A vitória do PSG pela maneira como aconteceu frente à Atalanta, o triunfo do RB Leipzig pelo adversário contra quem foi (Atl. Madrid), a goleada do Bayern pelos números que atingiu ante o Barcelona. Os três primeiros jogos dos quartos da Champions tiveram um toque de surpresa pelo meio, nem tanto pelos vencedores dos encontros mas pela vida própria que foram ganhando do primeiro ao último minuto entre decisões e humilhações já nos instantes finais. Para fechar, a partida onde mais facilmente se colocaria 1 no Totobola. Sem duplas, sem triplas, com alguma dose de risco à mistura entre a surpresa Manchester City, pela forma como arrancou um triunfo providencial em Madrid na primeira mão frente ao Real, e a surpresa Lyon (ou OL), pela forma como aguentou a vantagem na segunda mão com a Juventus em Urim. Era neste contexto que ambas vinham a Alvalade.

“Claro que era importante vencer os reis desta competição mas quando se joga apenas uma partida na Champions tudo pode acontecer. Gostaria de dizer o que vai acontecer amanhã [hoje] mas tudo que posso dizer é que estamos preparados. Estou orgulhoso de como estas duas ou três semanas decorreram. Desde a quarentena obrigatória, os jogadores têm estado incrivelmente focados. Estamos a adaptar-nos todos os dias aos novos protocolos e agora estamos aqui. Comemos bem, bebemos um bom vinho aqui em Portugal e amanhã é hora de mostrar que somos nós próprios. Quero ver a minha equipa a ser quem é, a fazer tudo o que tem na alma, na sua mente, e depois o futebol vai ditará se a merecemos a glória”, comentou Pep Guardiola na antevisão do encontro.

Um pouco à semelhança da realidade do PSG com a diferença da competitividade que enfrentam depois no plano nacional, o Manchester City começou por querer ganhar em termos internos após a chegada do investimento árabe que transformou por completo o clube (até pela falta de títulos no currículo, até por comparação com o rival United que superou nesse hiato com Alex Ferguson o número de Campeonatos do Liverpool) mas coloca agora a grande aposta na Liga dos Campeões. À semelhança dos franceses, sempre com projetos falhados. Quando Guardiola foi para o clube, em 2016, teve dinheiro e tempo para poder desenhar esse sucesso a médio prazo e nem o facto de não ganhar títulos na primeira temporada desviou esse caminho. Aí, os citizens caíram nos oitavos da Champions, com o Mónaco. Depois, ganharam Premier e Taça da Liga em 2017/18 mas perderam nos quartos com o Liverpool. A seguir, conquistaram todos os títulos em 2018/19 mas voltaram a cair nos quartos com o Tottenham. Antes, em 2015/16, com Manuel Pellegrini, tinha sido a melhor campanha, apenas travada nas meias.

Do outro lado, o Lyon. Um Lyon que apostava em tudo menos na Liga dos Campeões mas que teve na Liga dos Campeões o único ponto alto de uma temporada marcada pela aposta ao lado em Sylvinho (que até deixou alguns sinais prometedores no início) e que levou a meio Rudi Garcia para o comando da equipa. Na Ligue 1, o sétimo lugar numa prova concluída bem antes do seu final não deixa muitas saudades, as últimas quatro partidas oficiais também não (duas antes da pandemia, duas após o regresso): goleada sofrida em casa com o PSG nas meias da Taça de França, desaire com o Lille no Campeonato, derrota nas grandes penalidades com o PSG na final da Taça da Liga, derrota com a Juventus. Só se safou mesmo o derradeiro encontro onde o insucesso teve sabor a vitória e o golo apontado de grande penalidade por Memphis Depay fez a diferença em Turim.

“A vitória sobre a Juventus tem de nos dar confiança mas temos desejo e apetite para mais. Estes quartos têm deixado claro que os menos favoritos podem surpreender. Esta é uma eliminatória a um só jogo. Temos de garantir que nos apresentamos bem e não podemos deixá-los jogar ou permitir que os talentos que eles têm nos causem problemas porque são uma equipa temível. Vamos tentar tirar partido dos nossos pontos fortes e anular os pontos fortes do Manchester City, que são muitos. Era histórico ter duas equipas francesas nas meias. Queremos seguir em frente. É mais difícil surpreender em eliminatórias a duas mãos mas, mesmo assim, conseguimos fazê-lo contra a Juventus. Agora, num só jogo, acredito que temos hipóteses de seguir em frente”, disse Rudi Garcia.

E seguiu mesmo, em mais uma surpresa que só o foi para quem não viu o jogo. Entre exibições individuais de grande nível (Marcelo, Marçal, Aouar ou Cornet) e uma entrada diabólica de Dembelé, foi no coletivo que o Lyon ganhou a um Manchester City que deu 55 minutos de barato por Pep Guardiola não ter sido fiel à sua ideia e forma de pensar o jogo e perdeu depois por erros defensivos que foram uma constante ao longo da época. O OL tornou-se sobretudo um LOL para quem dizia que os franceses não tinham hipóteses. Tiveram, ganharam e estão de forma justa nas meias da Champions transformadas em cimeira franco-alemã com muito demérito adversário.

Pep Guardiola tentou surpreender com a colocação de Fernandinho numa linha de três defesas com Laporte e Éric Garcia, deixando Kyle Walker e João Cancelo a fazer as alas num sistema já utilizado nesta Final Eight por outras equipas como a Atalanta. Em termos teóricos o brasileiro até podia jogar à frente dos centrais, como fez tantas vezes ao longo de tantos anos em Inglaterra, mas o Manchester City assumiu mesmo um novo modelo mantendo a ideia de jogo assente na posse, na mobilidade e na velocidade. Não correu bem. E a meio da primeira parte era o Lyon que vencia por 1-0 no resultado e por 3-0 nas características do jogo: retirava espaço à profundidade que os ingleses tanto gostam de explorar, secava os criativos do meio-campo contrário e ia conseguindo algumas saídas rápidas, uma delas com resultados práticos e com Cornet a aproveitar uma segunda bola para marcar (24′).

Até esse momento, o Manchester City tinha conseguido uma jogada de perigo na área logo a abrir que acabou num canto (3′) e pouco mais – e até tinha havido pelo meio um quase autogolo de Kyle Walker (4′) e um remate forte de Marçal após canto para defesa de Ederson (9′). E até ao intervalo o único trabalho de Anthony Lopes foi andar a socar bolas na sequência de cruzamentos, excetuando um remate de Rodri na área que o internacional português defendeu à segunda (42′) e uma rara oportunidade de Sterling na área nos descontos (45+2′). A ideia tática de Guardiola nem dava mais largura ao jogo ofensivo, nem dava outra coesão nas transições, nem aproveitava o desequilibrador Sterling, nem dava a bola que De Bruyne tem para fazer a diferença. Falhava, por demérito próprio e com muito mérito do Lyon, muito bem organizado e com uma grande ligação entre setores.

O City não mexeu ao intervalo nos jogadores mas conseguiu com outros posicionamentos travar a forma como os franceses saíam para o ataque, faltando depois a outra parte de chegar com perigo à baliza de Anthony Lopes. Ainda antes da última meia hora, Mahrez entrou para o lugar de Fernandinho, tudo voltou à normalidade e as melhorias foram quase imediatas, apesar de o primeiro lance ter chegado num livre direto de Kevin de Bruyne (59′). Marçal também arriscou de meia distância (64′), De Bruyne voltou a tentar de livre (66′) mas o resultado não sofria alterações. Mais do que isso, os ingleses conseguiam fazer muito pouco ou nada para que alterasse. Mas a primeira alteração no encontro acabaria por resultar, pelas valências que soltou no jogo ofensivo.

Saindo do seu raio de ação, Mahrez encontrou espaço para assistir na profundidade Sterling, o inglês cruzou para trás e De Bruyne, na passada, rematou para o empate (69′). O jogo mudava de vez, com Cornet a ser empurrado na área por Kyle Walker num lance visto pelo VAR sem qualquer falta descortinada mas que no mínimo deixou muitas dúvidas (70′), Gabriel Jesus foi solicitado na área para a melhor defesa de Anthony Lopes no encontro (72′) e ainda teve uma outra boa chance falhada (74′). Durante 15 minutos, o Manchester City esmagou na posse e foi melhor do que o Lyon; a partir daí, o OL fez a festa: Dembelé entrou para se isolar num lance onde parece ter havido uma falta no início da jogada sobre Laporte e fez o 2-1 (79′), Raheem Sterling falhou isolado a pouco mais de um metro de baliza aberta deixando Guardiola no chão (86′) e Ederson deu a estocada final ao ter falhado uma defesa fácil antes de Dembelé fazer a recarga na área e o 3-1 que fechou as contas (87′).