Título: Pé d’Orelha. Conversas entre Bordalo e Querubim
Autores: Rita Gomes Ferrão, Pedro Bebiano Braga e Sofia Nunes
Editor: Museu Bordalo Pinheiro
Design: Rita Nobre de Carvalho
Páginas: 140, ilustradas

A capa de “Pé d’orelha”

Dez anos depois que Almada Negreiros realizou frescos de claro pendor neo-realista na gare marítima de Alcântara, noutra obra pública, encomenda do Município de Lisboa e projecto do arquitecto Pires Martins, o pintor Querubim Lapa (1925-2003) de idêntico sopro estético preencheu com azulejos figurativos dois extensos muros da Escola Primária de Campolide, em Lisboa. Cenas líricas da vida ao ar livre de rapazes e raparigas ainda ali perduram, para alegria e conforto de pequenos e graúdos que os vejam, algo sem equivalente possível em equipamentos congéneres construídos na nossa era — e obra tão notável que a mesma escola tem hoje o nome do artista.

No ano seguinte, 1957, Lapa executou a convite do arquitecto Francisco da Conceição Silva cinco graciosos relevos cerâmicos para a representação nacional no Comptoir Suisse de Laussanne, os quais, como O Sol criado para o pavilhão de Portugal na Exposição Universal de Bruxelas de 1958, então premiado mas actualmente sem paradeiro conhecido, mereciam ser exibidos em museus da especialidade — como sucede agora no museu de Joe Berardo em Estremoz, com parte da cozinha da casa de veraneio de Querubim Lapa em Palmela, e como sucederia com o pórtico da loja Rampa (1956), se o MUDE, que o comprou num leilão em 2018, não estivesse paralisado por um processo de reabilitação arrastado e opaco e por uma direcção sui generis que Frederico Duarte questionou muito bem há dias num artigo no Público que ficou sem réplicas nem explicações, um modo expedito e recorrente de evitar debater o que importa… —, da mesma maneira que o celebérrimo baixo-relevo da cafetaria A Mexicana (1962), a coluna cerâmica do Hotel Ritz (1959), as placas cerâmicas que ornamentam o Hotel do Mar em Sesimbra (1963), os baixos-relevos temáticos para Reitoria da Universidade de Lisboa (1961), Palácio da Justiça (1968-69) e Instituto Ricardo Jorge (1972), ou toda a estação Bela Vista do metropolitano lisboeta (2000; premiada), o primitivo edifício da escola de artes onde ensinou, à rotunda das Olaias, em Lisboa (1999), entre vários outros, em hospitais, casinos, bancos, lojas e tribunais, podem ainda ser vistos e admirados in loco.

A obra cerâmica de Querubim Lapa tem ainda uma forte componente “doméstica” — objectos de uso diário ou de decoração, sem dúvida (jarras, taças, potes, travessas, bases de candeiros e para ovos cozidos, etc.), mas também encantadora e encantatória criação de ambientes de pintura azulejar em três cozinhas residenciais, a meio caminho entre glosa ou desconstrução historicista e felicidade familiar bem-humorada — e privada, autobiograficamente referenciada, ou de cunho experimental, enquanto criador que tenta ir mais longe no seu ofício, ora fazendo ensaios físico-químicos, com uma liberdade quase radical, ora acrescentando à superfície dos quadrados cerâmicos figurinhas avulsas em relevo, de auto-retratos tardios e irónicos (1992; p. 125) e “máscaras”, a motivos vegetais, marítimos, zoológicos, híbridos até (p. 112), num vitalismo profundo a que se juntam o Sol, dominante, e o peixe-mulher.

Mais do que a Jorge Barradas (1894-1971) e a Manuel Cargaleiro (1927-), figuras centrais, como Lapa, da nossa arte cerâmica dita contemporânea, mas sobretudo muito mais que eles, é a Rafael Bordallo Pinheiro (1846-1905) que Querubim Lapa pode e deve ser aproximado, ou, melhor dito, posto em diálogo ou conversa (termo mais sugestivo que Penelope Curtis, que saiu de cena sem a devida estima institucional e do meio artístico e de crítica, instituiu entre nós num ciclo de exposições memoráveis no Museu Gulbenkian). Nesse debate estimulante sobre influências ou heranças artísticas, recitações culturais e piscadelas de olho de um até o outro (“inovações bordalescas” é mesmo título duma série de trabalhos de Lapa), Pedro Bebiano Braga, Sofia Nunes e Rita Gomes Ferrão — autora duma monografia sobre a “primeira obra cerâmica, 1954-74” de Querubim Lapa, lançada em 2015 pela Galeria Objectismo — percorrem um trilho aberto pelo muito lúcido e informado estudo de Rui Afonso Santos que se destaca de outros incluídos em Cerâmicas, álbum publicado pela Inapa em 2001.

Como Barradas e Cargaleiro, Querubim beneficiou de atelier na fábrica Viúva Lamego, mas o facto de ter sido durante quatro décadas professor da Escola de artes decorativas António Arroio introduziu-o — por dever de ofício, é certo, mas como a nenhum dos artistas acima referidos — nos meandros da indústria caldense, permitindo-lhe sucessivas revisitações do filão inesgotável da exuberante obra cerâmica de Bordallo, ela própria transbordante das suas anteriores e intensas práticas artísticas, de forte substrato erudito mascarado de popular. “Inquietação” e “constante prática oficinal” (Ferrão, p. 22) foram partilhadas por ambos, o que nada tem de inédito em Arte, mas também houve atenção comum à arte cerâmica oriental — japonismo em moda finissecular para um, sério coleccionismo e estudo da faiança chinesa para o outro — e especiais doses de auto-ironia, alguma sátira, bastante humor e até divertimento (v., de Lapa, a série de azulejos com figuras desenhados para a cozinha da Avenida Visconde Valmor, 2004, p. 53; o gato caçador com máscara de rato, 1989, p. 40, o cágado-cinzeiro de 1956, p. 93; os rostos humanos figurados com legumes, 1991, p. 119). Em 1956, pintou sobre um canjirão de produção corrente da Fábrica Viúva Lamego a figura emplumada dum pássaro (p. 95).

A evocação de Guiseppe Arcimboldo é dos dois, mas a observação caricatural de tipos humanos também, e basta justapor alguns bules de Bordallo aos canjirões de Querubim feitos para a Rampa em 1956, a que ele, de resto, chamou “os meus bordallos” (cit. p. 42). Caranguejos e lavagantes pequenos ou grandes como que saltam da produção serial de Bordallo Pinheiro para placas e peças de suspensão de várias dimensões criadas por Querubim, outros remissivos deste tipo surgem aqui e ali, mas neste quase deve e haver com um século de permeio, em certos objectos a graça e o virtuosismo de Rafael parecem inexcedíveis — casos do bule Pato (1902; p. 94), da placa para emoldurar Patos num charco (s/d.; p. 101) ou do prato para suspensão Gaio (61 cm, 1901; pp. 98, 4-5) —, justificando plenamente o boom revivalista que catapultou a cerâmica de Bordallo Pinheiro para a actualidade, com grande sucesso comercial dos seus best of. Mas a pesquisa “laboratorial” e a progressiva preferência de Querubim Lapa por peças únicas — uma parte das quais produzidas em contexto de ensino, no seu atelier da António Arroio (de que são bons exemplos a admirável placa com rosto feminino e figura alada, em faiança vidrada com reflexos metálicos, de 1991, 37 cm; p. 106; e a taça Escaravelho, 2000, 10,5 cm) — e trabalhos de arte pública abstractizantes e vidrados, fazem seguramente do artista uma figura-charneira da história da azulejaria portuguesa, ainda por redescobrir também como pintor.

No elenco das aproximações de Querubim a Bordallo, que incluiu cerâmica deste e pintura daquele, escapou aos curadores da exposição que também escreveram para este catálogo o contraponto entre o casal de gatos preto e branca ditos Romeo e Julieta, que Rafael modelou em louvor da sua amante Maria Visconti — aliás retratada num prato —, e os pequenos potes que Querubim desenhou para Susana Barros Lapa, sua mulher (v., respectivamente, Una Piccola Storia d’Amore de Isabel Castanheira, pp. 52-53 e 83, e este Pé d’Orelha, p. 57).

A exposição “Pé d’Orelha. Conversas entre Bordalo e Querubim” está patente no Museu Bordalo Pinheiro, em Lisboa, até 31 de Janeiro de 2021, de terça-feira a domingo, das 10 às 18 horas.