Depois do empate do Barcelona em Vigo frente ao Celta, que perante a série de vitórias consecutivas do rival Real Madrid praticamente entregou o título aos merengues, Josep Maria Bartomeu, presidente dos blaugrana, reuniu com a estrutura mais próxima do futebol em casa do treinador, Quique Setién. Estavam também Òscar Grau, CEO dos catalães, Eric Abidal, agora diretor desportivo, e Javier Bordas, diretor geral. O tema, como não poderia deixar de ser naquelas circunstâncias, passava pela continuidade ou não do técnico, como se fosse o principal culpado da quebra na Liga. No final, um voto de confiança e a certeza que iria não só terminar a temporada como cumprir o contrato que o ligava ao conjunto de Camp Nou. Um mês depois, até podem cair não um mas todos. 

Messi contra 11 e no final golearam os alemães – e acabou de vez uma era no futebol (a crónica do Barcelona-Bayern)

Começando pelo treinador, Quique Setién. Uma figura que se tornou mais próxima dos adeptos pela qualidade que o Betis apresentou nas duas temporadas em que orientou a formação de Sevilha, que tem como grande inspiração na forma como vê o jogo Johan Cruyff e que apresentava características que o aproximavam na forma de pensar do Barcelona. Na teoria era o casamento mas o choque com a realidade precipitou um divórcio anunciado: o plantel nunca percebeu o planeamento e o comportamento do sucessor de Ernesto Valverde, os resultados foram atropelando o trabalho e a própria relação com os “pesos pesados” do balneário nunca foi a melhor. A saída após sete meses no cargo e com pandemia pelo meio tornou-se inevitável depois da humilhação frente ao Bayern.

A desolação de Messi, o pedido de Piqué quase em lágrimas e a revolução à vista: o terramoto depois de uma goleada em Barcelona

Não é o único. Se antes da pesada derrota na Liga dos Campeões havia ideia de fazer algumas mexidas no plantel (que irão colocar Nelson Semedo de saída, por exemplo), agora essas alterações deverão ser mais profundas, numa tentativa de criar um ano zero após aquilo que todos consideram ser o final de um ciclo, de um projeto e de uma era. Aliás, se for por vontade dos próprios, são poucos os que têm lugar assegurado. Há Messi (assim o argentino queira), há Frank de Jong, há Ter Stegen, há Ansu Fati, há Riqui Puig, há o garantido reforço Pjanic. Tudo o resto, incluindo “pesos pesados” como Piqué, correm risco de sair. E não se fica pela estrutura do futebol.

O argentino Mauricio Pocchetino, antigo treinador do Tottenham, é o nome apontado como grande favorito à sucessão de Quique Setién. Plano B? Ronald Koeman, selecionador da Holanda e antigo central dos catalães. Mais hipóteses? Massimiliano Allegri, ex-técnico da Juventus, o “sonho impossível” Pep Guardiola e o mais desejado dos jogadores com mais anos e representatividade em Camp Nou, Xavi Hernández. Josep Maria Bartomeu, presidente do Barcelona, tem nessa escolha o início de um caminho onde procura fugir também ele ao terramoto provocado pelo atropelo germânico. Ainda assim, também ele é cada vez mais um elo fraco num clube em convulsão, até porque as próprias palavras de Piqué no final do jogo apontavam para isso mesmo: a necessidade de eleições.

A tudo isto juntam-se pontos paralelos que se vão conhecendo com o passar do tempo e que tornam ainda mais frágil a posição dos próprios dirigentes: por um lado, a possibilidade de Coutinho, internacional brasileiro cedido pelo Barcelona ao Bayern que entrou para fazer uma assistência e marcar dois golos que fecharam o atropelo dos alemães, poder obrigar a que os catalães paguem cinco milhões de euros ao Liverpool depois de ter ajudado a golear a equipa com a qual ainda tem contrato caso ganhe a Champions (o que tem gerado muitas críticas e revolta, pela forma como não foi acautelada essa situação na cedência aos bávaros); por outro, as quatro ocasiões em que Pochettino disse que nunca treinaria o Barça por não se identificar com os seus valores e por ser rival do Espanyol, clube por onde o argentino passou como jogador e treinador antes de rumar a Inglaterra.

Entretanto, o plantel dos blaugrana já regressou a Espanha, tendo viajado esta manhã a partir de Lisboa, onde pernoitou depois da derrota com o Bayern. Após serem transportados ao centro de estágios, os jogadores saíram pela porta de trás, o que deixou ainda mais furiosos os (poucos) adeptos que se concentraram para protestar pela goleada por números que não se viam há mais de sete décadas. Antes tinham sido deixadas na zona algumas tarjas: “Direção e jogadores, a vergonha de 120 anos de história”, “Fora mercenários” e “Menos luxos, mais orgulho” foram três das frases fortes que contestaram o atual momento desportivo e institucional no Barça. Bartomeu, que já marcou uma reunião de urgência para a próxima segunda-feira, não se pondera nesta fase demitir mas admite poder puxar as eleições para janeiro ou março de 2021. Em relação a Setién, chegou mesmo o fim de linha.