Os italianos apresentaram o número 3 do seu governo, os espanhóis apareceram de mãos a abanar nas ideias, os ingleses vinham cheios de projetos mas fizeram a mala na primeira ronda de negociações. Apelando à imagem alegórica do futebol como política, foi assim que a Liga dos Campeões ficou resumida a uma cimeira franco-alemã com os titulares da pasta interna (PSG e Bayern) e dois dos pretendentes que nem costumam ser os principais opositores locais (Lyon e RB Leipzig). Na primeira ronda de negociações por um lugar na reunião decisiva, o peso pesado de França defrontava o peso pluma da Alemanha. Um choque de duas ideias de jogo diferentes, de duas gerações diferentes, de duas formas distintas de crescimento, de dois treinadores com muito em comum.

O El País recordava esta terça-feira a primeira vez que Thomas Tuchel e Julian Nagelsmann se cruzaram, quando o primeiro era treinador da equipa B do Augsburgo e ganhava um salário mínimo sem qualquer problema com essa condição. Mais temperamental ainda do que é hoje, Tuchel passava os jogos a reclamar com jogadores e árbitros, o que lhe foi valendo castigos atrás de castigos ao ponto de o próprio clube ameaçar que se isso se mantivesse teria de ser o próprio a pagar essas sanções. O técnico não se ralou muito, queria sobretudo mais. E como não podia pagar para ter mais adjuntos que o ajudassem no estudo das equipas e dos adversários, virou-se para um jogador, central, que se tinha lesionado no joelho. Nagelsmann começava a mudar de carreira, fazendo aquilo que Tuchel descreveu como “relatórios detalhados dos adversários”. Esta noite, na Luz, quase do nada, eram adversários. E o primeiro criador teria pela frente a difícil tarefa de conseguir dar a volta à máquina construída pela sua “obra”.

Com Jürgen Klopp num outro planeta a nível de treinadores pelo trabalho feito no B. Dortmund e pela forma como construiu um Liverpool campeão europeu (2019) e nacional (2020) com uma das equipas europeias mais difíceis de travar, Tuchel e Nagelsmann são os representantes da escola de técnicos alemã mas com uma diferença que se confunde com a forma como cada projeto cresceu até chegar às meias da Champions: o PSG foi pagando, e pagando, e pagando, e pagando para criar uma constelação de estrelas deixando para o treinador a gestão de um leque de jogadores entre o muito bom e o ótimo; o RB Leipzig foi criando, e criando, e criando e criando para criar uma equipa sem grandes estrelas mas que por gestão do treinador se tornou um coletivo de estudo (e Timo Werner, o elemento mais desequilibrador da temporada, já está de fora por ir para o Chelsea).

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Por Bérgamo, por Ilisic e pelo futebol, grazie mille. Para os outros, félicitations: PSG vence Atalanta nos descontos

João jogou como se estivesse na escola mas o dono da bola apareceu e acabou com a brincadeira (a crónica do RB Leipzig-Atl. Madrid)

“Quando veio a exame já tinha fama de ser o novo Tuchel. No futebol não há falso nem correto, tudo é possível desde que se saiba argumentar. É isso que ele faz muito bem. É muito difícil apanhá-lo em falso, domina a arte da retórica. Procuramos treinadores que saibam explicar o futebol, isso é fundamental. Já não vale a pena estar só a dizer aos jogadores que têm de comer a relva, o mundo mudou”, destacou Frank Wormuth, mestre de Nagelsmann na escola de técnicos da Federação Alemã de Futebol. É aqui que entronca o segredo do treinador mais novo de sempre nas meias-finais da Liga dos Campeões (33 anos). É aqui que se descobre a diferença dos demais: ter uma ideia, acreditar numa ideia, ser fiel a essa ideia, convencer outros da mesma ideia, envolver todos numa ideia.

“Há muitos princípios de jogo que devemos ter mas dou-te um exemplo: gosto que a minha equipa jogue a dois toques na maior parte do tempo. Se jogarmos a dois toques, o passe pode sair mais forte e aceleras o ritmo. Mas, se jogares ao primeiro toque, é tecnicamente complicado, cometes muitos erros e, no final, se tivermos dez momentos atacantes e se jogares demasiadas vezes ao primeiro toque, então, se calhar, apenas dois irão resultar num remate à baliza, num bom cruzamento ou num passe para o espaço na profundidade. Mas, se jogares a dois toques, jogas de forma um pouco mais tensa. O meu companheiro tem a hipótese de receber a bola, controlá-la e, com o segundo toque, passá-la outra vez de forma tensa, e, no final, dos dez momentos atacantes, talvez tenhamos oito em que consigamos rematar à baliza ou um momento de finalização. É melhor ter oito momentos destes do que dois. Há muitos treinadores que conheço que querem sempre ver as suas equipas a jogarem ao primeiro toque mas não é a minha coisa preferida”, explicou em entrevista ao Expresso antes do jogo com o Atl. Madrid.

Nos pormenores mais simples Nagelsmann construiu uma equipa complexa de desmontar e que com um futebol de referência para quem gosta de perceber o que vem aí nesta nova era pós- taka (o Bayern é exemplo paradigmático do que se começa a desenhar como uma versão 2.0 do Futebol Total adaptado aos tempos modernos – mas esta é uma conversa para termos mais para a frente) quase conseguiu quebrar os complexos da equipa mais odiada da Alemanha pela forma como cresceu nas asas do investimento da Red Bull. Agora, seguia-se o jogo mais difícil mas mais entusiasmante da vida do clube. E o choque com a realidade demorou pouco mais de dez minutos: quando entram 11 jogadores em campo, não interessa se o A custou 222 milhões, se o B ficou por 135 milhões e se o C foi 50 milhões. Sobretudo quando o A, o B e o C são Neymar, Mbappé e Di María, de regresso após castigo.

Mesmo sem Verratti (agora começou no banco, com a Atalanta esteve mesmo de fora), Tuchel percebeu aquilo que Laurent Blanc e Unai Emery saíram sem perceber: o segredo para a constelação de estrelas brilhar mais na frente e esconder as suas debilidades no setor mais recuado passavam por um meio-campo que conseguisse ser inteligente em termos táticos, rápido a construir jogo e disciplinado a jogar sem bola. Esta noite jogaram Ander Herrera e Paredes, antes tinha sido Ander Herrera e Gueye. Atrás de ambos, Marquinhos. Da defesa para a frente, era talvez aquele elemento que ninguém colocaria na sua equipa; na realidade, é o elemento que todos deviam colocar. E que em Lisboa encontrou a Luz para fazer a diferença a todos os níveis, até naquele onde não costuma riscar.

Logo aos seis minutos, Neymar foi solicitado nas costas da defesa germânica e, isolado, acertou no poste (6′). Um minuto depois, golo de Mbappé após uma boa zona de pressão mais alta que levou Gulásci a chutar contra Neymar antes de haver a sobra para o francês mas com a bola a bater no braço do brasileiro. Sabitzer, com um remate de fora da área que saiu à figura de Sergio Rico (Navas, lesionado, também esteve ausente), deixou a primeira ameaça do RB Leipzig mas era o PSG que, passando o meio-campo com bola, ia conseguindo encontrar forma de chegar à baliza contrária: na sequência de um livre lateral, Di María assistiu para a entrada vitoriosa de Marquinhos a fazer o 1-0 (13′); lançado mais uma vez nas costas da defesa, Mbappé atirou na área para grande defesa de Gulásci para canto (17′). Os franceses sabiam os pontos fortes dos alemães e não tiveram pejo em atacar nesse sentido: em termos individuais, Upamecano, um dos melhores centrais da atualidade e um dos dominadores das linhas defensivas para os próximos tempos, teve sempre diagonais nas suas costas; no plano coletivo, sabendo da qualidade de transição ofensiva, houve uma aposta em forte de defender alto sem medo dos espaços nas costas.

Laimer, numa das raras iniciativas em que ganhou espaço pela direita, cruzou atrasado para o desvio na passada ao lado de Poulsen. Foram precisos 25 minutos para o RB Leipzig fazer uma vez o que costuma fazer pelo menos 25 vezes ao longo de um jogo. O remate do capitão saiu desenquadrado e não conseguiu também dar aquele abanão numa equipa que assumiu em demasia o papel de outsider na disposição em campo, com mais vontade de ficar menos exposto a sofrer do que colocado mais perto de marcar. E foi de novo o PSG, entre uma posse mais segura e jogando muitas vezes ao primeiro toque por ter jogadores de classe para isso, que ficou perto do 2-0 de novo de bola parada, num livre lateral à direita batido com efeito surpresa por Neymar que bateu no poste (35′). O número 10 estava on fire, como tinha avisado nas redes sociais logo de manhã (o que motivou uma explosão da hashtag #NeyDay nos trending topics), e continuou a espalhar magia até ao intervalo.

No seguimento de mais uma boa zona de pressão alta, Gulásci recolocou mal a bola com os pés, Paredes fez o passe rápido para a área, Neymar assistiu Di María com um toque artístico e o argentino fez o 2-0 (42′). Pouco depois, o mesmo Neymar apareceu na passada a desviar um cruzamento ao primeiro poste mas a bola saiu a rasar o poste. O sorriso de malandro do brasileiro resumia 45 minutos de futebol: quando está focado, concentrado apenas no que melhor sabe fazer, bem no plano físico e motivado para abrir o leque de predestinado como poucos têm no futebol da atualidade, Neymar torna-se quase imparável. E se o PSG foi superior a todos os níveis, da parte tática ao jogo coletivo passando pela própria predisposição mental, o número 10 fazia o resto da diferença.

Ao intervalo, Nagelsmann tentou reinventar o jogo com duas alterações que recuperou o habitual sistema tático do RB Leipzig, lançando em campo Schick e Forsberg para os lugares de Nkunku e Dani Olmo (o mais desequilibrado entre o que se esperava que desse e o que conseguiu dar). E nos dez minutos iniciais o PSG não teve qualquer ação ofensiva perante uma formação germânica mais subida e intensa mesmo sem criar oportunidades. Essa foi outra das diferenças entre os dois conjuntos: os franceses não só criavam chances como conseguiam concretizar com uma eficácia assinalável. Em mais um erro defensivo, e com um toque de Herrera no pé de Mukiele pelo meio que deu a sensação de ser falta, Ángel Di María fez a segunda assistência do jogo para a cabeça de Bernat (56′).

O RB Leipzig teve esse mérito de não ter quebrado por completo em termos anímicos, nunca perdendo o foco de construir jogo para pelo menos atenuar os números da derrota num jogo histórico onde pouco ou nada correu bem. Em contrapartida, e mesmo com uma intensidade mais baixa, o PSG foi gerindo com bola a vantagem, criando por mais do que uma vez perigo junto da baliza dos germânicos como aconteceu por Mbappé em três ocasiões em dez minutos (70′, 72′ e 80′). O conjunto de Tuchel já atingiu a primeira final de sempre da Champions e espera agora o vencedor do encontro entre Bayern e Lyon para saber quem terá pela frente. Se for um jogo entre franceses, parte como favorito; se for um duelo com alemães, nem por isso. E terá de ser mais perfeito do que hoje.