Título: Coisas de Loucos
Autor: Catarina Gomes
Editora: Tinta-da-China
Páginas: 264

Coisas de Loucos, uma coletânea de histórias de utentes do antigo Hospital Miguel Bombarda (também conhecido como “Rilhafoles”) que já haviam sido parcialmente partilhadas em artigos do Público, parece ter quatro camadas de profundidade distinta e que importa analisar.

A primeira, e talvez a mais superficial destas camadas, apresenta-nos um certo Portugal em que o regedor “não prendia ninguém por bater na mulher” e em que a homossexualidade era silenciada e varrida para debaixo do tapete, um país que queremos julgar extinto contra todas as evidências em contrário. Mas não é só o epitáfio deste Portugal de Rilhafoles que encontramos no livro de Catarina Gomes, uma vez que as investigações da jornalista revelam também uma Lisboa antiga, bairrista, composta de homens e mulheres sem presente, fugidos do interior em busca de um futuro risonho que tarda em chegar, uma Lisboa soterrada pouco acima das ruínas romanas e já bem abaixo dos apartamentos convertidos em alojamentos locais para estrangeiros.

Logo acima disso, encontramos a descrição da maneira sub-humana com que a medicina e a sociedade encaravam os doentes psiquiátricos durante a grande maioria dos anos de funcionamento do Hospital Miguel Bombarda (1848-2011). Catarina Gomes informa-nos de que eram proibidos os espelhos nas instalações do hospital e que eram também (consoante o ano em questão) proibidos, desincentivados ou simplesmente ignorados quaisquer desenhos, conversas ou outro tipo de actividades introspectivas. Os doentes que entravam num asilo não iam ali para serem confrontados com os seus fantasmas, não eram encarados como pessoas de pleno direito. Eram seres trancados em lugares onde não estorvassem muito, porque prendê-los numa das artérias principais de Lisboa permitia aos responsáveis pelos “mentecaptos” viver com uma consciência ligeiramente mais tranquila do que se simplesmente os abatessem a sangue-frio. Os “desassisados” eram, afinal, criaturas incomodativas que nem pombos e que tal como pombos deveriam ser tratados, como vemos na história de Clemente.

Coisas de Loucos serve também para nos fazer ver como a loucura é, afinal, uma outra forma de domesticar a vida, esse animal feroz que teima em escapar ao nosso controlo. É isso que encontramos de forma cabal na história de Leopoldina, uma pobre viúva forçada a mendigar que se imagina a esposa de Francisco Franco, acabada de chegar de uma viagem “das Sírias e maravilhas”. É também isso que transparece da história do capitão marítimo, que se convence de estar erradamente internado enquanto aguarda pelo pagamento de uma gratificação pelo desempenho extraordinário durante um naufrágio na costa de África, ou da história de Valentim, o senhor de meia-idade anafado que passa os dias a recordar os dias da sua mocidade em que fora elegante como uma espanhola e maleável como uma cobra, dias que, jura, voltarão assim que lhe for dada alta.

Finalmente, Coisas de Loucos é também, e sobretudo, sobre pessoas sãs. Catarina Gomes parte do princípio de que vai escrever o livro sobre os pacientes famosos do Miguel Bombarda: o poeta Ângelo Lima, o tenente que matou Miguel Bombarda ou o assassino de Sidónio Pais. No entanto, a jornalista rapidamente percebe que o livro seria mais interessante se em vez de falar de utentes famosos e com vidas extraordinárias, falasse de todos os outros anónimos, bem mais parecidos connosco, dos quais se conhece apenas o banal e corriqueiro e cujas vidas foram bruscamente interrompidas pelo internamento.

Em certo sentido, Coisas de Loucos invoca a peregrinação de Dante pelo Inferno. Catarina Gomes deixa-se tocar não pelo drama dos utentes do Hospital mas por se conseguir imaginar a si mesma na pele de Leopoldina, de Valentim ou de Simão.

No entanto, a proximidade que Catarina Gomes parece sempre sentir em relação aos seus loucos esbarra sempre na irremediável alteridade do outro. Os passos que Catarina Gomes dá em busca das vidas dos seus protagonistas são sempre tentativos e pouco produtivos. A jornalista procura casas que foram ocupadas pelos utentes do Hospital há, por vezes, mais de cem anos, visita lugares onde já não existe qualquer vestígio da passagem destes homens e mulheres anónimos, tenta recriar na sua cabeça um funeral ocorrido em 1908 apenas com a ajuda de uma florista de bairro, especula com base em probabilidades remotas, imagina e inventa. Porque Coisas de Loucos é, afinal, e acima de tudo, um livro sobre como o passado ficará para sempre inalcançável e sobre o pouco acesso que temos às mentes dos protagonistas, não necessariamente por serem loucos mas por serem pessoas como nós.

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