São os dois clubes mais recentes ainda nas provas europeias. De um lado, FC Copenhaga, com um grande currículo nacional, algumas presenças históricas na Liga dos Campeões onde chegou à fase a eliminar depois dos grupos mas com uma margem muito reduzida em termos de progressão. Do outro, Basaksehir, quase sem currículo nacional (até esta temporada só tinha ganho títulos em divisões inferiores), raríssimas participações nas provas europeias sem nunca ter chegado longe mas com uma margem enorme em termos de progressão. Mais do que projetos, mais do que ideias, mais do que investidores, um nome faz a diferença entre dinamarqueses e turcos: Recep Erdogan, presidente da Turquia. E é mesmo assim: sempre que ler algo do Basaksehir, Erdogan anda sempre por lá.

Durante muitos anos, a realidade do futebol turco estava reduzida a três grandes clubes que, de uma maneira ou outra, tinham ligação também a Portugal ou por terem internacionais ou por contarem com jogadores que tinham passado pela Liga. E a luta do título era assim, limitada a Besiktas, Fenerbahçe e Galatasaray com intromissões raras de Trabzonspor e Bursaspor que aproveitavam anos maus do trio para se chegarem à frente. Nas derradeiras épocas o Basaksehir, que por cá até começou a ser mais conhecido por Istambul BB, começou a aproximar-se dos lugares do topo. Mais, mais e mais até conseguir um inédito triunfo num Campeonato muito disputado que veio baralhar as contas deixando os crónicos candidatos entre a terceira e a sétima posição. Com 69 pontos, a equipa de Okan Buruk (antigo jogador que se destacou no Galatasaray, passou três anos pelo Inter e defrontou Portugal no Europeu de 2000) festejou o título e estava ainda nos oitavos da Liga Europa.

O plantel é tudo menos inexperiente – esse é o problema de sustentabilidade deste projeto – mas tem mais valias que podem ter entrado na curva descendente da carreira mas ainda conseguem fazer a diferença, casos de Clichy, Skrtel, Topal, Inler, Demba Ba, Elia ou o mágico Robinho, que aos 36 anos tem os seus dias de inspiração numa equipa que tem no bósnio Edin Visca a principal referência. E há caras conhecidas do futebol nacional, como o defesa cabo-verdiano Carlos Ponck, que chegou a ter ligação ao Benfica (nunca passou da equipa B) e andou entre empréstimos no P. Ferreira e no Desp. Chaves até assinar a título definitivo pelo Desp. Aves, ou o lateral Júnior Caiçara, que esteve no Gil Vicente e passou pela Bulgária e pela Alemanha, ao serviço do Schalke 04, antes de rumar à Turquia. Tudo pago a preço de ouro, ou não tivesse o Basaksehir um dos maiores orçamentos.

Quando era ainda presidente da câmara de Istambul, Erdogan começou a pensar num clube de futebol que pudesse “servir” aquele bairro, mais conservador e ligado aos islâmicos. Basaksehir sempre teve um papel importante na subida do político, inicialmente a primeiro-ministro e depois a presidente, e também Basaksehir cresceu muito apoiado no político, com uma expansão enorme que ainda hoje continua naquela zona. Em 2014 o clube mudou de nome, foi comprado por empresas próximas do governo e sentenciou outro dos grandes problemas que o clube terá sempre de enfrentar: a falta de adeptos, que são muitas vezes minoritários jogando em casa. Mas há mais ligações a Erdogan, da mulher do líder do Basaksehir, Göksel Gümusdag (que é do Partido da Justiça e do Desenvolvimento), que é sobrinha da mulher do presidente turco, ao ministro da Cultura e do Turismo, Mehmet Ersoy, que é também dirigente do clube patrocinado pela Medipol, empresa de saúde fundada pelo atual ministro da área, Fahrenttin Koca. Na administração estão ainda membros da Turkish Airlines e do Ziraat.

Se dúvidas ainda existissem, bastava atentar em mais dois pormenores para se ver a preponderância de Erdogan no recém campeão turco: as cores dos equipamentos, azul, laranja e branco como o seu partido, ou o facto de ninguém utilizar o número 12 no clube, não em homenagem aos adeptos como acontece em alguns conjuntos europeus mas porque o presidente turco envergou essa camisola em 2014, quando o Basaksehir foi privatizado e houve um jogo de futebol que contou com várias celebridades para inaugurar o novo estádio com menos de 20 mil espetadores (que preenchidos por adeptos da casa costumam andar abaixo dos 10%, sendo uma das mais fracas do primeiro escalão), o Fatih Terim Stadium, em homenagem a uma das maiores figuras de sempre do futebol turco.

Nesta época atípica, o Basaksehir apostava agora na Liga Europa, aproveitando até a vantagem conseguida na primeira mão em Istambul frente ao Copenhaga (1-0). No entanto, o sonho do campeão turco, que era também o sonho do seu presidente, em chegar a uma inédita Final Eight da prova acabou por esfumar-se na deslocação à Dinamarca, onde a equipa capitaneada por Zeca, o português com dupla nacionalidade grega que é hoje também um Imperador na Escandinávia (daí ter assumido logo a braçadeira), não deu hipóteses e venceu por 3-0, assegurando presença nos quartos da competição onde deverá cruzar com o Manchester United.

O encontro dificilmente poderia começar melhor para os escandinavos, com o Copenhaga a marcar ainda nos cinco minutos iniciais por Wind, após cruzamento de Varela (4′). Os turcos ainda mal tinham tocado na bola e já perdiam mas, aos poucos, foram conseguindo entrar no jogo, tendo até criado as melhores oportunidades até ao intervalo para chegarem a um golo que mudaria por completo a eliminatória. Esse acabou também por ser o segredo da vitória dos dinamarqueses: perceber os momentos do encontro, manter a organização e quase nunca ser apanhados desprevenidos, ao contrário do que aconteceu com o Basaksehir que viu a desvantagem aumentar numa grande penalidade convertida pelo mesmo Wind (53′). Menos de dez minutos depois, Falk apontou o 3-0 numa transição rápida que fechou as contas e garantiu um feito histórico para o Copenhaga, que nunca tinha chegado a uma fase tão avançada das competições europeias entre Liga dos Campeões e Liga Europa.