Faltavam nove minutos para as seis da tarde a 14 de agosto de 1945. Alfred Eisenstaedt, que anos antes tinha captado em fotografia a frieza do “olhar de ódio” do ministro da propaganda nazi Joseph Goebbels, estava desta vez em Times Square, em Nova Iorque, a eternizar o caloroso beijo entre um marinheiro e uma enfermeira que celebravam o fim da II Guerra Mundial. A imagem celebrou esta sexta-feira 75 anos.

Ele é George Mendonça, na época com 22 anos. E, sim, adivinhou bem: tal como apelido sugere, o marinheiro que protagoniza a fotografia tem raízes portuguesas. Nascido em Newport, Rhode Island, no seio de uma família de pescadores portugueses, estaria num encontro com Rita Petrie quando soube do fim da II Guerra Mundial. Movido pela emoção, pegou numa mulher pela cintura e beijou-a apaixonadamente a pouca distância da Leica de Alfred Eisenstaedt. Depois largou-a.

A identidade da mulher causou mais confusão, mas os especialistas acreditam ser Greta Friedman, uma assistente de dentista de 21 anos de origem austríaca, refugiada nos Estados Unidos para fugir da Alemanha Nazi, que condenaria à morte os judeus como ela. Ao ouvir na rádio sobre o fim da II Guerra Mundial, decidiu sair à rua para celebrar o regresso da paz. Terá sido então que um marinheiro, George, a puxou e roubou um beijo. Greta correspondeu: “Não foi bem um beijo, foi mais um ato de júbilo”.

Foi assim que, já em 2005, Greta descreveu aquele momento:

Descobri depois que ele estava extremamente feliz porque já não precisava de voltar para o Pacífico, onde eles já haviam passado por causa da guerra. E a razão pela qual ele agarrou alguém vestido como uma enfermeira foi porque se sentiu muito grato às enfermeiras que cuidaram dos feridos”, contou numa entrevista à Biblioteca do Congresso.

A versão de George Mendonça coincide com as memórias de Greta Friedman. “Estava entusiasmado com o fim da guerra, além de que já tinha bebido uns copos. Quando vi a enfermeira, agarrei-a e beijei-a”, contou nesse mesmo ano o marinheiro da fotografia mais famosa de Alfred Eisenstaedt, que uma semana mais tarde viria a ilustrar um artigo da revista Time sobre os festejos pelo fim da II Guerra Mundial. O nome oficial da imagem é “V-J Day in Times Square” (em português, “Dia V-J na Times Square”), mas a maior parte do mundo conhece-a simplesmente por “O Beijo”.

Anos mais tarde, George Mendonça viria a casar com Rita, a mulher com quem tinha saído para um encontro naquele 14 de agosto e que havia presenciado tudo. Uma fotografia captada por outro artista de um ângulo diferente mostra Rita ao fundo, junto ao casal. Mas, segundo ela, o momento não a incomodou: “Devia estar tontinha ou assim, mas não mexeu comigo”. George morreu em 2019.

Já Greta casou com um médico das Forças Armadas norte-americanas e voltou aos estudos anos mais tarde, tendo terminado o ensino secundário ao mesmo tempo que os filhos. Mais tarde, em 2012, esclareceu novamente o episódio com o marinheiro: “Não foi minha escolha ser beijada. O rapaz aproximou-se e beijou-me”, descreveu, levantando um debate sobre assédio sexual em torno da imagem. Morreu em 2016.

Quanto a Alfred Eisenstaedt, também ele judeu e, tal como o casal da fotografia, um emigrante nos Estados Unidos, chegou ao país em 1935 vindo do Império Alemão para fugir ao regime nazi. Com um portfólio notável trazido da Europa, juntou-se à equipa da Time quando se estabeleceu em Nova Iorque e ali trabalhou até à reforma, em 1972. Morreu aos 96 anos, em 1995, em casa, enquanto dormia.