O novo CEO da Audi, Markus Duesmann, revelou à Reuters qual é a sua visão para o futuro da indústria automóvel e como pretende posicionar a marca dos quatro anéis, fiel a essa perspectiva. Segundo ele, a potência do futuro – aquela que vai marcar a diferença – não será medida em cv ou kW, mas sim em teraflops (TFlop), a métrica que determina o desempenho dos processadores. Para o responsável máximo do fabricante de Ingolstadt, a computação é um meio para atingir um fim, a condução autónoma, e será por essa via que a Audi pretende bater a Tesla. Quando? Em 2024.

O executivo, que é também chefe de Pesquisa e Desenvolvimento do Grupo Volkswagen, mostra-se disposto a bater a Tesla fora dos “territórios” convencionais, razão pela qual está a criar uma espécie de task force, com 200 engenheiros, onde o brilhantismo do trabalho dessa equipa não se medirá na rapidez de aceleração de 0 a 100 km/h ou na velocidade máxima alcançada. Nem na potência dos motores, necessariamente eléctricos. O que vai separar o trigo do joio, na opinião de Duesmann, é o poder e a rapidez de cálculo a bordo. De recordar que ainda recentemente o Grupo Volkswagen aquiriu uma série de startups especializadas na área da electrónica e software, com os respectivos técnicos, e isso não evitou os problemas que sentiu em relação ao Golf e ao ID.3, neste departamento.

“No que diz respeito à digitalização, estamos atrasados ​​- por enquanto”, reconheceu o CEO à citada agência. E é justamente para recuperar esse atraso que surgiu o Projecto Artemis, uma designação importada da mitologia grega e plena de significado, ou não fosse Artemis a deusa grega da caça. A Audi anda à caça do melhor software para os seus futuros veículos, com o fito de bater a Tesla, até agora vista pelos alemães como líder da indústria neste domínio.

Olha, sem mãos! Conduzimos o Audi A7 100% autónomo

Duesmann tem pela frente quatro anos de trabalho para desenvolver um novo sistema de condução autónoma, que fará a sua estreia num Audi, mas que se destina a ser usado pelos restantes modelos do Grupo Volkswagen. E como o tempo é curto – o próprio realça que “desenvolver um carro novo, com tantos recursos novos, até 2024 é tão exigente que provavelmente não terá precedentes” -, a task force trabalhará liberta dos constrangimentos burocráticos que normalmente há nas grandes organizações, com carta-branca para recorrer a fornecedores externos, se isso for sinónimo de agilizar o processo. A China também entra no plano alemão, pese embora o CEO da Audi não tenha concretizado em que moldes ou porquê.

Certo é que a todas essas vantagens a equipa do Artemis junta ainda, a seu favor, o facto de beneficiar do know-how de engenharia do conglomerado germânico, que só na sede da Volkswagen, em Wolfsburg, tem para cima de 10.000 funcionários dedicados à Pesquisa e Desenvolvimento.

A liderar o team está o homem a que, em tempos, a Apple confiou o desenvolvimento de software para carros autónomos (entretanto abandonado), Alexander Hitzinger. É ele o responsável pela tecnologia de condução autónoma na Volkswagen e a ele caberá orientar o trabalho da Artemis para “resultados” concretos.

Na prática, trata-se de conseguir conceber uma arquitectura electrónica escalável, apoiada em sensores, radares, câmaras e LiDAR, capaz de “ver” e decidir em tempo útil, qual condutor. Isto porque no dia em que este for dispensado, não serão admissíveis hesitações a travar, ou erros ao mudar de faixa, pelo perigo inerente a essas falhas. Passa a valer a “ditadura” dos FLOPS (FLoating-point Operations Per Second), uma métrica que requer muita capacidade de computação a bordo, sob pena de um milissegundo de atraso aumentar o risco de acidente.

Alemanha: a primeira nos automóveis autónomos

Recorde-se que a Alemanha, onde a indústria automóvel é a que tem maior peso na economia, fez saber que está a preparar o enquadramento legal para que veículos sem condutor possam deslocar-se em estradas públicas, com limitações geográficas e em ambientes específicos.

Há três anos, o Observador teve oportunidade de ir à Alemanha testar o que de melhor a Audi tem para mostrar no domínio da condução autónoma.