“O Burguês Fidalgo” é a peça que assinala o arranque da nova temporada dos espaços que integram o Teatro Nacional S. João, no Porto, sendo resultado de um convite de Nuno Cardoso, diretor artístico desta casa centenária, ainda antes da pandemia. A intenção era clara: propor à companhia portuense Palmilha Dentada, habituada a apresentar textos originais na área do humor e do absurdo, apresentar um clássico de Molière, considerado um dos mestres da sátira e da comédia teatral.

“Vale a pena voltar a um texto com 350 anos? Como vamos pegar num clássico e o que vamos fazer com ele?”, foram algumas interrogações que Ricardo Alves, encenador e dramaturgo da peça, fez questão de partilhar em entrevista ao Observador. Com carta branca e liberdade total para “fazer o que lhe apetecesse”, o desafio era desconstruir o próprio texto, recorrendo a diferentes referências e analogias. “É muito difícil fazer qualquer tipo de adaptação sem cair no ridículo. As referências mudaram, encontrar paralelos fica estranho.”

Para Ricardo Alves não há dúvidas de que um clássico não foi escrito para ser um clássico, mas sim para espalhar uma determinada época.

“Ao contrário do que as pessoas possam pensar, a maioria dos textos clássicos não são para ser feitos. Ou melhor, poderão ser feitos enquanto objeto histórico, mas é muito difícil e até um bocado inglório estar a adaptar um clássico aos nossos dias. Um clássico não foi escrito para ser um clássico, foi escrito para ser visto numa determinada época, com várias de referencias que o público consegue reconhecer, integra uma lógica, um modelo de vida, um raciocínio e uma dinâmica de valores que não são as nossas.”

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