“Um cenário miserável de habitabilidade”. Foi assim que uma fonte da Polícia Judiciária de Setúbal descreveu ao Observador a casa em Grândola onde este fim de semana um homem de 53 anos foi detido por suspeito de ter morto a mãe, de 82, deixando-a aparentemente morrer à fome.

Há cinco anos que o agora suspeito, filho único e sem ocupação profissional conhecida, tinha voltado à casa da mãe depois de um divórcio. Na altura a vítima ainda era vista na rua, com alguma autonomia, e era ela que fazia questão de se dirigir ao posto dos CTT para levantar a sua reforma. Segundo testemunhas no local à PJ, no entanto, há dois anos numa dessas idas aos correios sentiu-se mal e acabou por ter que ser assistida no hospital, apresentando já à data sinais de desidratação.

O tempo foi passando e os vizinhos viam-na cada vez menos. Também as persianas do quarto onde dormia eram cada vez menos abertas. Com a pandemia, no entanto, todos se recolheram em casa e o próprio carteiro começou a levar-lhe a reforma à porta. O filho mostrava o cartão de cidadão da mãe e recebia-a.

Pela hora de almoço do último sábado foi ele que ligou ao INEM dando conta de que a mãe teria morrido. Mas quando o INEM e a GNR chegaram ao local aperceberam-se logo de um cenário “miserável”. A PJ foi chamada ao local por se tratar de uma morte e suspeitou logo das circunstâncias da morte da idosa.

“Estava esquelética, subnutrida e com vários escaras no corpo, como quem está há muito tempo na mesma posição”, disse.

No entanto, o filho, esse não parecia subnutrido.

Nos últimos meses havia mesmo quem lhes levasse sacos a casa com bens alimentares, como a apurou a PJ numa primeira recolha de prova testemunhal. Mas essa comida, suspeita-se agora, nunca terá chegado à vítima. As autoridades acreditam que o seu filho quis que morresse à fome, para parecer uma morte natural. “Talvez por não ter coragem de lhe tirar a vida de uma forma mais violenta”, analisa fonte da PJ, que diz que o suspeito teve um discurso muito contraditório e pouco credível sobre os factos.

Perante as primeiras provas recolhidas, a PJ deteve o filho da vítima por suspeitas de homicídio qualificado, por acreditar que ele quis mesmo provocar a morte à mãe e nada fez para evitá-la. Foi mais que maus tratos, considera a PJ. Mantinha-a “fechada em casa e confinada ao quarto de dormir, privada de alimentos, bebida e cuidados de saúde, assistindo impávido ao degradar do seu estado, até à falência total dos órgãos vitais e consequente morte, no passado sábado”, lê-se no comunicado.

O suspeito foi segunda-feira presente a tribunal. O corpo da mãe ainda será autopsiado. A PJ acredita que não teria morrido muito tempo antes de o filho alertar as autoridades.

Segundo noticiou, entretanto, o jornal Correio da Manhã, o suspeito ficou em prisão preventiva, depois de ter deixado “a mãe idosa morrer à fome”.