O Centro Africano de Controlo e Prevenção de Doenças indicou esta quinta-feira que foi iniciado um estudo no continente sobre anticorpos contra o coronavírus, após provas que mostram um maior número de infetados do que os números oficiais mostram.

O diretor do Centro Africano de Controle e Prevenção de Doenças (Africa CDC), John Nkengasong disse aos jornalistas que o estudo incluirá todos os países africanos, mas os que mostraram até agora interesse em começar já nas próximas semanas são a Libéria, Serra Leoa, Zâmbia, Zimbabué, Camarões, Nigéria e Marrocos.

Particularmente importantes entre as provas encontradas do desajuste entre os dados oficiais e os números no terreno, são os dados provenientes de vários estudos concluídos e em fase de conclusão em Moçambique.

Em declarações aos jornalistas, diretor-geral do Instituto Nacional de Saúde (INS) de Moçambique, Ilesh Jani, indicou que um estudo concluído em Nampula, cidade com 900 mil habitantes, revelou uma taxa de exposição ao vírus de 5% dessa população, ou seja, cerca de 45 mil pessoas. Um segundo estudo semelhante, levado a cabo em Pemba, com 200 mil habitantes revelou uma taxa de exposição de 2,5% da população.

Até quarta-feira, segundo o mesmo responsável, o número total de casos de Covid-19 em Moçambique era de 2559 casos; o número total de mortes era de 19, desde o início da pandemia, 58 pacientes deixaram de estar hospitalizados, e existem atualmente 14 pacientes a receber tratamento hospitalar várias unidades em todo o país. Um total de 951 pacientes recuperaram de Covid-19 em Moçambique, aproximadamente 37%. Em termos de testes, laboratórios em Moçambique conduziram 72.461 testes e a taxa de casos positivos é de 3%.

Ainda que os estudos revelem apenas a exposição ao vírus através da presença de anticorpos na população testada, oferecem uma perceção bem distinta da realidade moçambicana mostrada pelos números oficiais. “Ficámos surpreendidos com a taxa de exposição”, afirmou Jani.

A outra das surpresas é a da taxa de mortalidade. “Ficámos surpreendidos com a taxa de exposição e ficámos surpreendidos com a baixa taxa de mortalidade”, disse. Uma elevada taxa de mortalidade não é oficialmente reportada em Moçambique, pelo que estes estudos fizeram por uma análise mais cuidada, com a verificação adequada a essa realidade e, ainda assim, verificaram que “não houve surto de mortalidade”, afirmou o diretor-geral do INS.

“Porque é que houve tanta exposição e não há aumento de mortalidade?”, perguntou Jani, deixando no ar a interrogação. “Não sabemos se isto vai continuar assim ou se a doença vai tornar-se mais agressiva”. O compromisso, em todo o caso, segundo o mesmo responsável, é a continuação do trabalho de prevenção. “Precisamos de adotar a nova normalidade e manter as taxas de novos casos baixa”, afirmou o responsável.

Moçambique iniciou vários estudos epidemiológicos em alguns dos maiores centros urbanos. Até agora, foram conduzidos estudos nas cidades de Nampula e Pemba, no norte, e existem ainda dois estudos em andamento, um na capital, Maputo, no sul, e outro em Quelimane, no centro do país. “O objetivo é conduzir estudos em todos os principais centros urbanos”, garantiu Jani.

Os estudos incluíram a monitorização de lares e de grupos sociais específicos e mediram a presença de anticorpos contra o vírus, o que indica a exposição das pessoas ao SARS-cov2. Nos dois estudos completados, indivíduos de todas as idades estiveram expostos ao vírus. A exposição ao vírus foi detetada em todos os bairros de ambas as cidades, indicou o responsável.

Os grupos profissionais com maior exposição foram os vendedores de mercado, com uma prevalência de exposição variável entre 5,5 e 10%, o segundo grupo mais exposto foi o dos trabalhadores na área da saúde, com prevalência entre 5,5 e 7%, a polícia (entre 3,7% e 6%), empregados em lojas em supermercados com prevalências entre 5 e 5,5%, e finalmente, em ambas as cidades, foram monitorizadas pessoas deslocadas por razões de segurança no norte de Moçambique e entre estas pessoas a prevalência foi de 6%.

De acordo com os dados avançados pelo diretor-geral do INS, o número de casos detetados de Covid-19 em Moçambique tem vindo a aumentar consistentemente, ainda que em taxas mais baixas do que em outros países vizinhos. Em junho foram reportados 535 casos, em julho 975 e em agosto, até ontem, foram contabilizámos 695 casos, o que aponta para a possibilidade do número do mês corrente vir a ser superior ao de julho.

Atualmente, 92 dos 161 distritos do país reportaram casos de Covid-19, o que dá uma taxa de 57% dos distritos.