz Teatro Municipal (para ver dia 2 de agosto, às 21h00), onde a diretora artística Ainda Tavares se junta a Cucha Carvalheiro; o TBA (7 de agosto, às 21h00), com Francisco Frazão e Mónica Calle; 12 de agosto, no LU.CA — Teatro Luís de Camões (12 de agosto, 21h00), Igor Regalla junta-se a Susana Menezes; e ainda o Teatro Viriato (15 de agosto, 21h00), em que a recém-chegada diretora artística Patrícia Portela dividirá a secretária com John Romão. Sobre este último momento, podemos acrescentar que é um reencontro bonito, já que no primeiro workshop que Patrícia Portela deu, e que decorreu em Almada, um dos participantes era John Romão e que assim ficou a conhecer Artaud.

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É claro que os projetos começam sempre por outra coisa. Situando melhor: estávamos na segunda semana de confinamento obrigatório e “havia essa urgência de fazer qualquer coisa naquele momento”, admite o criador. Isto surgiu ainda antes da enxurrada de propostas digitais que inúmeros artistas desta área fizeram enquanto estiveram confinados. E antes sequer de pensar no Ciclo BoCA Online, John tentou dizer este texto em teatros vazios. Mas se ninguém saía de casa, também ninguém ia aos teatros. E a dinâmica do objeto foi sendo maturada.

Salomé Lamas, que admite que a sua relação com o teatro e com Artaud é “algo imatura”, foi-se aproximando a este O Teatro e a Peste através da discussão filosófica que ia circulando pela internet e por revistas especializadas, à boleia de interlocutores como Giorgio Agamben (filósofo italiano) e Jean-Luc Nancy, que começavam a sistematizar respostas e a reagir aos problemas sociais e políticos gerados pela crise da Covid-19. Leu o texto. Viu um documentário sobre Artaud. E, uma vez que não lhe foi permitido agarrar na câmara e ir com o fundador da BoCA Bienal para um teatro calado, pensou que era importante, naquilo que iam filmar — e também na forma como Romão dirigia (ou neste caso não dirigia) os atores — que se mantivesse esse lado informal inicial do tal “bora lá”: “Não estamos a criar vídeos com uma grande composição, direção e articulação de recursos, porque se tenta manter a semente original do primeiro telefonema que o John me fez. Aquele primeiro impulso. É esse que, de alguma forma, tentamos retrabalhar nesta documentação, que continua a ter algo de muito bruto. Não é uma coisa orquestrada, planeada, sem falhas. Fica a meio caminho. E isso é sintomático do momento que vivemos, não é uma coisa nem é outra. Não podemos ter o impulso porque é um risco muito grande, ainda não temos os dados para nos atirarmos de cabeça, e ao mesmo tempo ainda não estamos perante as nossas capacidades de poder organizar e funcionar da forma como funcionaríamos. Acho que O Teatro e a Peste traduz este momento”, enquadra a realizadora.

Algo que John Romão se apressa a corroborar: “Não temos uma chave para descodificar o texto, interessa-nos muito expo-lo na sua dificuldade e perante a nossa fragilidade do contexto atual. É uma conferência. Não queremos cair na tentação de estar a encenar uma peça de teatro a partir de uma conferência. Agora, tudo o que aconteceu ao Artaud, naquele dia, na Sorbonne, nós validamos. Só que não há uma ideia de preparação e de ensaio, os atores têm o texto na mão e estão a fazer quase como se fosse pela primeira vez. Eles estão à procura. Interessa-nos esse lugar”.

Chegaram também ao desejo de ter arquiteturas distintas, vários teatros que possam dar filmes de 40 minutos em que a paisagem — não só aquela que envolve os intérpretes ­—, mas também os corpos, se lhe quisermos dar uma silhueta e uma profundidade, que serão naturalmente diferentes de teatro para teatro, de episódio para episódio, se assim os quisermos apelidar. Os diretores artísticos assumirão aquele que era o papel de René Allendy — psicanalista francês —, que era o diretor das conferências que por aqueles dias decorriam na Sorbonne e que apresentou Artaud, antes de ele começar a fazer a sua performance — se no mundo atual o conceito de conferência-performance ou palestra-performance é já algo bastante explorado, na altura, não era bem assim.

Depois, há ainda uma outra vertente do projeto, mais participativa, em que os dois responsáveis pela ideia contactam vários teatros, encenadores e companhias por esse Portugal e por esse mundo fora, para que este gesto possa ser replicado, “como um vírus que se propaga”, explica Romão antes de acrescentar: “Essa é uma outra vertente do projeto, que é quando eu e a Salomé não estamos, ou seja, temos estado a lançar convites a outros atores, encenadores, companhias, de outras regiões portuguesas e estrangeiras, para que possam ativar o texto do Artaud, uma versão mais condensada. Fizemos uma espécie de guião, com instruções, em línguas diferentes, que temos partilhado e enviado para que isto possa chegar a outros teatros ainda vazios. E que façam esses pequenos vídeos, interessa-nos esse lado viral”.

Sabendo que, uma vez iniciada essa corrente — que já tem, pelo menos, Braga, Faro, Castelo-Branco, Funchal, Porto como cidades que vão aderir e muitas mais se seguirão —, vão, provavelmente, perder o fio à meada. E isso, neste caso, é bom: “Sinto que estes primeiros vídeos que vamos fazer representam o início desta cadeia que depois pode ser esse vírus. É quase como se começássemos por criar uma base para algo que idealmente seria reproduzido, trabalhar por contágio, aceitar as constantes mutações. Existe um guião ou um documento com guidelines mínimas, mas não temos agência sobre aquilo que pode realmente ser a resposta desta cadeia, não controlamos”, conclui Salomé Lamas.