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As imagens no relvado já contavam parte da história, a fotografia principal que acompanha este texto conta aquilo que ainda tivesse ficado por contar: se o guarda-redes Ter Stegen continuava a olhar em frente para perceber o que lhe tinha passado por cima, o capitão Messi estava sem reação. Parado, cabisbaixo, sem reação. O Barcelona sofreu na Luz frente ao Bayern uma das derrotas mais pesadas de sempre da sua história, num jogo que coincidiu, ou vai coincidir, com um fim de ciclo de um projeto que foi sendo renovado mas que, mais de uma década depois, não teve qualquer troféu numa época. No final, os principais intervenientes assumiram esse desejo de mudança.

Messi contra 11 e no final golearam os alemães – e acabou de vez uma era no futebol (a crónica do Barcelona-Bayern)

“Foi um encontro horrível, a sensação é nefasta e a palavra certa para utilizar é vergonha. Não podemos jogar ou competir assim, não é nem a primeira, nem a segunda, nem a terceira vez que acontece. É duro, muito duro, espero que sirva de algo. Temos todos de fazer uma reflexão. O clube precisa de mudanças. Não estou a falar de treinador nem de jogadores, não quero apontar a ninguém. Estruturalmente a equipa e o clube necessitam de mudanças de todos os tipos porque não é a primeira vez que isto acontece”, comentou Gerard Piqué.

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“Se tiver de vir sangue novo e mudar a dinâmica, eu sou o primeiro a ir, a deixar o clube. Não há ninguém que seja imprescindível e eu sou o primeiro a oferecer-me para isso: se tiver de chegar sangue novo para alterar toda esta dinâmica, sou o primeiro a ir porque acho que batemos no fundo. Todos temos de ver, refletir e decidir o que é o melhor para o clube, é o mais importante. Não estamos a ser competitivos na Europa há uns anos e isso acontece independentemente do treinador ou dos jogadores. Para a Liga ainda dava mas o Barcelona tem de estar sempre por cima, é a dura realidade. Agora não está, é algo que se vê e tem reflexo em campo, o que aconteceu hoje é algo inaceitável para um clube como o Fútbol Club Barcelona”, acrescentou o central quase em lágrimas.

“É uma noite muito dura com uma derrota duríssima. Não fomos a equipa que costumamos ser nem o clube que representamos, lamento muitíssimo por isso. Há que pedir desculpa a todos os adeptos do Barcelona. É um resultado muito expressivo. Felicito o Bayern, não estivemos à altura. O Piqué tem razão: agora há que tomar decisões, algumas delas já as temos pensadas”, disse depois Josep Maria Bartomeu, presidente dos catalães que está cada vez mais na linha de fogo para deixar a liderança do clube ou antecipar eleições nos blaugrana. “Quando o Piqué faz uma referência assim, em algo terá razão. Há uma frustração enorme e há que tomar decisões a pensar no futuro. Isto causa-nos muitos danos. É uma derrota muito dolorosa, são demasiados golos sofridos. A equipa foi oprimida pela contundência do Bayern. Certamente algo terá de mudar”, acrescentou o técnico Quique Setién.

“Humilhação”, “Vergonha” e “Pesadelo” foram três das expressões mais utilizadas para descrever a noite que o Barcelona viveu na Luz frente ao Bayern mas os números mostram dados que são ainda mais aterradores: se os catalães nunca tinham sofrido quatro golos numa primeira parte da Liga dos Campeões, algo que os germânicos conseguiram em pouco mais de meia hora, é preciso recuar até à Taça do Rei de 1946 para se ver uma derrota na história de 4.400 jogos oficiais dos catalães com oito golos sofridos (Sevilha, 8-0). Em paralelo, apenas quatro equipas tinham sofrido antes oito golos na Champions: Deportivo em 2003, Besiktas em 2007, Malmö em 2015 e Legia Varsóvia em 2016. O Barça entrou em muitos dos capítulos onde era vencedor e agora passou a vencido…

Quando a equipa regressou à unidade hoteleira onde está hospedada no centro de Lisboa, alguns adeptos (menos do que tinham estado antes a saudar a equipa) fizeram questão de esperar a equipa para deixar alguns insultos, ouvindo-se gritos de “Sem vergonha” quando os jogadores saíram do autocarro. “Depois desta dura derrota, as declarações do presidente Bartomeu são, mais uma vez, uma amostra da sua cobardia e da sua inaptidão. A sua incompetência e do resto da Direção deixa-o inabilitado e tomam más decisões que condicionam o futuro do Barça”, comentou Juan Laporta, antigo presidente que tem vindo a ameaçar com uma candidatura no próximo sufrágio, ao contrário de outro ex-líder, Joan Gaspart, que disse à SER que “não há outro remédio a não ser por agora a continuidade de Bartomeu”, recordando as cinco semanas para o início da próxima temporada.