A semana de Nico Hulkenberg foi tudo o que não estava à espera mas, em paralelo, tudo o que sonhava que um dia pudesse acontecer: confirmado o teste positivo de Sergio Pérez, infetado com Covid-19 apesar de todos os cuidados que a Fórmula 1 tomou para o regresso do Mundial em 2020 (ou neste caso, para o início), o alemão recebeu uma chamada do diretor da Racing Point, Otmar Szafnauer, interrompeu a marcha quando ia a caminho do circuito de Nurburgring e colocou-se a caminho de Slverstone para substituir o mexicano e antigo companheiro. “É o nosso fantástico supersubstituto”, atirou o responsável da equipa a propósito do germânico que passou pela então Force India e que é ainda hoje o piloto com mais corridas realizadas sem nunca ter conseguido chegar ao pódio.

Agarrando neste ideia e olhando para horas de mudança, as sessões de treinos livres prolongaram esse jackpot sem fim para Hulkenberg e também para Lance Stroll, agora companheiro de equipa, com os Racing Point a fazerem os melhores tempos à frente dos Mercedes. No dia seguinte, a qualificação recolocou “ordem” nas contas. No caso do alemão, foi notório o problema da parte física, sobretudo a nível do pescoço. Valtteri Bottas assumiu em grande parte o protagonismo em Silverstone e tudo apontava para que garantisse mesmo a segunda pole da temporada, depois do bom arranque no Grande Prémio da Áustria. No entanto, e com Lewis Hamilton na mesma equipa e em posta, o finlandês sabe que num instante tudo pode mudar e foi isso que aconteceu (mais uma vez).

No regresso da Fórmula 1 após uma paragem que quebrou três fins de semana consecutivos de corridas (e das tais “bolhas” que são criadas pelas equipas cumprindo o protocolo sanitário), o britânico foi mostrando o incómodo com a falta de equilíbrio do carro e na Q2, quando arriscou um pouco mais com pneus médios, alargou um pouco mais a trajetória na curva Woodcote, teve uma ligeira saída com peão mas recuperou logo a seguir o controlo. O melhor, para não variar, estava ainda guardado e bastaram duas voltas na última fase do dia para alcançar a volta mais rápida, deixar Bottas a uma distância imprevista pelo que se assistira até aí e garantiu a terceira pole position consecutiva da época, a sétima em Silverstone no “seu” Grande Prémio (sexta nos últimos sete anos).

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“Acima de tudo, quero ser capaz de correr ao nível a que corro neste momento para sempre mas, obviamente, chegará a altura em que o lado físico e o lado mental se irão deteriorar. Não sei quando chegará essa altura, mas não o vejo a acontecer num período de tempo particularmente curto, nos próximos dois ou três anos. Por isso, continuarei por cá no futuro próximo”, comentara antes o piloto britânico em entrevista à Sky Sports, quase que deixando um aviso de que está na Fórmula 1 para conquistar os poucos recordes que ainda lhe faltam como o número máximo de títulos mundiais que pode igualar este ano (sete, como Schumacher). Depois, e numa decisão tão importante como os resultados nas corridas, irá escolher se fica na Mercedes ou se arrisca um novo projeto, sendo certo que essa posição irá determinar também a possibilidade de ficar (ainda mais) na história.

Hamilton ganhou outra vez mas os verdadeiros vencedores foram os mecânicos de Verstappen, que recuperaram um carro em 10 minutos

Com as condições meteorológicas típicas em Silverstone, com sol, ameaça de chuva de 40% e algum vento como se tinha sentido nos primeiros dias de Grande Prémio, a antecâmara ficou marcada pelas muitas homenagens feitas pela organização e não só ao Serviço Nacional de Saúde britânico, pelas expetativas da Ferrari em conseguir os lugares cimeiros que restavam tomando em linha de conta que ninguém colocava em causa a superioridade da Mercedes, pelo troféu vintage preparado para esta edição de 2020 que foi inspirado naqueles que existiam na década de 50, por mais uma iniciativa com redobrado peso a apoiar o movimento “Black Lives Matter” e pelos problemas de Hulkenberg, que apesar de todos os esforços teve de sair do pit line. Em paralelo, a história do capacete do britânico Lando Norris voltou a ser muito abordada, por ter sido desenhado por uma criança.

“Sou um grande fã em mudar as coisas no meu capacete, expressar-me e criar coisas novas. Para Silverstone, a minha decisão foi dar a oportunidade aos fãs de poderem também. Criaram algumas ideias e designs fantásticos, deixei que escolhessem eles o que iria utilizar no meu Grande Prémio e a Eva foi a vencedora. Tem seis anos, trouxe um design muito original e levou-me para um tempo quando tinha cinco, seis ou sete anos e criava também os meus capacetes. Fiquei muito contente”, explicou o piloto da Racing Point, um dos mais efusivos na salva de palmas que houve antes do arranque da prova em homenagem a todos os profissionais de saúde enquanto um avião voltava a passar por cima do traçado com a mensagem “Obrigado NHS” escrita nas suas asas.

No arranque, que acabou mesmo por não contar em definitivo com Hulkenberg após ter sido descoberto um problema no carro, e em relação ao primeiro lugar, houve durante dez segundos emoção e quase imprevisibilidade: Lewis Hamilton facilitou um pouco, Valtteri Bottas saiu melhor mas o britânico conseguiu cortar caminho na primeira curva e posicionar-se numa liderança que não mais deixaria, sendo que outros pilotos como Verstappen, Leclerc, Norris ou Stroll saíram também de forma promissora para uma corrida que teria a entrada do safety car logo na primeira volta, após a saída de Kevin Magnussen num toque de pneus com Alexander Albon. Mais umas voltas sem grandes mexidas e as principais lutas entre sexto e oitava posição, mais uma entrada do safety car, desta vez depois de um despiste do russo Daniil Kvyat que não demorou a pedir desculpas à equipa pelo sucedido. E assim se andava, com o primeiro terço da corrida a ser dobrado com todos os carros na expetativa.

Novo recomeço, uma aparente reação de Bottas que não deixou Hamilton descolar por completo mas que se ficou por aí, uma luta interessante pelo quinto lugar com Carlos Sainz a ultrapassar Romain Grosjean, único piloto da Haas ainda em pista, antes de o outro McLaren de Lando Norris forçar também a subida de posição conseguida numa curva por dentro ao contrário do companheiro de equipa. Apesar de ter perdido um lugar em relação à grelha de partida, em contraponto com Sainz que subiu dois lugares, o capacete desenhado por Eva ficou bem visível na ultrapassagem a Grosjean, num dos pontos de maior emoção de uma corrida que não teve grandes mexidas em relação ao que se passara na qualificação e que a 16 voltas do final tinha Bottas a 1.7 segundos de Hamilton, Verstappen a dez segundos e Leclerc já com um atraso de meio minuto em relação aos pilotos da frente.

Tudo parecia decidido mas as últimas três voltas foram impróprias para cardíacos devido ao desgaste dos pneus que tocou a quase todos: Valtteri Bottas furou, demorou a chegar às boxes, deu tudo no final mas não conseguiu ultrapassar Vettel, ficando fora dos pontos; Carlos Sainz, que estava então na quarta posição com a descida abrupta do finlandês, furou também e perdeu a hipótese de fazer o melhor resultado do ano; Daniel Ricciardo já tinha entretanto conseguido superar Lando Norris; e, para fechar com ainda mais emoção, o pneu esquerdo dianteiro de Hamilton também furou, com Max Verstappen (numa corrida simbólica em que igualou as 106 provas do pai, Jos) a arriscar tudo para chegar ainda ao primeiro lugar mas o britânico a aguentar quase por milagre. Leclerc voltou aos bons resultados com a terceira posição, enquanto Daniel Ricciardo fez o melhor resultado pessoal e da Renault em 2020, à frente do quinto classificado Lando Norris.